A história sob a lente palestina

Segundo documentário, mandato britânico foi instituído para permitir a criação do Estado judeu

Igor Fuser e Marcia Camargos*, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2009 | 00h12

Em sua missão no Oriente Médio, o enviado especial do governo americano, George Mitchell, reafirmou quinta-feira a posição dos EUA em favor de um Estado palestino. Na véspera, em seu encontro com autoridades israelenses, ele garantiu que o compromisso americano com a segurança de Israel continua inabalável. A iniciativa de Mitchell é o mais novo lance de uma história que já dura quase um século - o envolvimento de governos ocidentais com o conflito entre árabes e judeus na Palestina.

As origens desse conflito são permanente tema de polêmica, que se reacende na medida em que novos registros vêm à tona. No documentário Al Nakba (A Catástrofe), exibido há duas semanas em São Paulo na mostra Imagens do Oriente, a jornalista palestina Rawan Damen revela, com base em papéis inéditos, mantidos até recentemente em segredo, que a expulsão dos árabes da Palestina a fim de abrir espaço para a criação de um país para os judeus da Europa fazia parte dos planos da Grã-Bretanha desde a decisão, tomada durante a 1ª Guerra Mundial, de implantar um protetorado britânico naquela região. Al Nakba é como os árabes denominam o ano de 1948, quando cerca de 1 milhão de palestinos tiveram de abandonar seus lares, a maioria deles à força, durante as lutas que marcaram a criação do Estado de Israel. Rawan Damen, a autora do filme, mora em Amã, na Jordânia, e trabalha na rede de televisão árabe Al-Jazira, sediada no Catar. A seguir, os principais trechos da conversa que ela teve com o Aliás.

UMA HISTÓRIA ANTIGA

"Encontrei um jornal de 1799, publicado em Paris, com a proclamação feita por Napoleão Bonaparte após a ocupação no Egito pelos franceses. Ele defende a instalação de um país para os judeus na Palestina. Napoleão foi o primeiro governante ocidental a apresentar essa ideia.

O OLHAR DOS VENCIDOS

"O filme mostra a história por um olhar palestino. As imagens até agora disponíveis mostram o ponto de vista dos judeus e o registro do domínio britânico na Palestina, que durou de 1920 a 1948. Minha grande dificuldade foi descobrir filmes palestinos. Encontrei-os nos arquivos de uma produtora de cinema, a Pathé, em Londres. Essas imagens provam que existia na Palestina uma sociedade desenvolvida, com uma riqueza cultural muito grande. Não era um recanto estagnado, como sugere a propaganda sionista.

INTERESSE BRITÂNICO

"Encontrei na Universidade de Oxford uma carta de 1915 em que o futuro alto comissário britânico na Palestina, o diplomata Herbert Samuel, propõe um Estado judeu e afirma que a única maneira de se fazer isso é por meio da remoção dos palestinos. Esse documento antecede em dois anos a famosa Declaração Balfour, quando o governo britânico se comprometeu a instalar um "lar nacional" para os judeus na Palestina. Nessa mesma carta, Samuel observa que ainda é muito cedo para fundar um Estado judaico. Antes disso, diz ele, seria necessário estabelecer um mandato britânico que se encarregaria de estimular a imigração maciça de judeus para a região. No ano seguinte, essa recomendação foi incluída nos acordos secretos de Sykes-Picot, entre ingleses e franceses.

ALIANÇA ESTRATÉGICA

"Até agora, não se sabia da existência de um documento oficial deixando claro que o mandato britânico foi implantado com o propósito de criar um Estado judeu. Esse era o objetivo dos ingleses desde o início. Nas décadas de 1920 e 1930, os palestinos negociavam com os ingleses sem saber que o plano de estabelecer um Estado judeu já estava definido. Muitos deles acreditavam que seria possível impedir que isso acontecesse. Pensavam: os britânicos têm o maior império do mundo, nós devemos negociar com eles. É o mesmo que acontece com os norte-americanos agora.

O PODER DA MINORIA

"Os documentos oficiais nada dizem sobre limpeza étnica, apenas que os direitos dos não-judeus seriam respeitados. Mas aí você vê que em 1920, quando o mandato britânico foi instalado, só havia 10% de judeus. E, quando você diz que vai instalar um Estado judeu num lugar onde a maioria da população é formada por não-judeus, você automaticamente está falando em transferência.

CONTRAPESO OCIDENTAL

"Os britânicos queriam um contrapeso aos árabes na região. Para isso, convinha instalar naquelas terras um reduto povoado por pessoas que tinham uma história comum com o Ocidente, totalmente à parte dos povos árabes do Oriente Médio... E conseguiram. Em seguida, ocorreu a grande revolta dos árabes da Palestina, entre 1936 e 1939. O mandato britânico esmagou a rebelião, causando mais de 5 mil mortes. Na realidade, a Palestina foi perdida pelos árabes em 1939 e não em 1948.

LONDRES CONTRA A HAGANÁ

"Eles não queriam ser vistos pelo mundo como pessoas que permitiram limpeza étnica. Sabiam que se a Haganá (o exército judeu) fosse deixada sozinha, promoveria uma matança de palestinos para expulsá-los. Os ingleses não queriam se envolver nisso. Mas, ao mesmo tempo, não queriam lutar pesado contra os judeus porque eles eram velhos aliados. Por isso, se omitiram diante das primeiras expulsões dos moradores palestinos, que começaram no início de 1948, quando os ingleses ainda estavam lá."

*Igor Fuser é doutorando em Ciência Política (USP). Marcia Camargos é doutora em História (USP) e autora de A Travessia do Albatroz, sobre refugiado iraniano

Tudo o que sabemos sobre:
Aliásdocumentáriopalestina

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.