Editora Cultura e Barbárie
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A influência da arte primitiva nas vanguardas europeias, segundo um especialista

Livro reúne textos que o estudioso alemão Carl Einstein (1885-1940) publicou na famosa revista francesa 'Documents', em que analisou a semelhança entre arte primitiva e moderna

Sérgio Medeiros*, Especial para o Estado

23 de agosto de 2019 | 09h00

Acaba de ser lançada no Brasil a tradução dos textos que o estudioso alemão Carl Einstein (1885-1940) publicou na famosa revista francesa Documents, da qual foi, aliás, oficialmente o diretor, entre 1929 e 1930, atuando desde o início ao lado de nomes como Georges Bataille e Michel Leiris, entre outros intelectuais de prestígio internacional. 

O presente volume, publicado pela editora Cultura e Barbárie e traduzido por Takashi Wakamatsu, traz uma apresentação da historiadora francesa Liliane Meffre, que organizou a edição brasileira de Negerplastik (Escultura Negra), a obra-prima de Einstein que saiu em 2011 pela editora da UFSC.

Profundo conhecedor da arte moderna e da arte extraocidental (da África e das Américas, por exemplo), Einstein se expressava num estilo vigoroso e cativante e punha lado a lado o artista de vanguarda europeu e o artista anônimo de outras civilizações. 

Meffre descreve o seu discurso como “colisão visual das imagens” e “transversalidade entre os domínios de competência”, e resume assim seu percurso: “Inventor da ‘arte negra’ e autor da primeira análise formal das artes da África, Einstein pretende reencontrar na arte contemporânea os caminhos que levem à origem, às fontes da criação plástica”. 

Nos seus instigantes Aforismos Metódicos, agora traduzidos para o português, o crítico alemão celebra um “aumento da invenção alucinatória e mitológica” na cultura europeia e discute a noção de arte religiosa, a qual funcionou, em épocas remotas, como “uma proteção contra o invisível que ronda por todo canto e apavora; uma barreira ao animismo difuso que ameaça fazer o crente em pedaços”. 

É a partir dessa constatação que ele se põe a discorrer sobre o “caráter conservador” da arte que denomina de arcaica (a menor mudança pode comprometer a potência mágica do resultado), relacionando-a com a pintura que Picasso, Braque, Miró e outros vinham realizando em Paris em diálogo proveitoso justamente com esse “exótico” religioso (arcaísmo psicológico). Einstein ressalta nas obras de arte comentadas e reproduzidas na revista Documents a necessária superação do objeto e o advento do arbitrário, que “nos salva do mecanicismo de uma realidade convencional”. 

Einstein, ao defender que é papel da arte abalar a realidade com alucinações que quebrem as hierarquias dos valores, dá especial atenção ao objeto, os quais representam, segundo sua visão, um obstáculo à nova figuração dos artistas de vanguarda. “Faz-se muito alarde a respeito da destruição do objeto”, comenta num artigo sobre André Masson, propondo a seguir outra perspectiva: “Seria preferível falar de dissociação da consciência”, pois já não haveria, no cubismo e em outros movimentos modernos, concordância entre a experiência alucinatória (uma revolta individual) e a estrutura dos objetos fixos. Einstein decreta, parece-me, o fim da mimese: “Constatamos o retorno da criação mitológica, o retorno de um arcaísmo psicológico que se opõe ao arcaísmo das formas, puramente imitativo”. 

De um ponto de vista totêmico, explorado pelo autor de Negerplastik, é possível avaliar melhor as relações do homem moderno com os novos objetos que o êxtase e a identidade alargada lhe facultam. Haveria uma outra intimidade entre eles, graças ao desaparecimento dos limites dos objetos diante de um sujeito que já não os observa, mas vive na sua órbita. A esse respeito, Einstein afirma: “Podem-se desenhar os objetos observando-os ou valorizá-los como sintomas ou partes dos processos psicológicos. A distância entre o sujeito e o objeto é então diminuída. O homem e seus objetos formam uma unidade, e constatamos uma identificação totêmica que pode ser significada como um arcaísmo mágico ou psicológico. A formação não é mais determinada no sentido das sequências biológicas, mas de acordo com os processos das sequências alucinatórias”. 

A ênfase na passagem da observação para a visão alucinatória ou extática, na arte da sua época, encerra um elogio do quadro não como “a ficção de uma outra realidade”, mas como “uma realidade com suas próprias condições”. Por isso os cubistas se sentiram à vontade, após o fim do objeto fixo promovido pelos impressionistas, para “abrir os objetos como se abre uma caixa, e os despedaçar a fim de escolher os elementos que importavam para o quadro”, tornando mais ativos e vigorosos os movimentos ópticos que eram até então inconscientes. 

Assim, o animismo da arte religiosa arcaica retorna vitorioso na modernidade, sobretudo no cubismo, movimento privilegiado pelas análises de Einstein. Nas obras de Picasso e Braque, que analisa com brilho, ele aponta uma contundente recusa das formas já dadas: “Constatamos uma espécie de animismo formal, com a ressalva de que agora a força vivificante não vem dos espíritos, mas do próprio ser humano”. 

*SÉRGIO MEDEIROS É PROFESSOR DE LITERATURA NA UFSC E POETA. AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ‘A IDOLATRIA POÉTICA OU A FEBRE DE IMAGENS’ (ILUMINURAS, 2017), ‘TRIO PAGÃO’ (ILUMINURAS, 2018), ‘CALIGRAFIAS AMERÍNDIAS’ (MEDUSA, 2019) E ‘OS CAMINHOS E O RIO’ (ILUMINURAS, 2019) 

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