Ediora Todavia
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'A Ilha de Sacalina', a expedição de Tchekhov ao fim do mundo

Em 1890, o escritor russo decidiu empreender uma jornada à ilha-prisão usada pelo regime czarista para abrigar degredados e escreveu um livro sobre ela

Alberto Bombig, O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2018 | 16h00

A boa literatura ficcional está repleta de escritores obsessivos que criaram maravilhosos personagens movidos por uma obsessão. Após ter trabalhado em um navio mercante, o americano Herman Melville narrou, em Moby Dick, a história de um marinheiro cego pela vontade de capturar um cachalote. Em A Defesa Lujin, o russo Vladimir Nobokov, expert em xadrez, conta como um garotinho chega às raias da loucura atormentado pela guerra e por tentar resolver problemas do jogo de tabuleiro.

No caso da obra de Anton Tchekhov (1860-1904), a obsessão não foi parar na ficção e atende pelo nome de Sacalina, a grande ilha-prisão localizada no extremo Oriente do território russo, pertinho do Japão e das Coreias. Em 1890, ele surpreendeu a todos de seu convívio em Moscou quando decidiu empreender uma jornada rumo ao território inóspito, utilizado pelo regime colonial czarista para abrigar degredados. 

As razões para tal aventura jamais foram completamente esclarecidas. Entre preparações para a viagem, trabalho de campo e deslocamentos, a empreitada consumiu quase dois anos da vida do então jovem médico, dramaturgo e escritor. No ano anterior, 1889, Tchekhov perdera um irmão e, a essa morte, alguns de seus biógrafos atribuem uma certa desordem pessoal que teria tido peso na decisão de iniciar a expedição até a última fronteira do império czarista. Porém, nem o próprio escritor sabia exatamente que sentimento o movia e se referia a essa força como uma “mania sacalinosa”.

Como em todas as grandes narrativas épicas, o herói, no caso, o próprio Tchekhov, partiu, viu, venceu e voltou para contar suas façanhas e denunciar as mazelas da humanidade em A Ilha de Sacalina, livro que a editora Todavia acaba de lançar pela primeira vez no Brasil. A obra é uma mistura de reportagem (jornalismo-denúncia), relato científico e ensaio. Nela, não há nada da ótima e intensa ficção que Tchekhov produziu ao longo de sua vida. Não era necessário. Naquela época, Sacalina, por si só, desafiava a realidade e flutuava num pesadelo de mistérios no fim do mundo. “A alma é dominada pelo sentimento que, provavelmente, Odisseu experimentou quando navegava por mares desconhecidos e pressentia vagamente o encontro com criaturas extraordinárias”, escreveu o autor sobre o momento em que começava a se aproximar da ilha de Sacalina.

As dificuldades que Tchekhov encontrou para chegar até Sacalina e para regressar à capital Moscou, distantes entre si cerca de 9 mil quilômetros, são suficientes para dar uma ideia do tamanho da obsessão dele. O percurso de ida, segundo apresentação feita pelo tradutor (direto do russo) Rubens Figueiredo, demorou três meses, em viagens de trem, navio, coche e a pé. A volta foi feita por mar e consumiu mais dois meses da vida do escritor, que naquela altura contava 30 anos de idade, já sofria com a tuberculose e começava a gozar certo prestígio nos meios literários.

Tchekhov chegou à colônia penal agrícola da ilha sem sequer ter em mãos uma carta de apresentação. Ainda assim conseguiu ter acesso aos detentos, menos aos condenados por crimes políticos (há indícios de que, apesar da proibição, ele tenho podido conversar com alguns deles). Imbuído do espírito médico e científico, ele recenseou os cerca de 10 mil habitantes, aplicando-lhes um questionário preparado anteriormente para investigar essencialmente questões sanitárias, médicas, nutricionais. “Na colônia de deportados há 53 mulheres para cada 100 homens”, registrou ele. 

O espírito do escritor, no entanto, prevalece sobre o do médico. O estilo é direto e conciso, entremeado por reflexões e descrições. Os personagens parecem ter saído de seus contos. “O filho do arcipeste K., condenado por homicídio, fugiu para a Rússia, matou de novo e foi mandado de volta para Sacalina. Certo dia, de manhã cedo, eu o vi num bando de forçados, perto de uma mina de carvão: extremamente franzino, curvados, olhos turnos, num casaco de verão muito velho e com calças puídas por fora dos canos das botas.” A Ilha de Sacalina só foi publicado na íntegra em 1895. Em 1898, Tchekhov se mudou para o balneário de Ialta, onde escreveu A Dama do Cachorrinho e outros contos e peças de sucesso. Ele morreu em 1904, em Badenweiler, na Alemanha, vítima da tuberculose.

Além do maravilhoso relato de Tchekhov, completam a edição da Todavia a já citada apresentação, um texto do crítico Samuel Titan Jr. e duas cartas do autor. Obra essencial para a compreensão da poética e da vida de Tchekov, A Ilha de Sacalina é também um valoroso estudo da miséria humana, das injustiças sociais. 

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