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A Guerra Fria sai do freezer

Novo golpe militar no Egito. Sakharov americano foge para a China e pede asilo à Rússia. Avião presidencial decola em Moscou e é desviado para Viena. Agência de Segurança Nacional dos EUA intensifica busca a milhares de documentos secretos em poder de um ex-colaborador da CIA sem destino.

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h09

Quem foi que disse que a Guerra Fria acabou? Ela só estava no freezer.

Ela tinha apenas quatro anos de provocações e hostilidades entre a Casa Branca e o Kremlin quando o coronel Gamal Abdel Nasser derrubou o rei Faruk e depois implantou a república no Egito, e oito anos quando Nasser nacionalizou e fechou o Canal de Suez, provocando a ira neocolonialista da Inglaterra, da França, antigas donas do pedaço, e de Israel. A crise só não foi mais longe porque a Casa Branca (leia-se Eisenhower) preferiu lavar as mãos e acumular algum crédito com os soviéticos, arrimos do nasserismo.

Sadat, também militar, sucedeu a Nasser, bandeou-se para o lado dos americanos e morreu num atentado. Em seu lugar entrou outro milico, Mubarak, que, pressionado, renunciou e passou o cetro aos militares, que agora retomam o que haviam cedido ao civil Morsi. Uma ciranda sem fim. Desta vez com um toque magritteano: "Ceci n'est pas un coup" virou mantra entre os que apoiaram a intervenção armada - e sabem falar francês, bien sûr.

Foi Vladimir Putin quem comparou o dissidente americano Edward Snowden ao dissidente patrício Andrei Sakharov. Favoravelmente. Não o faria se o físico nuclear, tenaz ativista em favor da liberdade e dos direitos humanos na antiga União Soviética, ainda estivesse vivo (morreu 35 dias depois da queda do Muro de Berlim) e atuante no país. Snowden pediu asilo ao novo czar da Rússia, que assentiu, mas lhe impôs uma condição: parar com os vazamentos, para "não causar danos aos nossos parceiros americanos".

Putin embromou Snowden, fez média com Obama e mandou um recado para seus súditos: posar de ativista pode, agir como ativista não, razão pela qual não autorizou o inimigo público da América a fixar residência na Rússia. Em outra demonstração de que preza menos a vida do que a missão que abraçou - quem pode duvidar do seu idealismo? -, Snowden recusou o cabresto e prosseguiu em sua via-crúcis, longe da órbita dos parceiros mais fiéis dos EUA.

O presidente equatoriano, Rafael Correa, que há tempos hospeda Julian Assange na Embaixada do Equador em Londres, acenou-lhe com uma porta aberta. Bolívia e Venezuela também abriram os braços, ainda que de forma evasiva. Como o presidente boliviano, Evo Morales, encontrava-se em Moscou, para um conclave sobre fontes de energia, um terrorista digital espalhou o boato de que Snowden, então vagando pelo aeroporto de Sheremetyevo, na capital russa, pegaria carona clandestina no voo de volta de Morales para La Paz.

Os americanos acreditaram e do freezer saiu mais um congelado da Guerra Fria. Menos eletrizante que aquele imbróglio com o U-2 americano derrubado em solo russo, porém mais complicado por envolver não dois, mas quatro ou cinco países europeus num melê diplomático.

Em maio de 1960, um Lockheed U-2, pilotado por Francis Gary Powers, fazia um trabalho de espionagem, xeretando e fotografando pontos estratégicos da Rússia, quando os espionados o pegaram. Powers ficou quase dois anos preso na União Soviética, sendo afinal trocado por um espião russo capturado nos EUA. O avião agora em questão não só era civil e de paz, mas também presidencial. E com o presidente Morales a bordo. E nenhum espião de carona.

Na dúvida, montou-se o cerco. Impedido de ser reabastecido em Lisboa e sobrevoar o espaço aéreo de França, Itália e Espanha, o avião presidencial boliviano teve de aterrissar em Viena, onde ficou 13 horas. Uma flagrante violação das convenções e acordos do transporte aéreo internacional, até prova em contrário executada por pressão dos EUA, o que levou o vice de Morales a um desabafo que encontrou eco na comunidade internacional: "Foi um ato de arrogância imperial".

A respeitada Index on Censorship lembrou aos países-membros da União Europeia de seu compromisso na defesa da liberdade de expressão e do direito ao asilo. "Os direitos de Edward Snowden deveriam ser protegidos, não criminalizados", insistiu a revista. Glenn Greenwald, o jornalista que se tornou a interface de Snowden com o mundo exterior, não fez por menos: os EUA se comportaram como uma "rogue nation", uma nação trapaceira. O Diário do Povo, de Pequim, tripudiou, realejando sua tese de que "a intrepidez de Edward Snowden rasgou a máscara santimonial de Washington".

O comportamento subserviente de Portugal, França, Itália e Espanha seria impensável alguns dias antes, quando, graças aos vazamentos proporcionados por Snowden, a União Europeia estrilara em uníssono contra os extensivos e contínuos atos de espionagem a suas embaixadas e missões diplomáticas em Washington, na ONU e em Bruxelas. O presidente francês, François Hollande, cantou de galo: "Não podemos aceitar esse tipo de comportamento entre parceiros e aliados". A chanceler alemã, Angela Merkel, resumiu o constrangimento geral com esta observação, só aparentemente correta: "Não estamos mais na Guerra Fria".

Como explicar a radical mudança de conduta da França e seus vizinhos? Teriam aqueles países sucumbido à Síndrome de Viena? (Síndrome de Viena: versão atualizada da Síndrome de Estocolmo ou o sentimento de simpatia que um sequestrado desenvolve em relação a seu sequestrador, por identificação, espontânea ou induzida, com sua causa, ou por pressão psicológica para se tornar a ele simpático.)

Ou estariam com medo da revelação de outras e mais graves manifestações de subserviências passadas (vista grossa para voos e trânsito de operações clandestinas e ilegais da CIA), contidas nos quatro laptops abarrotados de documentos secretos da Agência de Segurança Nacional que Snowden tem em seu poder?

Calar Snowden ou secar-lhe a fonte de incômodos segredos não parece interessar apenas à Casa Branca, mas também a seus aliados e parceiros. Mas não custa lembrar que de todo o material recolhido por Snowden foram tiradas múltiplas cópias criptografadas estocadas na internet. Sua prisão ou morte será, muito provavelmente, uma vitória de pirro.

O governo da Espanha descartou na sexta-feira um pedido de desculpas à Bolívia pela retenção do avião do presidente Evo Morales e negou que tenha proibido a escala nas Ilhas Canárias. Para Evo, países da Europa deveriam "se libertar do império americano".

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