A harmonia dos caranguejos

Bela, corajosa, a arte de Weiwei, que tanto bagunça as regras do regime chinês, é tema de uma exposição grandiosa em Paris

Francisco Foot Hardman, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h08

Ai Weiwei, em sua já extensa e variada produção artística, que combina de modo muito peculiar traços da arte moderna, de tradições artesanais chinesas, do pop, da arte conceitual e performática, recusa a posição confortável que curadores, críticos e público sempre se mostram dispostos a lhe oferecer: a do artista iluminado ou a do criador cultural visionário. Crente ainda nos elos indissociáveis entre arte e vida presente, numa tradição que remonta ao melhor romantismo libertário, prefere imaginar-se como um mediador de informações que só possuem sentido quando imediatamente coletivizadas e transformadas livremente pelos receptores. Ou, se preferirem, como um socialista radical da comunicação.

Em sua trajetória, fundada numa ética do livre pensamento e da crítica como ato criador, nunca houve lugar para esteticismo nem massificação. Haveria que trombar de frente, cedo ou tarde, com o Estado-Partido, sobretudo quando este converte o progresso incondicional em razão única de ser de toda a sociedade. Tornou-se dissidente na China. Mas, antes disso, em seus anos de formação, era dissidente em Nova York, vivendo a cultura underground no East Village, ou pouco antes em Filadélfia e Berkeley, fascinado pela irreverência primeira de Andy Warhol e pela poesia de Allen Ginsberg, de quem ficou amigo. Fotógrafo infatigável, desde essa longa estadia americana (1981-93), mas reafirmando sempre que usava a fotografia apenas como meio, como registro pessoal, despida de qualquer ilusão realista, fazendo de seu próprio corpo fotografado uma "mídia carregada de mensagem", Weiwei serviu-se também freneticamente do blog, entre 2006 e 2009, quando foi interditado e confiscado pelo governo chinês. Mais recentemente, valendo-se de uma conexão proxy externa, tem mantido um Twitter de resistência que, graças ao caráter sintético do ideograma em mandarim, faz render o limite de 140 caracteres para muito além do que seus censores desejariam. Num dos seus últimos posts, em maio de 2009, lê-se: "Estou pronto. Recusar o cinismo, recusar a colaboração, recusar o medo e recusar 'beber chá' (na linguagem cifrada da blogosfera chinesa 'beber chá' significa ser interrogado pelos serviços de segurança); não há nada a negociar. Digo o que sempre disse: não me venham buscar novamente. Não vou colaborar. Se vocês tiverem mesmo que vir, então tragam seus instrumentos de tortura".

Esta radicalidade da recusa não é estritamente política. Compõe-se numa visão do mundo e da vida que o coloca sempre num lugar "ordinário", como gosta de repetir, ao lado das multidões anônimas, das pessoas comuns e ordinárias que fazem a roda da história girar. Suas obras, no que de melhor a modernidade lhe ensinou, dessacralizam o espaço e o tempo. Em janeiro de 2008, sobre o processo artístico, postou, nada ingenuamente: "Não uso quase nunca a palavra 'criatividade'; prefiro termos como 'fantasia', 'vislumbre', 'descoberta', 'subversão' ou 'crítica'".

Para quem ainda pouco conhece a obra de Weiwei, esta grande mostra Entrelacs (Entrelaçamento), que o museu Jeu de Paume abriu nesta semana, em Paris - sem dúvida a maior retrospectiva de seu trabalho e montada, em sua totalidade, com painéis fotográficos, vídeos e transcrições de seus blogs -, é uma chance rara para fruir. Mesmo na Europa, fora da Alemanha, Suíça e Inglaterra, onde já aconteceram exibições importantes do artista, ele permanece meio incógnito, atrás da crônica que suas prisões e atual confinamento têm desencadeado. Talvez então por esse relativo ineditismo, o jornal Libération ousou na edição da última terça-feira, coincidente com a abertura da exposição. Deu capa inteira a Ai Weiwei, mais cinco páginas internas e editorial, além de citações de seus blogs, Twitter, entrevistas e fotos inéditas espalhadas por todas as seções do jornal. Seu correspondente em Pequim, Philippe Grangereau, conseguiu ainda "recolher" uma entrevista com o artista, certamente em condições difíceis, pois ele é mantido sob estrita vigilância em prisão domiciliar.

Na desafiante tarefa de traçar toda a trama que seria capaz de suscitar, na concepção própria de Weiwei, diferentes entrelaçamentos, não há como escapar dessa evidência grave a que sua biografia nos obriga: o incômodo artista é filho do poeta Ai Qing (1910-1996), um dos grandes nomes da poesia moderna chinesa no século 20. Estudante de arte, filosofia e literatura na França no final dos anos 20, cativado por Renoir, Van Gogh, Maiakovski, Verhaeren, futuro amigo de Neruda e condecorado, entre outros líderes, por Mitterrand e Mário Soares, Qing caiu em desgraça pelo regime maoista no final dos anos 50 e foi desterrado por vinte anos, vivendo na região da Manchúria (extremo nordeste) e no deserto da província de Xinjiang (extremo noroeste). Ai Weiwei, nascido em 1957, acompanhou, com menos de 2 anos de idade e até quase os 20, o confinamento da família e a luta do pai pela vida, pela lucidez e pela poesia, mesmo nas condições mais abjetas impostas por seus algozes (viveram muito tempo em covas subterrâneas num campo de prisioneiros e Ai Qing era "reeducado" na limpeza de latrinas). Na volta do desterro, o poeta, já na era Deng Xiaoping, foi "reabilitado", inclusive seus escritos. Para quem quiser conhecer um pouco de sua obra que certamente ilumina a "arte de atitude" de Weiwei, há uma afortunada edição bilíngue em mandarim-português de A Poesia Escolhida de Ai Qing, organizada por Jin Guo Ping e publicada em Macau (1987).

Não outra razão que o agravamento da saúde do pai explica o regresso de Weiwei à China em 93. Retomou seus contatos com artistas plásticos e cineastas, que remontavam ao grupo de vanguarda As Estrelas, de que tomou parte ainda nos anos 70, ao cursar a Academia de Cinema de Pequim. Em junho de 94, exatamente na passagem dos cinco anos do massacre da Praça da Paz Celestial, visita-a com sua noiva e futura mulher, a artista Lu Qing. Tendo o retrato de Mao ao fundo, e os passantes do suntuoso espaço do poder ao centro, incluindo guardas em compasso mecânico, Lu Qing posa levantando a saia, numa citação clara de célebre foto de Marliyn Monroe, tendo ao lado um velho triciclo elétrico e seu condutor de costas, vestido à Mao. O impacto desse deslocamento de gestos e figuras trazido com a imagem é impressionante. Weiwei apenas a intitula: Junho 1994. Precisaria mais?

Na esteira dessa obra marcante, no reencontro com a história contemporânea da China e do mundo, Weiwei inicia a série de fotos Estudo de Perspectiva, que ele continuará obsessivamente por anos a fio, em que a mão do fotógrafo, num primeiro plano, fecha-se para deixar o pai-de-todos apontado, em clara alusão ao fucking off, tendo ao fundo, sempre, monumentos e paisagens canônicos, a começar da mesma praça Tiananmen, passando pelo deserto de Xinjiang, e repetindo-se frente à Casa Branca, Torre Eiffel, Reichstag, Torres Gêmeas, Coliseu e dezenas de outras locações.

Mas a iconoclastia desses e outros ensaios, como seu famoso Deixando Cair uma Urna da Dinastia Han, fazem contraponto a outra perspectiva, a do encontro, da reunião pontualística e multitudinária, do rastro de esperança que acompanha todo novo projeto arquitetural. Assim que se vê sua contribuição decisiva ao design coletivo da arena Ninho de Pássaro, para os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 (sua crítica ulterior foi ao uso monumentalista que a propaganda oficial fez do estádio). Assim também sua instalação gigantesca Sementes de Girassol, na Tate Modern, em Londres, em 2010, feita só com milhões de sementes dessa flor, convite ao passeio e à livre modelagem de coisas e palavras. Assim, igualmente, seu documentário visual sobre 1001 chineses "comuns", fotografados e nomeados individualmente, escolhidos por todo o país para viajarem a Kassel e integrarem a instalação Retratos de Contos de Fada, no âmbito da Documenta 12, em 2007.

Sua arte de choque persiste. A estupenda série de fotos feitas entre 2002 e 2008 é uma documentação dessas Paisagens Provisórias por toda a China, em que o olhar do artista se fixa sobre a destruição acelerada, em várias cidades, em nome do progresso como razão de Estado (e Partido). Só esse conjunto, a que se podem juntar as fotos do canteiro de obras do terminal 3 do aeroporto de Pequim, valem como lição de crítica cultural contemporânea e nos fazem lembrar, intensamente, da cinematografia afim de Jia Zhang-Ke.

Em maio de 2008, um terremoto devastador atingiu a província central de Sichuan. Calcula-se, pelo menos, 70 mil mortos e 5 milhões de desabrigados. Ai Weiwei viajou até lá e iniciou uma documentação fotográfica. Depois, centrou-se, com outras vozes dissidentes, na publicação da lista das milhares de crianças mortas, em parte devido à incúria das autoridades na construção de escolas vulneráveis. Formou-se uma rede solidária em seu blog. Chegou a publicar o nome de 5.385 crianças falecidas no sismo. O regime não suportou tal insolência à lei de silêncio imposta à catástrofe. Seu blog foi tirado do ar e jamais reativado. Ele foi preso e espancado. Em consequência, teve um coágulo de sangue na cabeça e viajou às pressas à Alemanha para ser operado. Continuou, na sua volta, em campanha pelo direito à memória e à verdade. Iniciou sua carreira no Twitter. Em janeiro de 2011, as autoridades ordenaram a demolição de seu novo estúdio em Xangai, que ele fora convidado a construir três anos antes. Em abril, foi detido e levado para local desconhecido, mantido quase três meses em isolamento absoluto e submetido a torturas físicas e psicológicas ininterruptas. Na impossibilidade de acusá-lo de crime político, forjou-se um processo de evasão de divisas, que serve de pretexto para seu atual confinamento.

Em um pôster recente, Ai Weiwei fotografa uma centena de caranguejos-de-rio, carapaças cinzas, negras e vermelhas. Alude a mais uma metáfora dos internautas. Em mandarim, esse crustáceo se pronuncia "hexie", termo que é homófono a "harmonia", eufemismo utilizado pelo governo para exercer a censura. Desde pelo menos 2004, invoca-se a necessidade de uma sociedade harmoniosa ("hexie shehui") para justificar o controle à web. Daí a identidade entre caranguejos e censores, outra cifra dos microblogueiros.

Desarmonizar os sentidos e as verdades bem postas pela convenção e o poder: eis a arte em situação, bela e corajosa, de Ai Weiwei.

 

FRANCISCO FOOT HARDMAN É PROFESSOR DE TEORIA, HISTÓRIA LITERÁRIA NA UNICAMP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.