Robson Fernandes/Estadão
Robson Fernandes/Estadão

A galáxia de Haroldo de Campos: o teórico, o tradutor e o poeta

Livro ressalta três facetas do intelectual brasileiro, tradutor, entre outros, de James Joyce

Dirce Waltrick do Amarante*, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2019 | 16h00

Não há como falar em tradução no Brasil sem citar Haroldo de Campos (1929-2003), que, como lembra Marcelo Tápia, estudioso da obra do poeta e crítico paulistano, é, no contexto nacional, “o maior pensador da tradução poética, tendo publicado um número significativo de textos que se somam num conjunto denso e coerente acerca do assunto”. Marcelo Tápia, aliás, junto com Thelma Médici Nóbrega, publicou em 2013 o livro Haroldo de Campos: Transcriações, com ensaios fundamentais de Haroldo sobre o tema. 

Intelectual extremamente erudito, Haroldo de Campos dialoga, em seus textos sobre tradução, com grandes pensadores brasileiros e estrangeiros, como Walter Benjamin, Roman Jakobson, Umberto Eco, Roland Barthes, Paulo Rónai e com ele mesmo (uma de suas características talvez seja a da autorreferencialidade). Em suas reflexões sobre tradução, mescla ainda as artes plásticas com as artes cênicas e a música (foi admirador, entre outros, do músico francês de Pierre Boulez). 

Para Haroldo de Campos, a tradução, principalmente no tocante a textos criativos, é “recriação, ou tradução paralela, autônoma porém recíproca”. Nesse sentido, prossegue o poeta, “Quanto mais inçado de dificuldades esse texto, mais recriável, mais sedutor enquanto possibilidade aberta de recriação”. O conceito de tradução como transcriação (“na terminologia que venho propondo”, como afirmou em um de seus estudos) atravessou fronteiras e fez escola. 

O poeta vanguardista não apenas teorizou sobre o processo tradutório, mas foi também (às vezes em parceria com o irmão Augusto de Campos) profícuo tradutor: verteu para o português do Brasil poesia chinesa, japonesa, grega etc. Entre os muitos autores consagrados que traduziu estão Dante, Goethe, Ezra Pound, James Joyce, Mallarmé e Octavio Paz

Antes de mais nada, Haroldo era um poeta. Com o irmão Augusto de Campos e o amigo Décio Pignatari, lançou o concretismo no Brasil, definido no Plano-Piloto para Poesia Concreta, publicado em 1958 na revista Noigrandes, fundada pelos três como “produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-formal)”, uma vez que “a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural”. A poesia de Haroldo, porém, foi além do concretismo, pois escreveu, entre 1963 e 1976, por exemplo o barroco (e alucinatório) Galáxias, um texto que parte de Finnegans Wake, de James Joyce, e de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Para o poeta, o livro era uma “viagem paródica, homérica e psicodélica ao mesmo tempo”, na qual “visões vertiginosas, de quadros, de lugares, de pessoas, de presenças (históricas e mitológicas) aparecem e desaparecem ao longo da tessitura verbal”. Esse e outros textos criativos de Haroldo já foram traduzidos para outros idiomas, como o inglês e o espanhol. 

Em Haroldo de Campos: Tradutor e Traduzido, que a Editora Perspectiva acaba de publicar, as três facetas do intelectual brasileiro vêm à tona: a de teórico da tradução, a de tradutor e a de poeta traduzido. A organização do volume é de Andréia Guerini, Walter Carlos Costa, professores e criadores do Programa de Pós-Graduação em Estudos Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina, o mais antigo programa dedicado aos estudos da tradução no país, e de Simone Homem de Mello, que fez pesquisa de pós-doutorado na UFSC e atua na Casa Guilherme de Almeida, também referência nos estudos da tradução.

O livro reúne textos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros que se dedicam à obra de Haroldo de Campos, quer como estudiosos da teoria da tradução, quer como tradutores de sua obra. Além disso, o volume traz depoimentos sobre Haroldo, destacando-se a entrevista de Boris Schnaiderman e Jerusa Pires Ferreira dada a Simone.

Schnaiderman começa com um relato bastante pessoal de seu contato com Haroldo de Campos: “Em 1962 ou 1963, eu ainda era muito avesso à poesia concreta. Mas, um dia, recebi o recado de que eles queriam me conhecer. Uma noite, os três poetas concretos de São Paulo – Haroldo, Augusto de Campos e Décio Pignatari – vieram à minha casa, acompanhados das respectivas esposas. A conversa foi muito animada, muito amiga. E ficou combinado que, aos sábados, eu daria aulas de língua russa ao Haroldo. O Augusto mais tarde se matriculou no curso de russo como ouvinte e chegou a cursá-lo uns dois anos”. O resultado desse encontro foi a publicação, como lembra Homem de Mello, de livros “fundamentais para a formação de poetas e tradutores no Brasil, como Poemas de Maiakóvski (1967) e Poesia Moderna Russa (1968)”.

Jerusa Pires Ferreira recorda que ele “tinha muito bom ouvido. Os dois, aliás: os dois irmãos têm uma ligação forte com a música, tanto Haroldo como Augusto. Também por causa do pai, me parece, que tinha piano em casa” E Schnaiderman completa: “O pai de Haroldo e Augusto é autor da letra e da música de várias canções!”. 

Ferreira acredita, por exemplo, que “para Haroldo, traduzir do hebraico tinha um sentido muito grande de sonoridade, percepção de uma linguagem adâmica inicial e sonora, oral, portanto, em causa, o hebraico bíblico. Ele começou a estudar o hebraico para traduzir a Bíblia: o Gênesis, o Bereshit. Veja que traduzir a Bíblia não é um capítulo qualquer da tradução. Isso requer um conhecimento de toda uma tradição de estudos bíblicos, de uma complexidade de recomposição sonora, que é uma coisa extraordinária”.

Da tradução da Bíblia à tradução da poesia oriental, o panorama (ou panaroma, para usar um neologismo dos irmãos Campos, oriundo da tradução de Finnegans Wake) é amplo. O poeta, ensaísta e tradutor espanhol Andrés Sánchez Robayna recorda que “é antiga, na obra de Haroldo de Campos, a atração pelo mundo oriental: pensemos somente para citar apenas dois textos, muito distantes no tempo no seu admirável ensaio de 1960 Hagoromo: Plumas Para o Texto, ou no poema Aisthesis, Kharis: Iki, de seu livro A Educação dos Cinco Sentidos (1985). Não seria justo, porém, deixar de mencionar aqui suas experiências de tradução criativa (transcriação) de alguns poetas chineses do Shi-King (Livro das Odes) ou dos haicaístas japoneses”.

A chinesa Ting Huang e o escocês John Corbett, autores do livro Concrete Poetry: Translation and Transmission (Poesia Concreta: Tradução e Transmissão), que assinam o ensaio Transcriar a Poesia Chinesa: Escritos Sobre Jade, no livro em homenagem a Haroldo de Campos, afirmam que se tem considerado as versões do poeta brasileiro da poesia chinesa, reunidas em Escritos sobre Jade, “a ilustração quintessencial dos esforços empreendidos por um tradutor para ‘captar a face concreta’ do ideograma”.

No ensaio Desafios e Oportunidades na Tradução Inglesa das Galáxias de Haroldo de Campos, a professora da Universidade de Alberta, Canadá, Odile Cisneros, conta sua experiência de traduzir Haroldo: “Curiosamente, o programa de escrita que Haroldo promoveu também estava isomorficamente ligado a suas ideias sobre tradução. Em outras palavras, os textos que Haroldo produziu, especialmente no caso das Galáxias, exigem o tipo de tradução por ele defendida”. Diz Cisneros que “suas traduções de textos de James Joyce, Ezra Pound, Stéphane Mallarmé, poesia clássica chinesa, poesia futurista russa, para citar apenas alguns exemplos, podem muito bem ser consideradas criações paralelas aos seus originais, influindo também na sua própria práxis literária”. Desse modo, a tradutora se inspirou nas ideias do próprio Haroldo para traduzi-lo “em colaboração com a renomada tradutora da vanguarda literária hispânica, a norte-americana Suzanne Jill Levine, e recentemente, da poeta e tradutora canadense, Erín Mouré”. 

Cisneros relata a dificuldade em torno da tradução de um texto cuja oralidade, segundo Haroldo, era fundamental: “Traduzir o som constitui, portanto, um enorme desafio, exigindo que se reconheçam os padrões rítmicos, os trocadilhos, as aliterações, as rimas internas e toantes e se procure produzir um padrão paralelo, uma música capaz de ecoar os efeitos do original. A diferença fundamental entre as estruturas silábicas do inglês e do português complica a tarefa do tradutor consideravelmente. Assim, o sossegado ritmo inicial do primeiro formante de Galáxias, ‘e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo’, se torna o mais econômico e staccato ‘and here I begin I spin here the beguine I respin and begin to release and realize life begins not arrives at the end of a trip’”.

Haroldo de Campos: Tradutor e Traduzido conta com textos de outros importantes especialistas na obra do poeta brasileiro, como Marcelo Tápia, Andrea Lombardi, Cyril Aslanov e K. David Jackson, o qual destaca a importância do poeta para a divulgação da cultura nacional: “Haroldo serviu de porta-voz da literatura brasileira no exterior, nas várias universidades onde atuou como professor e escritor visitante, defendendo sempre a criatividade brasileira”.

Diria, valendo-me de uma frase de Galáxias, que na obra de Haroldo de Campos, seja ela crítica, poética ou tradutória, “há milumaestórias na mínima unha de estória por isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende da glória tudo depende de embora”. Haroldo é, ele próprio, uma galáxia, como esse novo livro em sua homenagem parece fazer questão de destacar.

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE TRADUZIU, ENTRE OUTROS, JAMES JOYCE, GERTRUDE STEIN, EDWARD LEAR E EUGÈNE IONESCO

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