A hora das células-tronco

Liberação da pesquisa por Obama vai acelerar descobertas e abrir oportunidades - para o Brasil, inclusive

Alysson Muotri*, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2009 | 22h15

Ao preparar-me para escrever este texto sou interrompido duas vezes pela secretária que precisa de minha sugestão sobre o formato das aplicações para as recentes propostas de financiamento do governo americano para projetos com o uso de células-tronco embrionárias humanas. "Não sei, ainda não tive tempo de ler a proposta até o final", explico. Volto ao computador e uma enxurrada de e-mails exige minha atenção, todos sobre o mesmo assunto: as novas propostas e a liberação do uso das células-tronco embrionárias humanas em pesquisa. Essas propostas fazem parte do pacote de estímulo econômico recentemente anunciado pelo presidente americano, Barack Obama, e a ordem para executá-lo.

 

Penada: investidores em biotecnologia começam a voltar. Haviam se afastado durante o governo anterior

O momento é único e a excitação é grande. Cientistas vêm acumulando evidências de que células-tronco embrionárias podem ajudar no tratamento de diversas doenças, hoje em dia incuráveis, como Parkinson, lesões da medula, diabete, entre tantas outras. Pela primeira vez, cientistas dos EUA terão oportunidades de candidatar-se a verbas federais para projetos de pesquisa com o uso de células-tronco embrionárias humanas. Corrigindo, podia-se fazer isso com algumas linhagens celulares restritas, obtidas antes do veto presidencial de Bush em 2001. O veto foi baseado no fato que o uso de células-tronco embrionárias acarretaria a destruição de embriões humanos, rotineiramente descartados por clínicas de fertilização. Infelizmente, as linhagens obtidas antes do veto apresentavam diversos problemas, incluindo a contaminação com produtos animais, descrita por nós em 2005. Ainda hoje o problema não foi resolvido; são poucos os grupos dedicados a isso. Esses poucos grupos nos EUA, especializados na manipulação de novas linhagens, estavam restritos a incentivos estaduais ou privados. Essa escassez de pesquisadores na área é resultado direto da política conservadora e ultrarreligiosa de Bush.

Com a abertura, diversos grupos agora terão a oportunidade de participar das pesquisas de ponta, não só aumentando a competição científica, mas também acelerando as descobertas. Pode-se trabalhar com diversas outras linhagens celulares, algumas carregando assinaturas genéticas de doenças humanas que podem agora ser usadas, por exemplo, em testes farmacológicos. As oportunidades de biotecnologia na área também aumentam e já se observa o retorno de investidores, antes acuados pela incerteza com as decisões de Bush. Mas as novas decisões não devem ser encaradas como uma promessa de cura. Esse potencial terapêutico das células-tronco embrionárias não vai se tornar realidade da noite para o dia. É preciso muito trabalho e dedicação. A ordem executiva e o pacote de estímulo de Obama vieram justamente dar suporte a esse trabalho. A promessa é de que o governo financiará a ciência, não de que a cura virá.

Mas diversas manchetes de jornais anunciaram que os cientistas conseguiram desenvolver células-tronco embrionárias sem o uso de embrião. Será que isso não basta? Uma das grandes descobertas científicas de todos os tempos é a indução da pluripotência a partir de células não embrionárias. Essas células reprogramadas se comportam de uma maneira bem semelhante às células-tronco embrionárias humanas. No entanto, começam a surgir as primeiras evidências de que não seriam exatamente idênticas. Aparentemente existem pequenas, mas significativas, diferenças. Além disso, outros problemas técnicos, como as alterações genéticas necessárias para a reprogramação, ainda não foram resolvidos em células humanas. Por essas razões, células derivadas de embriões humanos continuam sendo as que mais se aproximam do estado real do desenvolvimento humano e com maior potencial terapêutico.

A decisão de Obama de retirar o veto de Bush é compartilhada pela grande maioria dos eleitores que, independentemente de posição política ou religiosa, apoiam as pesquisas com células-tronco embrionárias humanas. Algumas restrições continuam, como a clonagem para reprodução humana. Nesse ponto, Obama assusta com sua clareza: questões éticas e morais serão baseadas em fatos científicos e não em ideologias. Por essa razão, o atual presidente se cercou de uma equipe científica de primeira linha. Todos os conselheiros são cientistas com bastante reputação acadêmica, incluindo-se o Prêmio Nobel Harold Varmus, ex-diretor científico NIH (National Institutes of Health).

A abertura de Obama terá impacto mundial. Responsável por mais de 50% das publicações científicas mundiais, os EUA são tidos como a grande locomotiva de descobertas. Durante o governo Bush essa posição foi abalada, principalmente na área das células-tronco embrionárias humanas. Só não despencou de vez por causa da Proposição 71, aprovada no Estado da Califórnia, que destinou US$ 3 bilhões por dez anos para financiar pesquisas com células-tronco. Outros Estados também desafiaram a posição de Bush oferecendo incentivos e pesquisa, bem mais modestos. Infelizmente, estima-se que a recuperação do atraso científico possa levar até dez anos. Espera-se que não seja o caso. Descobertas científicas acabam auxiliando o mundo inteiro, independentemente de onde foram feitas. Obviamente isso tem um custo. Futuros tratamentos, por exemplo, podem vir vinculados a patentes, restringindo o acesso aos menos privilegiados.

Por isso mesmo, incentivos em outras partes do mundo não podem parar, muito pelo contrário. No entanto, é preciso uma análise cautelosa, um rigoroso planejamento de como se investir na área. Por exemplo, já sabemos que financiamentos isolados, mantidos por um curto espaço de tempo, não levam a lugar nenhum. Da mesma forma que grandes redes de colaboração, têm pouquíssimas chances de sucesso se não houver massa crítica suficiente. Projetos tecnológicos, com um claro objetivo final, como o sequenciamento do genoma humano, têm mais chances de dar certo.

Vejo uma janela de oportunidade para o Brasil. Talvez a grande chance de nos emparelharmos com os EUA seja por meio de um investimento maciço em mão de obra especializada. Eu explico. Se mudássemos nossa atual posição de reter pesquisadores e passássemos a estimular sua saída maciça para laboratórios líderes na área, estaríamos criando uma massa crítica essencial para o avanço científico. Críticos vão apontar uma série de problemas nessa ideia. Impossível?

Decisões políticas fazem diferença, marcando gerações e influenciando a humanidade. Ao terminar seu breve discurso sobre a ordem executiva para o uso de células-tronco, Obama sentou-se e assinou com a esquerda. Disse apenas "aqui vamos nós", e seguiu para o compromisso seguinte.

*Professor da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego

SEGUNDA, 9 DE MARÇO

Restrições revogadas

Em ato na Casa Branca, o presidente Barack Obama revogou as restrições de seu antecessor, George W. Bush, à pesquisa científica com células-tronco embrionárias. "Não posso garantir que chegaremos às curas. Mas garanto que vamos buscá-las", disse.

Tudo o que sabemos sobre:
Aliáscélulas-tronco

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.