A incômoda presença

É sofrido conviver com um prédio que se detesta, diz o 'Carl Sagan' da arquitetura

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2010 | 00h16

Se a arquitetura tem um Carl Sagan, um erudito capaz de popularizar uma atividade potencialmente elitista, o nome dele é Paul Goldberger. O autor, professor e crítico de arquitetura da revista New Yorker fechou 2009 com dois lançamentos simultâneos, graças à coincidência do calendário de editoras. Why Architecture Matters (Por que a Arquitetura É Relevante) é um exemplo do que podemos chamar de afetividade analítica. Goldberger quer comunicar a um público mais diverso a importância do objeto de sua paixão. O segundo lançamento, Building Up and Tearing Down (Construindo e Demolindo) é uma coleção formada principalmente por ensaios publicados na New Yorker, neste período que Goldberger considera estimulante, quando a arquitetura conseguiu se reinventar. O ganhador de um Pulitzer por sua crítica à arquitetura contemporânea mora no lendário Beresford, de 1929, um dos mais belos prédios de Nova York, pérola do classicismo romântico do começo do século 20. Quem lê sua prosa não há de achar nenhuma contradição no endereço.

ARQUITETURA E ARTE

"Considero um desserviço cultural tratar a arquitetura apenas como arte - como se faz com a pintura ou a música. Não podemos percorrer prédios como folheamos um livro ou como se estivéssemos num museu. Temos que conviver com as construções. Sei que a arquitetura tem altas aspirações, produz obras de arte, mas estou também interessado noutro contexto: como a arquitetura nos protege, nos afeta, forma nossa memória. Uma das grandes forças da arquitetura é também seu ponto vulnerável, ou seja, é o fato de que ela está sempre à nossa volta. É muito sofrido detestar um prédio a vida toda. Sou contra a complacência, mas acho que, ao longo do tempo, chegamos a uma certa tolerância com a arquitetura que nos decepcionou.

PRÉDIOS, RUAS, CIDADES

"Confesso que encontro algo do que gostar em quase toda cidade, mesmo um pouquinho, mesmo por um tempo. Porque as cidades são como pessoas. É fascinante descobrir o que define sua personalidade. Assim como você, ao conhecer uma pessoa, espera encontrar algo que lhe interesse nela, isso vale para a maioria das cidades. Você há de questionar a afirmação, ainda mais vinda de um crítico de arquitetura, mas estou convencido de que uma rua é mais importante do que um edifício. Uma grande cidade é feita de grandes ruas, mais do que de construções individuais. E só se pode conhecer bem uma cidade a pé. Não considero que visitei uma cidade até gastar a sola do sapato.

TORRES DE VIDRO

"Uma torre de vidro pode ser um objeto belíssimo. Porém fica mais bonita quando cercada de materiais diversos - pedra, madeira e outros. Houve essa tendência de plantar inúmeros prédios de vidro em Nova York. Eles não fazem a beleza de uma cidade. São belos individualmente, mas não fazem a cidade.

BRASÍLIA AOS 50 ANOS

"Nunca fui a Brasília, é uma falta minha. Tenho uma opinião sobre a cidade formada a partir de imagens, portanto, sei que é incompleta. Acho que o maior fracasso de Brasília é o mesmo de qualquer outra cidade do século 20: a dependência excessiva do automóvel, que é algo hostil à adaptação para outros fins urbanos. Mas mesmo sabendo que Brasília chegou a ser vista como um exemplo do que não se devia fazer, reconheço que a questão é muito mais complexa. O fato é que os grandes prédios projetados por Niemeyer têm forte poder como ícones. E a capacidade de criar ícones modernos, que comunicam algo, tal como os prédios da Antiguidade, é muito importante. O século 20 não nos deu grandes símbolos arquitetônicos. Então é extraordinário que o Brasil tenha decidido criá-los e tenha tido ao menos algum sucesso na empreitada.

CRATERA DO WTC

"Não sei se o impasse revela mais sobre arquitetura, sobre política ou sobre a sociedade americana. Mas, o que quer que seja, não revela nada de bom sobre os três aspectos. Em 2004, escrevi Up From Ground Zero: Politics, Architecture, and the Rebuilding of New York. A ordem das palavras do título é proposital, quer dizer, a política veio antes. Tivemos a ilusão, logo após os atentados, de que os arquitetos seriam tratados como reis filósofos, para criar obras belíssimas e cicatrizar nossa ferida. Nem sei se a arquitetura é capaz de tanto. O fato é que o sistema político e social não ia entregar tanto a eles e acabamos nesta bagunça. O grande erro foi a visão corporativa, a insistência em recolocar todo o espaço comercial e as características funcionais do World Trade Center. Deviam ter tratado o local como terra virgem. Não gosto do design da Freedom Tower. Poderia ter havido ali uma oportunidade de criar o mais avançado arranha-céu do nosso tempo. Os EUA inventaram o arranha-céu. Que lugar melhor, no momento em que o país está sob ataque e em crise, do que reinventar o arranha-céu para o século 21? Mas escolhemos algo muito ordinário. É uma história triste.

O ARQUITETO ESTRELA

"É impressionante o impacto cultural do Guggenheim de Bilbao, de Frank Gehry. Falo da cultura em geral, não da cultura artística ou arquitetônica. As pessoas viajavam para a Espanha para ver o prédio do museu, gente que não tinha interesse original em arquitetura. Conhecer Bilbao tornou-se tão importante quanto ler um romance de sucesso. Passou a fazer parte da conversa. Até então, a arquitetura não era convidada para o diálogo cultural mais amplo."

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