A fraqueza da desunião palestina

Fatah e Hamas teriam de atuar juntos e não como gladiadores de rua se matando para reis estrangeiros

Rami G. Khouri*, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 21h01

O apelo do presidente palestino Mahmud Abbas, em 15 de novembro, para a "gangue" do Hamas ser expulsa de Gaza é compreensível, porém equivocado. Os membros do Hamas não são anjos. O fuzilamento pela sua polícia de sete manifestantes palestinos do Fatah, durante uma mobilização em favor do movimento, no início dessa semana, é um tipo de ação que mancha o nome da organização. Mas quando Abbas chama o Hamas de "gangue" e pede sua expulsão ele só faz piorar as tensões entre palestinos, num momento em que se precisa exatamente do contrário.O conflito entre o Fatah e o Hamas é um problema nitidamente palestino, mas reflete também uma tendência observada em todo o mundo árabe contemporâneo, onde Estados ou sociedades individuais estão sendo cada vez mais governados por autoridades múltiplas. E essas autoridades muitas vezes agem como mandatárias de potências globais e regionais que se defrontam no Oriente Médio, especialmente Estados Unidos, Irã, Arábia Saudita, Síria e Israel. Essa dupla autoridade dentro de uma soberania única é uma das mais estranhas contribuições dos árabes para a história da governança no mundo moderno, como se verifica no Líbano, Iraque, Sudão e Somália, com outros países indo provavelmente na mesma direção.O dilema na Palestina é o mais grave, porque tanto o Hamas como o Fatah foram eleitos legitimamente pelo povo palestino. É improvável que um consiga derrotar o outro militarmente em todos os territórios palestinos, e certamente não queremos que esse tipo de choque aconteça. O breve confronto em Gaza no início do ano, depois do qual o Hamas assumiu o controle de todo o território de Gaza, foi um espetáculo triste, porém inevitável. A alegação do movimento de que precisava derrotar as forças de segurança do Fatah porque elas planejavam um ataque, com apoio americano e israelense, será comprovada ou desacreditada pela história no devido tempo.Mas esse não é um problema isolado. Através da região, grupos que refletem os dois principais campos ideológicos no Oriente Médio ou querem um rebaixar o outro politicamente - como em Beirute central - ou combatem nas ruas com armas - como na Palestina. Instigar ainda mais essa disputa com apelos para a expulsão de um lado ou de outro é um comportamento ingênuo. É também combustível para exacerbar os enfrentamentos. O problema do presidente Abbas é que a preocupação generalizada sobre a tomada de Gaza pelo Hamas é contrabalançada pelo desprezo manifestado com relação ao desempenho do Fatah. Se o Hamas é uma "gangue", como diz Abbas, o Fatah não é muito melhor e tem, na verdade, um longo passado de má administração, incompetência e corrupção.As tensões entre palestinos são exploradas pelos Estados Unidos e Israel, que tentam destruir o Hamas apoiando Mahmud Abbas e o Fatah e pressionando por um novo e bizarro processo de paz que, supostamente, se iniciará com a reunião em Annapolis, Maryland, nas próximas semanas.O processo de paz impulsionado pelos Estados Unidos não terá credibilidade nem sucesso caso um dos seus principais objetivos seja explorar e aprofundar a divisão entre o Hamas e o Fatah e, estruturalmente, ligar os confrontos entre os palestinos à retomada das conversações de paz. Tentar derrotar o Hamas por esses meios implica um risco adicional de converter o presidente Abbas e o Fatah em colaboradores desacreditados, apegados ao poder a ponto de permitir que a vontade de americanos e israelenses se sobreponha às preferências eleitorais expressadas pelo povo palestino.A solução na Palestina é fundir as duas legitimidades representadas pelo Fatah e o Hamas e não transformá-los em gladiadores lutando até a morte enquanto imperadores estrangeiros assistem e aplaudem. Para lidar com grupos como esses é fundamental combinar duas coisas: a legitimidade local deles aos olhos do próprio povo; e sua legitimidade internacional em termos da disposição de respeitarem normas globais e as mais importantes resoluções e convenções legais das Nações Unidas. Em ambos os casos, tanto o Hamas como o Fatah têm altos e baixos. Juntos, porém, representam a identidade coletiva, a legitimidade e a força do povo palestino, e todos os palestino devem trabalhar para reforçar e fazer valer essa combinação de ativos. A abordagem americano-israelense, apoiada por europeus cada vez mais vacilantes e alguns governos árabes assustados, vai fomentar a discórdia e uma luta até a morte entre os dois movimentos. O que será uma catástrofe sob todos os aspectos.O Hamas não chegará a lugar nenhum porque é a resposta orgânica de muitos palestinos a três cargas sobrepostas: o fracasso da sua própria elite liderada pelo Fatah; as políticas agressivas persistentes de Israel e Estados Unidos; e a discórdia, a disfunção e a degradação da sociedade palestina. Tentar destruir o Hamas pela força, depois de ele ter sido eleito democraticamente, só iria fortalecer as verdadeiras forças de oposição, resistência e auto-afirmação que o levaram ao poder.É espantoso como os líderes do Fatah, de Israel, Europa e Estados Unidos recusam-se a ver essa realidade tão simples e a correspondente conclusão de que Fatah e Hamas precisam renegociar a formação de um governo de unidade nacional em vez de resolverem a questão guerreando nas ruas da sua sociedade destroçada. *Rami G. Khouri é diretor do Issam Fares Institute, da Universidade Americana de Beirute, e editor do jornal libanês Daily Star

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