A grande reunião

Convenções presidenciais nos EUA definem a ordem do dia, determinam os temas de campanha e podem decidir eleições

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2008 | 22h10

Durante a eleição presidencial de 1824, os Estados Unidos se mostraram um país rachado. O Partido Federalista, criado logo após a independência de 1776, que defendia um governo central forte, havia ruído. Em seu lugar, sobrara solitário o Partido Democrata Republicano, que já não representava mais nenhuma ideologia. Naquele tempo, eram os deputados e senadores de cada partido que decidiam os candidatos à presidência. Não havia primárias, tampouco convenções. Isso estava para mudar.Os deputados e senadores do Partido Democrata Republicano, em Washington, escolheram William Crawford. Mas os núcleos regionais do partido não gostaram da escolha. Achavam que deviam ter voz no processo. Uns, na Nova Inglaterra, queriam John Quincy Adams para repetir um governo como fora o de seu pai, John Adams, segundo presidente dos EUA. Outros, os de Nova York, queriam os sonhos de expansão para o oeste prometidos por Andrew Jackson. Uns terceiros, do sul rural, queriam outro nome. Assim, em 1824, os quatro candidatos do único partido dos EUA disputaram uma eleição confusa que, no Colégio Eleitoral, terminou indefinida. O Congresso resolveu a disputa nomeando Adams presidente. E nunca mais os parlamentares teriam o monopólio da decisão.Para que um pleito conturbado como aquele não mais acontecesse, nasceram as grandes convenções partidárias que decidem os candidatos à Casa Branca. A temporada de 2008 abre amanhã, quando delegados do Partido Democrata de todo o país se reúnem em Denver para homologar a candidatura de Barack Obama. Na superfície, são festas produzidas para a televisão com o objetivo de alavancar as chances eleitorais perante os eleitores. Mas permanecem sendo grandes reuniões de gente vinda de toda parte que traz consigo anseios regionais e preocupações que definem a ordem do dia no país. Muitas das grandes crises da história política dos EUA foram expostas em convenções assim. A deste ano encerra um ciclo no qual a questão racial sempre esteve presente. Em 1860, o Partido Democrata Republicano já havia se dividido em Democrata e Republicano, que constituem a base do sistema bipartidário atual. Não havia primárias ainda, uma invenção do século 20, e era nas convenções que os presidenciáveis eram definidos. Quando, em 23 de abril, os democratas se reuniram na Carolina do Sul, seus membros já sabiam que a escolha de um candidato único seria tarefa impossível. Os delegados vindos do norte esperavam que o partido abraçasse os ideais abolicionistas. Os do sul, não. Sem fechar um acordo que garantisse a maioria de dois terços para definir um candidato, encerraram a convenção. Não foi só o partido que rachou. Os democratas do sul fizeram a secessão do país, que levou à Guerra Civil e à fundação, no sul, dos Estados Confederados da América.Enquanto isso, na convenção do Partido Republicano, um político inexperiente do Estado de Illinois se apresentava aos delegados e cativava todos com discursos firmes e bem apresentados. Quando Abraham Lincoln falava, era sempre de forma contundente e clara, sem os floreios comuns aos discursos do tempo. Foi essa firmeza que o levou à vitória e trouxe para o Partido Republicano muitos eleitores democratas do norte, que renegaram seu partido original.Em momentos-chave da história, as convenções sempre pontuaram as grandes discussões. Nos discursos, partidos se apresentam unidos ou rachados. Desde que elas passaram a ser eventos televisionados, em 1948, as convenções apresentam em definitivo os temas da campanha eleitoral. Na de 48, por exemplo, logo após o fim da 2.ª Guerra, a questão da raça voltou a atormentar o Partido Democrata. O candidato Harry Truman já ocupava a Casa Branca desde a morte de Franklin Roosevelt, em 1945. De terno de linho branco, Truman falou de madrugada a um público tenso, representante de um partido que tinha entre seus principais eleitores os negros americanos e os sulistas brancos, que resistiam à integração racial. Ele próprio sulista, o presidente começou a abertura racial que seus pares John Kennedy e Lyndon Johnson completariam nos anos 1960. Mas o partido perderia para os republicanos um naco importante de seus eleitores: os brancos do sul.Os republicanos também sofreram rachas ao longo da história. Em 1964, o conservador Barry Goldwater liderou uma vitória dura sobre os moderados. Goldwater era de um conservadorismo quase messiânico, que seduzia os militantes republicanos, mas era repudiado pelos industriais ricos, importantes financiadores do partido. De discurso em discurso, a convenção foi marcada pelo embate entre os dois grupos, uma batalha de idéias intensa que lançou o partido em uma eleição presidencial sem chances de vitória num país ainda comovido pelo assassinato do democrata John Kennedy. Em 1968, em compensação, foi a vez de os militantes democratas anti-Guerra do Vietnã transformar sua convenção numa batalha de fato, que incluiu invasão da polícia. A briga de idéias de 1964, como a briga de fato de 68, deixaram marcas que permanecem. O movimento conservador de Goldwater é o mesmo adotado depois por Ronald Reagan e George W. Bush. E o Partido Democrata, que declarou a 2.ª Guerra, a Guerra da Coréia e a do Vietnã, hoje, é o partido antiguerras.A eleição confusa de John Quincy Adams, um filho de ex-presidente, foi semelhante à de George W. Bush, em 2000. E, de certa forma, a convenção de amanhã, que homologará a candidatura de Barack Obama, remete à de Lincoln. Dois candidatos pouco conhecidos, homens de Illinois, políticos inexperientes que seduzem pelo discurso. Um, abolicionista, o outro, negro. A verve de Lincoln uniu o Partido Republicano em 1860. A dúvida é se Obama conseguirá conquistar os eleitores de Hillary Clinton ou se a convenção revelará um partido dividido.

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