A guerra do fim do mundo Se você se preocupa com crianças, saúde, pobreza, agricultores, comida, fome, pense em 2013 como o ano zero da luta contra as mudanças climáticas - luta na qual só vale ganhar tudo, ou tudo perder

REBECCA SOLNIT

REBECCA SOLNIT É JORNALISTA, ATIVISTA, AUTORA DE 13 LIVROS. ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA A REVISTA AMERICANA THE NATION, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2012 | 02h07

Enquanto este ano conturbado chega ao fim, está de volta a temporada dos presentes. O presente que não vamos receber tão cedo é uma versão convencional do paraíso, aquele lugar onde não acontece nada de interessante e nada se exige de nós. Os presentes que já recebemos em 2012 incluem uma briga sobre o destino da Terra. Talvez não seja exatamente o que pedimos, e gostaria que não fosse assim - mas fazer um bom trabalho, ser necessário, ter algo para dar, esses são os verdadeiros presentes. E há ainda uma luta diante de nós, não apenas apocalipse e desespero.

Pensemos em 2013 como o ano zero da batalha sobre a mudança climática, na qual ou ganhamos de lavada ou perdemos feio. É terrível dizer isso, mas não tão terrível quanto os vídeos mostrando glaciares desaparecendo, a capa de gelo da Groenlândia derretendo, os mapas do futuro da Europa no qual estar no sul do continente durante o calor será catastrófico, sem falar das zonas equatoriais.

Durante milhões de anos, este mundo foi uma dádiva maravilhosa para todo ser que vivia nele, um planeta cuja atmosfera, temperatura, ar, água, estações e meteorologia estavam calibrados precisamente para permitir que nós - os seres humanos, as florestas e os oceanos, todas as espécies grandes e pequenas - prosperássemos. Ou ao contrário, éramos nós que estávamos calibrados para suas condições generosas, até mesmo abundantes. E essa dádiva agora está sendo destruída em benefício de alguns membros de uma única espécie.

A Terra que evoluiu para que a habitássemos está se tornando algo turbulento e pouco confiável, num ritmo excessivamente acelerado para que a maioria dos seres vivos possa se adaptar a ele. Isso significa que estamos perdendo pontos cruciais de nossa dádiva mais insubstituível e sublime, e alguns de nós estão sofrendo essa perda neste momento - do caramujo do mar cuja concha se dissolve nos oceanos acidificados aos cavalos que morrem de fome porque secas devastadoras tornam proibitivo o preço do feno, passando pelos agricultores bolivianos que pedem falência porque as geleiras que regavam seus vales vêm derretendo aceleradamente.

Esse não é só um problema para ambientalistas que amam espécies raras e lugares remotos: se nos preocupamos com as crianças, a saúde, a pobreza, os camponeses, os alimentos, a fome ou a economia, não temos escolha senão nos preocuparmos com a mudança climática.

As razões que nos obrigam a agir podem ser sombrias, mas poder lutar é um presente e uma honra. O que a luta nos dará em troca é entendimento, propósito, esperança, autoaperfeiçoamento e satisfação de ser parte de futuras vitórias. Mas o significado de vencer precisa ser imaginado numa escala inteiramente nova diante das notícias assustadoras que nos chegam.

"Infeliz é a terra que precisa de um herói", diz Galileu na peça de Bertolt Brecht sobre o cientista apóstata. Mas pelo menos o herói pode fazer algo a respeito da infelicidade, como fez o Sierra Club, que ajudou a impedir a instalação de 168 indústrias poluidoras movidas a carvão e levou à aposentadoria outras 125. O objetivo de sua campanha "Além do Carvão" é neutralizar as 522 indústrias do gênero existentes nos Estados Unidos, o que seria um triunfo colossal.

Vitórias semelhantes também compreendem o que não foi feito de nossas dádivas verdes: regiões que não foram devastadas pela técnica de fraturamento hidráulico, usinas a carvão que não foram abertas, montanhas que não foram dinamitadas por mineradoras, crianças que não tiveram asma ou envenenamento por emissões de carvão - o carbono que permaneceu na Terra e nunca conseguiu chegar à atmosfera.

O oleoduto Keystone XL, que levaria o poluente petróleo sintético do Canadá para a costa do Golfo, já teria sido aberto se não fossem os ativistas que circundaram a Casa Branca. No leste do Texas, ações extraordinárias em termos de desobediência civil vêm ocorrendo incessantemente desde agosto. Três militantes este mês penetraram por um bom trecho no oleoduto de um metro de largura e se recusaram a sair. As pessoas impedem com os corpos a passagem de equipamento pesado e vão para a cadeia na tentativa de impedir que o oleoduto seja construído. Muitas delas são do mesmo tipo de gente jovem e forte que ficou nos acampamentos do Ocupe, no início de 2012, mas bisavós, velhos e pessoas de meia-idade como eu também têm se mostrado ativas.

Nesse meio tempo, na Colúmbia Britânica, onde os especuladores do oleoduto procuravam rotas alternativas para transportar seus produtos destruidores da atmosfera para o exterior, membros da nação Wet'suwet'en desalojaram os inspetores e declararam gentilmente guerra a eles. Em Ohio, e em Nova York, a guerra contra o fraturamento hidráulico está se intensificando. A França proibiu esse método de perfuração, enquanto a Alemanha obteve enormes sucessos na busca de fontes energéticas alternativas sem carbono. Se a energia solar funciona lá, nós aqui não temos desculpa.

Meu pai, que durante a 2ª Guerra Mundial ainda estava no colégio, acompanhava as campanhas militares espetando num mapa na parede alfinetes que representavam tropas e batalhas. Poderíamos hoje mapear a América do Norte do mesmo modo e ver, acrescentando as batalhas contra a perfuração no Ártico, o fraturamento, a eliminação do topo das montanhas e outras várias depredações das grandes companhias de carvão e petróleo, que estão sendo feitas coisas consideráveis. Nessa guerra, a resistência vem combatendo há muito tempo, menosprezada pela imprensa tradicional tanto quanto a Resistência Francesa, que trabalhava na clandestinidade em sua época.

Há outra dádiva que já recebemos: as linhas na batalha que virá estão sendo traçadas de maneira mais nítida. A clareza ajuda quando sabemos seguramente onde nos encontramos, quem está do nosso lado e quem está contra nós.

Voltamos à luta de classes em todo o mundo, inclusive a greve dos professores de Chicago de 2012 e os protestos contra a Walmart nos EUA (que levaram a 1.197 ações em apoio aos trabalhadores mal pagos da companhia na Black Friday), bem como os levantes dos estudantes em Quebec e na Cidade do México.

Evidentemente, a guerra contra os trabalhadores e os pobres está se travando há dezenas de anos, só que não a chamamos "luta de classes" quando só os ricos estão combatendo duro. Nós a chamamos globalização corporativa, corrida para o abismo, cortes dos serviços sociais, privatização, neoliberalismo e cem outras coisas. Agora que os pobres estão revidando, podemos chamá-la pelo seu antigo nome. Talvez o que os conservadores tenham esquecido é que, se voltarmos para as tenebrosas divisões e pobreza pavorosa do século 19, poderemos também voltar para o espírito revolucionário daquele século.

Desta vez, entretanto, não se trata apenas de trabalho e de dinheiro. A luta de classes do século 21 está invadindo o mundo natural. Veremos então com clareza como a grande batalha ambiental do nosso tempo se refere ao dinheiro, quem se beneficia com a destruição do ambiente (bem poucos) e quem perde (todos os outros daqui para a frente e quase todos os seres vivos). O furacão Sandy e a seca que destruiu as safras na região atravessada pelo Mississippi, que afetou mais de 60% deste país, deixaram claro que a mudança climática está aqui e agora.

Em 2012, muitos se deram conta de que essa mudança é uma questão econômica e que a economia é uma questão moral e ecológica. Não faz muito tempo, inúmeros americanos estavam em cima do muro, influenciados pela guerra de propaganda das companhias petrolíferas que põe em dúvida até mesmo a existência da mudança climática.Entretanto, este mês, segundo a Associated Press, "quatro em cada cinco americanos disseram que a mudança climática será um problema sério para os EUA se não se fizer nada a respeito". Essa convicção geral sugere que agora existe um apoio amplo que pode estar crescendo para um movimento que faz das mudanças climáticas um problema central e urgente para todos.

Há dez anos, muitos achavam que a situação poderia ser até certo ponto revertida adotando-se um estilo de vida pessoal virtuoso baseado na renúncia: comprando carros híbridos, lâmpadas fluorescentes e coisas do gênero. Agora, a maioria dos que se preocupam sabe que as mudanças imprescindíveis não ocorrerão somente por escolhas dos consumidores. O que é preciso é a luta contra as entidades mais poderosas da Terra, as companhias de petróleo e gás e os políticos que servem a elas e não aos cidadãos.

Quando lembro do mundo no qual me criei, vejo o que lembrava o paraíso e também vejo todos os pequenos infernos. Fui criança na Califórnia, onde existia o melhor ensino público do mundo, as universidades eram praticamente de graça, a economia não afetava tanto as pessoas e os ricos pagavam um monte de impostos. O tempo era previsível e não pensávamos que pudesse mudar antes da próxima era do gelo.

Entretanto, era a mesma Califórnia em que a violência doméstica vigorava, gays e lésbicas eram discriminados abertamente, quase todos os funcionários eleitos do governo eram brancos e as pessoas nem sequer haviam aprendido a formular perguntas sobre exclusão e racismo.

O que significa que os paraísos existem apenas em parte e, quando olhamos para trás, vale a pena tentar ter uma ideia do quadro por inteiro. Os direitos conseguidos nos últimos 35 anos foram conquistados à custa de duras lutas, enquanto grande parte do que era negligenciado - a educação pública, o ensino universitário, os salários, a regulamentação dos bancos, o poder das corporações e as horas trabalhadas - iam escorregando para o inferno.

Quando lutamos, às vezes ganhamos; quando não lutamos, sempre perdemos.

E há mais uma dádiva agora: os jovens. Há muitos heróis entre eles: os Sonhadores, que defendem os imigrantes; os membros do Ocupe, que não só desafiaram Wall Street em sua sede e em outras partes do país, mas foram os primeiros a agir não oficialmente ajudando as vítimas do Sandy e acampando na porta do diretor executivo do Goldman Sachs nos últimos meses; os jovens que bloquearam aquele oleoduto das areias de xisto, fornecendo a tremenda vitalidade da 350.org ao mundo todo, e acabam de se organizar para pressionar as universidades a não aceitarem as verbas das companhias de combustíveis fósseis em 192 câmpus em todo o país.

O paraíso é superestimado. Nós sonhamos com o fim da miséria, mas quem realmente quer um mundo sem dificuldades? Aprendemos mediante erros e sofrimento. São esses os minerais que endurecem os nossos ossos e os marcos nas estradas que percorremos. E nós fomos feitos para caminhar, não para ficar sentados.

O novo filme de Steven Spielberg, Lincoln, nos lembra o que significa lutar por aquilo que importa. Libertar 5 milhões de escravos e abolir a escravidão para sempre significou renunciar a uma fonte de riqueza barata, utilizada havia mais de 200 anos. No início, fazer isso era inconcebível, salvo para os próprios escravos e para pequenos grupos de abolicionistas. Em seguida, tornou-se ousadamente radical, depois partidário, no qual toda a nação tomou partido, o combustível para uma guerra horrível. Finalmente, foi a lei da terra. Hoje, o desafio é desistir de, ou pelo menos reduzir radicalmente, nossa dependência de outras fontes de poder: petróleo, carvão e gás natural.

Os especuladores do carvão esperam que não consigamos estabelecer as relações entre as coisas, ou imaginar os vários futuros que podemos construir e eles destruir, ou perceber as formas belas e complexas que o mundo natural elaborou em nosso benefício e agora estão sendo sabotadas, ou descobrir a nossa consciência e voz.

Eles já estão brigando contra o bem-estar da nossa Terra. Sua ganância não tem limites. Sua imaginação não tem nada, somente limites. Revidemos. Nós temos o poder. É uma das nossas dádivas.

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