GABRIELA BILO | ESTADAO CONTEUDO
GABRIELA BILO | ESTADAO CONTEUDO

A independência do belo e do feio: 'Bienal tem mais fama pelas polêmicas do que por obras que expõe'

Lançamento no Brasil de clássico do filósofo italiano Benedetto Croce alimenta discussão sobre autonomia do fenômeno estético

Eduardo Wolf, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2016 | 16h00

Não é de hoje que a Bienal de Arte de São Paulo se notabiliza mais por temas que guardam relação acidental com o domínio artístico – quando não puramente estranhos ao universo da arte – do que propriamente por assuntos com cidadania própria no território a que antes chamávamos “artes visuais”. Uma tragicômica interdição do Ibama em instalação envolvendo urubus aqui, manifestações políticas atrapalhadas contra o Estado de Israel por parte da curadoria acolá, a verdade é que as diversas tendências que há algumas décadas comandam os negócios das artes contemporâneas têm, as mais das vezes, pouca ou nenhuma afinidade com os temas e as práticas que por mais de dois milênios caracterizaram a tarefa do artista – e a de seu crítico, diga-se. Lamentavelmente, não é diferente com esta 32ª edição da Bienal, aberta ao público até 11 de dezembro próximo.

Verificando as linhas gerais do que ali vai exibido, no entanto, é possível perceber que um filósofo e crítico como o italiano Benedetto Croce (1866-1952) articulou perfeitamente bem os tipos de compreensão limitadora e equivocada do fenômeno estético que testemunhamos esparramados pelo pavilhão da mostra. Tristemente esquecido em nossos meios editoriais, acadêmicos e críticos, Croce retorna ao circuito das ideias brasileiras agora com sua Estética como Ciência da Expressão e Linguística Geral (É Realizações), obra-prima de 1902 em que, entre outras ambições intelectuais, identifica modos de compreensão da estética que não hesita em chamar de “desvios e erros”. Hedonistas, moralistas e pedagogos, esses tipos apresentados por Croce (amiúde amalgamados, tanto na figura do artista quanto naquela do crítico em nossos tempos) nos acompanham desde há muito, e o fato de os encontrarmos todos no Ibirapuera hoje é talvez a única conexão entre aquilo que passa por arte no universo da Bienal e o que tradicionalmente se chamou de arte no Ocidente por 2 mil anos.

Quando tendem ao hedonismo, compreendendo a arte como um fato puro de prazer dos sentidos, frequentemente entregam o exercício artístico ao mero jogo sensorial – não por acaso, as crianças costumam ser os únicos frequentadores de Bienais que não saem decepcionados com a “interatividade” de instalações e coisas ainda menos notáveis. Quando tendem ao moralismo, atribuindo à arte a tarefa de dirigir-nos as vidas, autoproclamam-se pedagogos e dedicam-se a pequenos mantras da correção política e à repetição monótona de uma ideologia rançosa que constitui o núcleo de suas certezas inabaláveis, todas elas integralmente desconectadas das condições concretas em que as pessoas reais conduzem suas existências e sem qualquer abertura para que lhes apresentem a riqueza e a variedade das experiências humanas possíveis – aquele alargamento de sentidos existenciais que toda arte digna do nome sempre realiza. Acrescente-se esta nota contemporânea e autêntica, a bem da verdade: trata-se hoje, com raras exceções, de uma espécie de oligarquia cultural do dinheiro alheio – seja ele público ou privado – que escarnece de qualquer atividade crítica que lhes questione a destreza técnica, a riqueza da imaginação ou a validade das crenças que fazem passar por exemplo máximo da pureza ética, intelectual e artística.

Croce morreu em 1952, um ano após a primeira Bienal Internacional de São Paulo, época em que sua obra exercia ainda grande influência intelectual mesmo no Brasil. Seu interesse não estava primordialmente na crítica da arte moderna ou contemporânea, mas na articulação de uma filosofia da arte que a fizesse parte integrante de um sistema de pensamento completo. Na Estética, mais ainda, sua ambição está voltada para a delimitação do fenômeno estético, traçando todas as distinções necessárias para que questões lógicas (como Croce chamava o conhecimento universal, de tipo teórico) ou éticas (que, no sistema de Croce, figura sob a rubrica do conhecimento prático, voltado a fins universais), por exemplo, ainda que possam se avizinhar à estética, não pertencem de jure ao campo do belo e do feio.

No centro desse ambicioso projeto filosófico, elegante e rigorosamente explicado ao leitor brasileiro pelo professor Rodrigo de Lemos na “Apresentação à Edição Brasileira” que abre o volume, está a autonomia da estética. Das muitas teses e ideias defendidas por Croce ao longo deste caudaloso volume, poucas poderiam ser mais opostas e incompatíveis com as convicções contemporâneas do chamado “mundo da arte”. Certo, a empresa filosófica de Croce – a construção de uma “filosofia do espírito” que desse conta de todo o conhecimento e fazer humanos nos traz os ecos todos do idealismo alemão e de outras filosofias menores que lhe fizeram eco nos oitocentos. Verdade, a investigação pelos territórios da Linguística (que vai no título da obra) e da História não corresponde às compreensões mais ligeiras que o grande público dá aos termos ou ao que o encastelamento acadêmico contemporâneo terminou por lhes impor. Ainda assim, é aquela autonomia da experiência do belo e do feio, das intuições e da expressividade de um e de outro, o que mais repugna em Croce à compreensão contemporânea, acostumados que ficamos em nosso tempo a ver a arte cindida pela falsificadora disjunção “intelectualismo formalista” ou “engajamento político”.

O que a Estética de Croce oferecerá aos que se permitirem essa leitura exigente, mas cheia de recompensas é a chance de traçar a história desses acertos e desacertos da estética com suas áreas vizinhas. A segunda parte do tratado, que nos apresenta uma jornada pela História da disciplina a que chamamos “estética” antes mesmo que o nome lhe fosse dado (no século 18), é rica em exemplos de como as concepções hedonistas, moralistas e pedagógicas, por exemplo, sempre se imiscuíram nos negócios da estética. Afinal, o que estava fazendo Platão ao condenar as artes como a pintura e a poesia por afastarem o homem da verdade e, consequentemente, causarem mais males do que qualquer outra coisa ao cidadão? A veia moralista e pedagógica do platonismo, viva que esteve esses milênios todos, ganhou apenas contornos mais aborrecidos e menos sofisticados no engajamento contemporâneo – e em boa hora vem Croce trazer seu grito de independência da arte.

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