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A Grécia de chuteiras

Não tivemos Platão e Homero, mas criamos uma poética do futebol que hoje amarga um jogo tedioso, pragmático, bisonho – e perdedor

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

04 Julho 2015 | 16h00

Viramos a Grécia do futebol. Nossas glórias no gramado também são conquistas de um tempo que passou. Os gregos criaram a cultura ocidental, inventaram a filosofia, a democracia, a lírica; nós inventamos o “jogo bonito” e vencemos cinco Copas do Mundo. Não tivemos Platão e Homero, mas com Pelé, Garrincha e outros artistas da bola criamos uma poética do futebol. A exemplo da Grécia no campo econômico, em outro campo fomos punidos e humilhados pela Alemanha, há exato um ano, pelo nada austero placar de 7 a 1. 

No nosso caso, merecidamente punidos. Perdemos melancolicamente a Copa América e estamos fora da próxima Copa das Confederações. Como a Copa América do Centenário, programada para o ano que vem nos EUA, periga ser cancelada por causa das tensas relações entre a Fifa e o FBI, a Rede Globo, sócia informal de nossa seleção, pode amargar um baita prejuízo, que alguns veem como um castigo à vista grossa que sempre fez para as picaretagens da CBF, ao rufar dos tambores de seu principal locutor esportivo. 

Há 10 anos, ao derrotarmos a Argentina na final da Copa das Confederações, Galvão Bueno não se conteve e exclamou diante das câmeras: “Como é bom ser brasileiro!” Seu brado ufanista talvez não combinasse bem com o Brasil real, cotidiano, o Brasil engolfado pela crise do mensalão, mas o futebol ainda era motivo de orgulho nacional. Fazia quatro anos que o tetracampeão mundial liderava o ranking da Fifa, o São Paulo acabara de vencer o campeonato mundial de clubes e Ronaldinho ficara com a Bola de Ouro. 

Quando chegamos à Copa de 2006, até nossos adversários mais jacobinos achavam que emplacaríamos o hexa. Para dar mais graça à sua bolsa de apostas, o diário inglês The Guardian pediu aos leitores que apontassem não o mais provável campeão, e sim o mais provável azarão, “a Grécia do torneio”, na expressão usada pelo jornal. Os gregos haviam vencido a Copa europeia de 2004 – e logo depois se recolhido à sua insignificância ludopédica.

No Mundial seguinte, as apostas voltaram ao normal. Mas o Brasil, eliminado nas quartas-de-final na Alemanha, deixara de ser o campeão virtual, o óbvio favorito. Mais do que isso: tornara-se o vilão do torneio. “Qualquer um, menos o Brasil”, conclamou o jornalista e escritor escocês Alex Massie. Não porque lhe desagradasse ver a seleção canarinho campeã pela sexta vez, mas porque se recusava a aceitar o triunfo do futebol pragmático (e nada bonito) imposto por Dunga, “um híbrido dos eficientes mas enfadonhos estilos de jogo de italianos e alemães”. Que, aliás, nem eficiente era, mas apenas enfadonho. E perdedor. Só para o Paraguai perdemos duas Copas América seguidas, ambas nas quartas-de-final e na decisão por pênaltis, bisonhamente cobrados.

A suprema humilhação do futebol brasileiro pode ocorrer no próximo Mundial. Se a seleção não passar pelas eliminatórias e o time alemão levar o caneco em Moscou, perderemos numa mesma competição as duas primazias que nos restam: nunca termos faltado a uma Copa e sermos os únicos pentacampeões da Fifa. Se o pior acontecer, só nos irá sobrar uma peculiaridade, de resto inglória: sermos a única grande potência do futebol que perdeu as duas Copas que disputou em casa.

Não será mais surpresa se o pior de fato acontecer. Jogamos hoje um futebol de segunda divisão, se comparado ao europeu. Técnica e taticamente. Nossos campos são péssimos, nossos técnicos medíocres e nossos jogadores malformados na base ou, se consagrados no exterior, mal escalados e pior treinados na seleção. Neymar não tem com quem jogar lá na frente, nem dispomos de um meio-campista inteligente, habilidoso e criativo – como Ganso, reiteradamente desprezado por Dunga. 

“O futebol brasileiro está doente, há muito tempo, do corpo e da alma”, diagnosticou Tostão, agora craque da crônica esportiva. Para tratá-lo, recomendou mais do que uma junta médica, uma verdadeira força-tarefa de “profissionais especializados, independentes e competentes, dentro e fora do campo”. Não é empreitada para “curiosos, oportunistas nem ex-atletas que não se prepararam tecnicamente”, adiantou, estabelecendo como prioridade “trazer o doente à realidade e acabar com as mentiras, como a de que o Brasil produz craques a cada esquina, além de reconhecer a evolução dos adversários”. 

Mais que depressa, o coordenador de seleções da CBF, Gilmar Rinaldi, prometeu a criação de uma comissão de notáveis (ex-técnicos, ex-jogadores, profissionais de diversas áreas, etc) para discutir os problemas do futebol brasileiro e instituir um curso profissionalizante de técnicos que atuariam, fiscalizariam e dariam um selo de qualidade da CBF a jogadores formados nas bases dos clubes. 

Se o ex-técnico da seleção João Saldanha estivesse vivo, aposto como sua primeira recomendação seria a demissão de toda a cúpula da CBF, sem exclusão de Gilmar e do atual presidente da entidade, Marco Polo Del Nero. Sob aplausos de Tostão e milhões de torcedores brasileiros, que ainda mais céticos ficaram ao saber que a tão prometida MP do Futebol teve seu texto recém-alterado por pressão dos clubes e esperteza da bancada da bola na Câmara dos Deputados. 

O limite de gastos do orçamento do futebol subiu de 70% para 80%, assim como a taxa de regras de redução do déficit dos clubes, que agora terão até 2021 para zerar suas dívidas. A intenção de transformar a seleção em patrimônio cultural do país, o que, indiretamente, facilitaria a fiscalização dos contratos da CBF pelo Ministério Público, também foi para o vinagre. Já vimos isso antes. 

No futebol brasileiro, a história se repete, mas não como Barça.

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