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A história de um atentado e os crimes eleitorais em tempos de 'Lulapalooza'

Uma grande festa musical foi melada pelos guardiões da ditadura em 1981, no Rio, lembram?

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2022 | 16h00

Ele mente contínua e impunemente, faz chantagem sentimental e política com seus achaques, como parte de uma estratégia para incitar seu gado, gerar manchetes e futricas na mídia e desviar a atenção dos escândalos de corrupção encabeçados por ele, seu entorno familiar e aliados. 

No início da semana, ainda chamuscado por duas sucessivas humilhações – a perda de seu quinto aldrabão da Educação, por cuja honestidade se dispusera, horas antes, a queimar a própria cara, e a lollaparlapatice de sábado – Bolsonaro apelou, debalde, para mais uma cortina de fumaça ambulatorial. Na próxima internação, é possível que nem sequer examinem mais sua pressão.

Socorrido por um adulão togado do TSE, que, a exemplo do engavetador geral da República, Augusto Aras, também sonha com uma vaga no STF, o capitão acusou e ameaçou punir com rigor os organizadores e participantes do Lollapalooza por um “crime eleitoral” que só ele na verdade cometeu, no mesmo dia, durante o convescote do PL para crismar sua pré-candidatura à reeleição. Seu único castigo, até agora, foi entubar a transformação do Lollapalooza paulista num Lulapalooza de repercussão internacional.

Coroando a bazófia dominical, as bolsomotos voltaram a roncar e renovadas exaltações ao torturador Brilhante Ustra como que anteciparam os festejos de mais um aniversário do golpe de 64. 

Também me lembrei dele por estes dias. Não da quartelada em si, mas de uma grande festa musical melada pelos guardiões da ditadura, na noite de 30 de abril de 1981, no Riocentro, zona oeste do Rio. 

Era para ser um Lollapalooza de ritmos genuinamente brasileiros, em homenagem a Luiz Gonzaga e ao Dia do Trabalhador, com roteiro de Chico Buarque e as presenças de Gonzagão e Gonzaguinha, Gal Costa, Paulinho da Viola, além do próprio Chico e outras estrelas da MPB.  Começar o show até começou. Mas, às 21h30, uma bomba explodiu um Puma no estacionamento do Riocentro. 

Era “só para dar um susto” nos subversivos presentes, embora o risco de uma matança, imputável às esquerdas, não pudesse ser descartado. Quis o destino que apenas os executantes do atentado, um capitão e um sargento, sofressem as consequências do ato terrorista, de resto, planejado por setores protofascistas do Exército e da Polícia Militar, seguindo a cartilha do incêndio do Reichstag pelos nazistas alemães. O sargento, que trazia a bomba no colo (daí o apelido de “bomba neném” posteriormente conferido ao artefato), voou pelos ares. O capitão saiu do carro segurando as vísceras nas mãos.

Ninguém foi punido. O inquérito, conduzido pelo coronel Job Lorena, foi um dos mais revoltantes ultrajes cometidos pela ditadura. Os militares se desmoralizaram, o governo Figueiredo se enfraqueceu e a campanha pela volta da democracia ganhou novo alento.

Era só isso que eu queria lembrar.

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