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A história da arte da Índia é reunida em uma única fonte

A 'Academy Encyclopedia of Indian Art' conta com mais de 2 mil verbetes

Ginanne Brownell, The New York Times

30 de julho de 2022 | 16h00

A história da arte da Índia, que remonta aos desenhos das cavernas de Bhimbetka, 10 mil anos atrás, há muito é contada através de lentes ocidentais ou escrita por estudiosos indianos em um estilo denso e acadêmico, que parecia inacessível para a maioria das pessoas.

Mas isso mudou com a recém-lançada MAP, Academy Encyclopedia of Indian Art. Com mais de 2 mil verbetes iniciais, revisados por alguns dos principais historiadores de arte e especialistas do sul da Ásia, é um projeto de proporções inéditas.

“Se existe uma enciclopédia de arte indiana na Antártida, eu não sei, mas definitivamente não existe na Índia”, disse Abhishek Poddar, fundador do Museum of Art and Photography, ou MAP, em Bangalore, Índia, que iniciou o projeto. “Não existia uma única enciclopédia abrangente, o que é uma vergonha”.

A enciclopédia de código aberto – acessível no seu próprio site ou através do museu – terá entradas em forma de artigo, junto com imagens. Seu escopo cobrirá tudo, desde pinturas, fotografia, têxteis e artesanato até arte contemporânea da década passada.

A enciclopédia é ampla em termos de conteúdo e do público que almeja alcançar. Esse público inclui não apenas colecionadores, novos e experientes, mas também acadêmicos, curadores, estudantes e qualquer pessoa com interesse em aprender sobre a arte da região.

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Não existia uma única enciclopédia abrangente, a do MAP é a primeira
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“A enciclopédia é realmente fundamental”, disse Ayesha Bulchandani, colecionadora de arte indiana de Nova York que faz parte do comitê consultivo do MAP e é administradora da Frick Collection. “A presença digital desta enciclopédia realmente conecta culturas globais. E informará as bibliotecas, curadorias, equipes educacionais e a comunidade de membros, porque abre o diálogo entre as plataformas”.

De muitas maneiras, a história da enciclopédia é a história do próprio museu. Por causa da pandemia, não aconteceu a abertura física planejada há dois anos, embora sua estreia digital tenha sido um sucesso. (Espera-se que as portas presenciais se abram no final deste ano).

Um dos pilares do museu inaugurado por Poddar, industrial de sucesso e ávido colecionador de arte, era a educação artística, algo não considerado importante no país. “A cultura de ir a museus nunca se desenvolveu nem decolou na Índia”, disse ele, “e não temos os melhores museus do mundo, embora tenhamos uma arte realmente incrível”.

A MAP Academy é o braço educacional do museu que, além de montar a enciclopédia, foi encarregado de realizar cursos online de história da arte.

Seu diretor, Nathaniel Gaskell, que teve a ideia da enciclopédia três anos atrás, disse que tinha dois objetivos principais: proporcionar um melhor acesso à história da arte e apresentá-la de maneira mais diversificada em termos de região e gênero.

“Antes disso, as pessoas recebiam informações sobre a arte indiana de instituições ocidentais ou do mercado ou de acadêmicos muito especializados, que escrevem livros que a maioria das pessoas não consegue entender”, disse Gaskell por videochamada. A história da arte indiana, acrescentou, “não é apenas de reis e governantes, mas também de artesãos locais” e daqueles que trabalhavam com arte comunitária.

Para escrever a enciclopédia, a academia contratou mais de duas dúzias de acadêmicos e historiadores de arte indianos em início de carreira para pesquisar e redigir os verbetes, que são revisados por especialistas internacionais.

“A equipe do MAP estava usando alguns de meus livros como referência e me perguntou se eu poderia checar a precisão de suas entradas”, escreveu Rosemary Crill, ex-curadora sênior do Victoria and Albert Museum, em Londres, por e-mail. “No mundo confuso da Wikipédia e outras informações aleatórias, a enciclopédia pode se tornar o primeiro ponto de pesquisa para pessoas que desejam saber mais sobre aspectos específicos da arte e cultura indianas”.

As fronteiras geopolíticas, é claro, mudaram ao longo dos séculos, de modo que a enciclopédia abrange não apenas a história da arte da Índia, mas também a de todo o subcontinente.

Os artigos são escritos especificamente em estilo direto e fácil de entender, algo que fazia falta, disse Anirudh V. Kanisetti, editor da enciclopédia e autor de Lords of the Deccan: Southern India from the Chalukyas to the Cholas.

“Estou convencido de que o sul da Ásia precisa de uma escrita histórica mais acessível ao domínio público”, escreveu ele por e-mail. Comparada com a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos, a história da Índia, escreveu ele, tende a ser “muito mais densa e acadêmica”, observando que os jovens curiosos sobre seu passado “precisam de materiais que revelem sua complexidade” de maneira inteligente, mas compreensível.

Por enquanto, a enciclopédia estará em inglês, mas com o tempo também estará em idiomas regionais. O projeto também se concentrará na tradução de textos históricos de idiomas locais para o inglês, com o objetivo de acessar um público mais amplo.

Deepanjana Klein, chefe internacional da Christie’s para a arte contemporânea indiana e do sudeste asiático, usou como exemplo a arte histórica do estado de Kerala: “é muito rica, mas muitos dos textos estão em malaiali, que não é acessível à maioria das pessoas”.

Klein disse que a enciclopédia, que deve adicionar cerca de 1.500 entradas por ano, pode se tornar um recurso fundamental para jovens colecionadores que desejam aprender mais sobre como a arte se desenvolveu no subcontinente. “O mercado de arte é muito forte para o sul da Ásia e está ficando cada vez maior”, disse ela. “Quando as pessoas gastam US$ 500.000 ou mais, elas também pensam: ‘OK, no que estou gastando tudo isso? Eu preciso ter um pouco mais de compreensão sobre o que estou comprando’”.

Bulchandani concordou, dizendo que a enciclopédia aumentará o “conhecimento e a erudição” não apenas entre os colecionadores mais experientes, mas também para os mais novos, que têm uma visão diferente sobre o ato de colecionar.

“Eu estava falando sobre esse projeto com colecionadores mais jovens”, disse ela. “Eles não vão às bibliotecas. Não compram livros. Não colecionam as coisas como nossa geração fez. Para eles tudo é digital”. Esta enciclopédia, disse ela, “é uma inovação”.

Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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