A guardiã do governador

Trabalhando em silêncio, Andrea Neves zela pela imagem do irmão, o presidenciável Aécio Neves

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2009 | 00h41

"Olhando nos seus olhos eu digo que isso nunca aconteceu." A frase, da jornalista Andrea Neves da Cunha, irmã mais velha do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, é dita ao repórter com firmeza. Conhecida por ser a guardiã da imagem de Aécio, Andrea respondia à polêmica surgida no domingo, quando um site noticiou, sem citar a fonte, que o político mineiro, pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB em 2010, teria agredido a moça que o acompanhava durante uma festa no Rio de Janeiro. Personagem que sempre evitou os microfones, essa belo-horizontina de 50 anos prefere, como diz o provérbio, trabalhar em silêncio. E é com discrição que acumula funções importantes no governo mineiro: a presidência do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) e a coordenação do Grupo Técnico de Comunicação do governo.

De um lado, Andrea ocupa o vácuo de um governador solteiro em um cargo tradicionalmente destinado à primeira-dama, onde é gestora de projetos sociais e culturais. A menina de seus olhos é o Valores de Minas, instalado em um galpão multicolorido no bairro do Horto, onde antes ficava uma antiga unidade da Febem e que recebe, todos os anos, 500 jovens entre 14 a 24 anos oriundos da escola pública para participar das oficinas de circo, teatro, artes plásticas, música e dança no turno complementar ao das aulas.

De outro lado, é Andrea quem põe as assessorias de imprensa das secretarias e estatais mineiras, como a Cemig e a Copasa, para tocar na mesma partitura, da qual é maestrina. Entre os jornalistas locais, é tida como competente, mas "um tanto categórica em suas opiniões" -, além de ser a voz que controla o temperamento, por assim dizer, festeiro, do irmão. "O governador tem verdadeira veneração por ela", diz um interlocutor próximo. "Quem manda é a Andrea", costuma brincar o próprio Aécio, nos corredores do Palácio da Liberdade.

"Essa é uma brincadeira típica na família", desconversa a primeira-irmã. "Meu avô Tancredo vivia dizendo que vó Risoleta era a chefe." Em meados da década de 70, Andrea, Aécio e a caçula Ângela - filhos do ex-deputado federal por Minas Gerais Aécio Ferreira da Cunha e de Inês Neves Faria - moravam no Rio e invariavelmente passavam as férias na fazenda da família em Cláudio, terra natal de d. Risoleta. Os dois disputavam quem montava melhor nas cavalgadas em que percorriam as casas dos vizinhos, violão nas costas, para serenatas regadas a café com leite e pão de queijo.

Andrea fez o primário no tradicional Colégio Sacré-Coeur de Jesus, na capital mineira, e concluiu o secundário no carioca São Vicente de Paulo. Mais tarde, enquanto Aécio formava-se em economia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Andrea trocava o curso de história pelo de jornalismo na PUC Rio. Se Aécio viajava pelo mundo como mochileiro, a irmã envolvia-se com o movimento estudantil, participava da campanha pela anistia e visitava a Nicarágua com uma amiga, "só para conhecer a revolução sandinista".

Na noite do dia 30 de abril de 1981, Andrea tinha 22 anos quando pegou o Corcel da família emprestado para ir a um show comemorativo ao Dia do Trabalho com um namorado. Saíram de Ipanema por estradas então ermas rumo ao Pavilhão Riocentro, na Barra da Tijuca. Chegaram atrasados, com a música começando e pararam em um canto afastado do estacionamento. "Foi então que ouvimos um barulho seco, parecia um pneu estourando", conta. Um homem surgiu cambaleando, com as mãos segurando as vísceras, que estavam aparentes. Tentou pegar um táxi, mas o motorista recusou-se e saiu arrancando. "Então, meus 15 anos de Sacré-Coeur falaram mais alto e eu ofereci ajuda."

O casal acompanhou o ferido até uma barraca do Corpo de Bombeiros, mas como ele sangrava em profusão, não haveria tempo de aguardar a ambulância. Foram escalados para levá-lo ao hospital mais próximo, o Lourenço Jorge, na Barra. Adeus show de Chico Buarque. Os dois concordaram, contanto que um bombeiro os acompanhasse. "Foi a nossa sorte", lembra Andrea. Ela ainda não sabia, mas a pessoa que encharcou o Corcel de sangue era o capitão Wilson Dias Machado, sobrevivente do atentado à bomba idealizado pela linha dura do regime militar que ficaria conhecido como o atentado do Riocentro. O artefato acidentalmente explodiu no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu na hora, ferindo o capitão.

Durante o percurso, o militar não deu explicações nem soltou um gemido sequer. "Essa coisa do treinamento foi o que mais me impressionou." A primeira versão dada pelo regime foi de que os dois militares estavam de folga, à paisana, e tinham ido assistir ao show. Dois estudantes teriam passado e jogado uma bomba dentro do veículo. "Muita gente me disse depois que se o capitão Wilson não tivesse sido socorrido por dois civis, e não houvesse uma testemunha - o bombeiro -, podíamos ter levado a culpa ou a história real nunca ter sido contada."

Apesar da opção tardia pelo jornalismo, a história sempre insistiu em cair no colo de Andrea. Ela colaborou como free lance no início dos anos 80 com a Revista de Domingo, do Jornal do Brasil, e com a Pais & Filhos, mas seu primeiro emprego foi no Centro de Pesquisa e Documentação de História da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), no Rio. E, após o episódio dramático da morte de Tancredo Neves, coube a ela a organização do memorial em homenagem ao avô em São João del Rey (MG). Fascina-a ver como Tancredo esteve presente nos momentos capitais em que a democracia brasileira se perdeu e se reencontrou. De ministro da Justiça de Getúlio Vargas que queria dar ordem de prisão aos comandantes rebelados e acabou vendo o presidente morrer em seus braços em 1954, passando a primeiro-ministro de João Goulart em 1961na tentativa de garantir sua posse, até a Presidência nunca exercida, após a vitória no colégio eleitoral, em 1985. "Meu avô era um homem dosado nas palavras, mas corajoso nas atitudes", orgulha-se.

Andrea teve uma breve experiência como secretária adjunta de Cultura no governo Hélio Garcia nos anos 90. E, quando Aécio foi eleito governador do Estado, em 2002, chegou ao Palácio da Liberdade com ele. Sua ascendência sobre o irmão gerava ciúmes em outros secretários e temor, justificado ou não, entre os repórteres que cobriam a agenda do governo. E, no final do primeiro mandato, um vídeo veiculado na internet por um estudante de jornalismo causou um estrago e tanto em sua imagem.

No documentário - incluído, com algumas modificações, no site da Current TV, canal de televisão independente dirigido pelo ex-vice-presidente americano Al Gore, com o nome Gagged in Brazil -, a comunicação do governo Aécio era acusada de inflar números positivos e pressionar a chefia dos veículos de imprensa no Estado para impedir notícias negativas. Citada nominalmente no filme, Andrea nega as acusações e as atribui à falta de um discurso da oposição diante de uma administração com 77% de aprovação, segundo pesquisa divulgada em março. "Nunca fizemos nada além do que uma assessoria profissional tem obrigação de fazer: corrigir números imprecisos e solicitar retificações quando necessário."

A última semana também foi tensa entre os assessores do governador de Minas. Na segunda-feira, ele deu um ultimato ao partido: se o PSDB não decidir quem será o candidato nas eleições de 2010 até dezembro, ele vai "voltar-se para Minas", ou seja, dedicar-se à campanha por uma vaga no Senado. "Sou candidato a presidente, não a vice", tem dito, pondo água na chapa puro-sangue encabeçada pelo governador paulista José Serra, defendida por Fernando Henrique Cardoso.

Problema pior veio no domingo, quando o blog do jornalista Juca Kfouri noticiou que Aécio teria dado "um empurrão e um tapa" na moça que o acompanhava no último dia 25, durante uma festa da grife Calvin Klein no Hotel Fasano, no Rio. Juca manteve o sigilo de sua fonte. Imediatamente, o acontecimento foi negado pela assessoria do governador e pela atual namorada de Aécio, a modelo e designer catarinense Letícia Weber. O também jornalista e blogueiro Ricardo Noblat disse ter ouvido "seis pessoas que estavam na festa do Hotel Fasano. Resposta delas: não viram nada".

Ao Aliás, Kfouri manteve a informação e disse ter "pelo menos mais quatro depoimentos de gente que viu o tapa e o empurrão, embora dois deles não jurem que foi na namorada, por não conhecê-la". Uma versão intermediária circula em Minas: a de que a namorada de Aécio teria tido uma crise de ciúmes, tropeçado à beira da piscina do hotel e recusado, furiosa, a ajuda do governador para levantar-se. "Não tenho ideia de onde esse tipo de história surge", diz Andrea. "Só acho curioso que um boato venha a atingir justamente aquela que é a qualidade de Aécio mais notada nas pesquisas qualitativas: sua afabilidade, seu caráter conciliador e o apoio que tem do eleitorado feminino." E cita uma frase atribuída a Churchill: enquanto a mentira dá volta ao mundo, a verdade nem terminou de se vestir para sair de casa.

Perguntada sobre a frequência com que Aécio aparece em eventos sociais e se tal exposição cabe a um potencial candidato à Presidência, Andrea rebate: "Ele sempre disse que não ia vestir o personagem. Não vai deixar de ser a pessoa leve que é por causa da política. Essa é uma lição que nosso avô nos deixou: o poder é transitório, a gente entra e sai dele, mas não pode deixar de ser aquilo que é",

Se é esse tipo de jogo pesado que a mantém distante dos cargos eletivos - os quais, garante, não pretende disputar -, Andrea diz que a questão é de timidez mesmo. "A gente é refém do temperamento que tem."

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