A guerra do general Degelo

Forças dos EUA terão de enfrentar os terremotos políticos que virão na esteira das mudanças climáticas

John M. Broder, The New York Times

15 de agosto de 2009 | 14h43

As mudanças climáticas no mundo vão criar enormes desafios estratégicos para os Estados Unidos nas próximas décadas, levantando a perspectiva de intervenções militares para fazer frente a tempestades violentas, secas, migração em massa e pandemias, dizem analistas militares e da inteligência. Tais crises provocadas pelo clima poderão derrubar governos, instigar movimentos terroristas ou desestabilizar regiões inteiras, segundo analistas e especialistas do Pentágono e agências de inteligência que, pela primeira vez, encaram seriamente as implicações das mudanças climáticas na segurança nacional.

 

Jogos de guerra e estudos da inteligência recentes concluíram que, dentro de 20 a 30 anos, regiões vulneráveis, particularmente na África Subsaariana, no Oriente Médio, Sudeste Asiático e Sul da Ásia, vão se ver sob a perspectiva de escassez de alimentos, crises envolvendo a água e inundações catastróficas provocadas por mudanças climáticas que exigirão respostas militares ou ajuda humanitária americana.

 

Um exercício realizado em dezembro na Universidade de Defesa Nacional, instituto educacional supervisionado pelo Exército, avaliou o impacto potencial de uma inundação em Bangladesh que levasse centenas de milhares de pessoas a buscar refúgio na vizinha Índia, desencadeando conflitos religiosos, propagando doenças contagiosas e causando enormes danos à infraestrutura do país.

 

"As coisas se complicam rapidamente", disse Amanda J. Dory, subsecretária adjunta da Defesa na área de estratégias, que trabalha com um grupo do Pentágono encarregado de incorporar a mudança climática ao planejamento estratégico da segurança nacional.

 

Grande parte do debate político e público sobre o aquecimento global tem se concentrado na busca de substitutos para os combustíveis fósseis, visando a reduzir emissões que provoquem gases do efeito estufa e promovendo negociações com vistas a um tratado internacional sobre o clima - e não em desafios potenciais à segurança.

 

Mas, para um número crescente de políticos dos Estdos Unidos, a temperatura em elevação no mundo, o aumento do nível dos mares e o derretimento dos glaciares são uma ameaça direta aos interesses nacionais. Segundo eles, se os EUA não levarem o mundo à redução do consumo de combustíveis fósseis e, em consequência, das emissões de gases que provocam o aquecimento, deverão eclodir crises globais ambientais, sociais, políticas e, possivelmente, militares que o país terá de resolver urgentemente.

 

Esse argumento pode se tornar a base para os debates no Senado no próximo mês, quando será discutida a legislação sobre energia e clima aprovada em junho pela Câmara. Os parlamentares que conduzem esse debate no Congresso só agora começam a usar o argumento da segurança nacional para que as leis sejam aprovadas.

 

O senador John Kerry, democrata de Massachusetts, presidente da Comissão de Relações Exteriores e um dos principais defensores da nova legislação sobre clima, diz que espera convencer os céticos do Senado batendo nessa tecla e assim conseguir que uma lei de grande importância seja aprovada. Derry disse que o conflito persistente no sul do Sudão, que já matou e deslocou dezenas de milhares de pessoas, é consequência da seca e da expansão dos desertos no norte. "Isso vai se repetir muitas vezes numa escala cada vez maior", disse ele.

 

O Departamento da Defesa passou a avaliar a questão da segurança nacional depois de o Congresso insistir muito para que as questões climáticas fossem incluídas em seu planos estratégicos.

 

O Pentágono e o Departamento de Estado já vinham analisando questões que há anos têm surgido em decorrência da dependência de fontes externas de energia, mas só agora estão considerando os efeitos do aquecimento global em seus planejamentos de longo prazo.

 

"A percepção de que a mudança climática apresenta desafios geopolíticos e de segurança é fundamental para os planos do Departamento de Estado e do escritório de questões climáticas", disse Peter Ogden, chefe de gabinete de Todd Stern, principal negociador do Departamento de Estado na matéria.

Embora os estrategistas da inteligência e do Exército já estejam preocupados há alguns anos com os problemas decorrentes das mudanças climáticas, desta vez o governo Obama trata a questão como um tema político central.

 

Um clima em mudança representa uma série de desafios para as Forças Armadas. Muitas instalações militares estratégicas são vulneráveis à elevação dos níveis dos mares e aos furacões. Na Flórida, a base da Força Aérea de Homestead foi praticamente destruída pelo furacão Andrew, em 1992; e a estação aeronaval de Pensacola ficou fortemente danificada pela passagem do Ivan, em 2004. Estrategistas militares estão estudando meios de proteger as grandes bases navais de Norfolk, Virgínia, e San Diego, Califórnia, da elevação do nível dos mares e tempestades violenteas.

 

Outra instalação vulnerável é a de Diego Garcia, um atol no Oceano Índico que serve de centro logístico para as forças britânicas e americanas no Oriente Médio e se eleva pouco mais de um metro acima do nível do mar.

O derretimento do Ártico também apresenta novos problemas para as Forças Armadas . A diminuição da calota polar, que vem ocorrendo mais rapidamente que o previsto há apenas alguns anos, abre um canal de navegação que precisa ser defendido e o acesso a riquezas submarinas que já são foco de uma disputa internacional.

 

Amanda J. Dory, que ocupa altos postos no Pentágono desde o governo Clinton, disse que observou uma "enorme mudança" no pensamento do Exército sobre a questão climática no ano passado. "Esses temas agora devem ser incluídos e seriamente debatidos na elaboração da estratégia da segurança nacional", disse ela.

 

No ano passado, o Conselho de Inteligência Nacional, que analisa informações para todo o governo, fez uma primeira avaliação das implicações da mudança climática para a segurança nacional. Concluiu que as mudanças no clima terão significativos impactos geopolíticos em todo o mundo e agravarão uma série de problemas, como pobreza, degradação ambiental e enfraquecimento de governos nacionais.

 

O estudo alerta para o fato de que as tempestades, secas e escassez de alimentos que resultarão do aquecimento do planeta nas próximas décadas criarão inúmeras situações que vão requerer ajuda de emergência.

 

"Os pedidos de ajuda humanitária vão exigir significantemente mais das estruturas de apoio e transporte das Forças Armadas americanas, o que pode reduzir a capacidade de prontidão e disponibilidade estratégica para operações de combate", diz o estudo. A comunidade de informações prepara uma série de relatórios sobre os impactos da mudança climática em países como China e Índia, um estudo dos combustíveis alternativos e um exame de como as relações entre as grandes potências podem ficar estremecidas em consequência de mudanças climáticas.

 

"Teremos de pagar para reduzir as emissões de gases com efeito estufa hoje, e haverá impacto econômico", disse o general Anthony C. Zinni, fuzileiro naval aposentado e ex-chefe do Comando Central. "Ou pagaremos mais tarde, em termos militares. E isso envolverá vidas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.