Metropolitan Museum of Art
Metropolitan Museum of Art

A influência da dinastia Médici sobre a arte florentina

A ampla visão da história e da história da arte italiana em impressionantes retratos do final da dinastia, enfim, pode ser encontrada em uma suntuosa mostra no Metropolitan Museum of Art

Roberta Smith, The New York Times

02 de julho de 2021 | 09h00

NOVA YORK - É difícil imaginar Florença, o berço da Alta Renascença no começo da Europa moderna, sem a sua primeira família amante da cultura, venal e avarenta, os Médici. Com coroa e sem coroa, durante períodos de governo supostamente republicano e não republicano, eles governaram totalmente a cidade-estado, ou foram coniventes com ele, de meados do século 14 a meados do século 18, e usaram a arte para cimentar o seu poder.

Os Médici se destacaram como grandes banqueiros e prosperaram principalmente quando o seu ramo se tornou, sem estardalhaço, o banqueiro dos papas. Também povoaram a hierarquia da Igreja católica com parentes, papas incluídos, o mais importante dos quais, Leão X - nascido Giovanni di Lorenzo de’ Medici - que se tornou bispo de Roma em 1513, seguido por breve tempo por seu primo, Clemente VII (nascido Giulio de’Medici). Ambos trabalharam assiduamente em favor da família.

Os Médici perseveraram durante exílios, levantes populares, as guerras com cidades-estados vizinhas, combates de rua crônicos, um espasmo de violento fundamentalismo religioso, surtos de peste e um cerco devastador. A família retornou ao poder com a ascensão de Alessandro de’ Medici, que, em 1532, se tornou o primeiro Duque hereditário de Florença.

Em The Medici: Portraits and Politics. 1512-1570, uma suntuosa e vigorosa mostra no Metropolitam Museum of Art, unimo-nos à família para celebrar o seu brilho cívico. A maior parte da exposição se concentra em Cosimo I de’ Medici (1519-1574), escolhido no ramo “jovem” dos Médicis para tornar-se o Duque de Florença  aos 17 anos. Mas ele sabia qual seria a sua tarefa. Reorganizou a burocracia da cidade e se tornou o último dos três grandes árbitros da cultura. Antes dele havia Cosimo, o Velho (1389-1464) e o seu neto Lorenzo, o Magnífico (1449-1492), ambos governantes de fato de sua riqueza graças à sua destreza. O mecenato de ambos se estendeu por toda a Alta Renascença, de Donatello e Brunelleschi a Michelangelo e da Vinci.

A mostra reúne cerca de 90 objetos, retratos, bustos, relevos, livros e manuscritos, medalhas e camafeus, desenhos estupendos e algumas armas, como a espada que outrora pertenceu a Carlos V, o Sacro Imperador Romano, frequentemente adversário dos Médicis. Organizada por Keith Christiansen, presidente do departamento de pintura europeia do Met, que está se aposentando, e Carlo Falciani, professor de história da arte da Accademia di Belle Arti de Florença, ela demonstra o efeito transformador do mecenato do Cosimo, o Jovem, e a ascensão do maneirismo, que se seguiu à Alta Renascença para contestar a ênfase na graça, na ordem e nas proporções naturais por meio do artifício: corpos elegantes, poses complexas e perspectiva exagerada.

O astro aqui é Agnolo Bronzino, que se tornou um dos pintores de corte de Cosimo I em 1539, e fez mais da metade das 49 pinturas da exposição. Suas obras aparecem nas seis galerias da mostra, dominando paredes inteiras.

Quase todos os seus quadros são o ápice da distorção maneirista e a elegância sem equilíbrio, da sensualidade andrógina com uma perfeição espantosamente coerente entre presunção e aparência. É como se Bronzino tivesse estudado a pureza de porcelana das Madonnas de Rafael e Botticelli e a tivesse distribuído a todos. O seu nu de São João Batista (1560-61) é um jovem voluptuoso cuja pele cor de pêssego e creme se estende até os pés. Cerca da metade do retrato de São Sebastião reinventa o seu sujeito como um jovem quase narcisista de cabelos ruivos e uma única flecha perfurando o seu tronco liso.

A mostra é episódica e imprevisível, de uma maneira apropriada. O seu foco muda de uma galeria para outra. Uma impressionante combinação de história, história da arte, histórias de bastidores e mexericos é alimentada visualmente pela contínua tensão entre o naturalismo e o artifício. Contrastando com o tratamento de Bronzino vem o estilo mais indulgente de Francesco Salviati, um maneirista menos conhecido e o segundo artista mais representado na mostra. Ele é uma de suas revelações, movendo-se dentro e fora da órbita de Bronzino, mas em última análise como se não conseguisse fugir do naturalismo.

E tudo isto se encaixa como em um relógio suíço. Não há nada que não faça referência. O sombrio retrato do primeiro Duque de Florença, Alessandro de’ Medici, de 1534-35, por Jacobo da Pontorno, o mostra em trajes de luto por Clemente VII, que por sua vez é visto em um retrato vizinho por Sebastiano del Piombo, olhando atento de lado, como se estivesse ouvindo. Ao lado de Alessandro, uma medalha de bronze que poderia passar facilmente despercebida, retrata o seu primo distante, Lorenzino de’Medici, lembrado pela história por ter assassinado Alessandro em 1537, preparando o caminho para a ascensão de Cosimo I. O assassino encomendou ele mesmo a medalha quase como um Brutus mais atraente.

Em outra parte você pode sentir-se atraído pela escrita reta em que Bronzino, um poeta sério tanto quanto pintor, gravou os seus poemas e os escritos em resposta por seus correspondentes. A sua bela escrita aparece nas páginas abertas de um livro de sonetos de Petrarca nas mãos de sua amiga íntima, a poetisa Laura Battiferri, tema de um retrato particularmente virtuosístico onde se distingue por seu nariz aquilino e véu curto quase transparente.

A grande seção central da mostra retorna para o envolvimento de Cosimo com a literatura e o renascimento do humanismo. Em frente à sua parede de nus - todos masculinos, todos de Bronzino, há uma série de homens pensativos em geral jovens, de preto segurando livros. Quase todos são membros da Accademia Fiorentina, patrocinada por Cosimo. O grande Retrato de Jovem com um Livro, de autoria de Bronzino (dos anos 1530), exposto no Met, apresenta um jovem arrogante em trajes pretos notavelmente dispendiosos. O contraste desta obra com uma recente aquisição, Carlo Rimbotti, de Salviati, um retrato muito mais acessível, inspirou a ideia para esta mostra, como Christensen conta em sua clara introdução do catálogo.

Na última galeria, apenas Bronzino e Salviati, esquivando-se, por assim dizer. Os Médicis como tema desapareceram, embora ambos os artistas trabalhassem por um tempo no Palazzo Vecchio, o histórico edifício que Cosimo escolhera para a sua residência particular. Por fim, predomina a estimulante firmeza do estilo de Bronzino, instantaneamente legível como uma marca, culminando aqui em algo digno de aplausos como o retrato de uma mulher que se tentou identificar como Cassandra Bandini, que irrompe como uma pessoa real sem entretanto destruir o artifício. Atrás dela, uma cascata ondulante de um tecido semi-transparente com listras verde escuro é quase abstrata. Há o belo retrato de Bronzino do chefe militar Stefano Colonna em uma glamurosa armadura de um preto fosco diante do que parece um tafetá roxo. Ao lado dele pende o belíssimo estudo em giz preto do seu rosto delicado, com a barba.

Diante disso, os retratos de Salviati não podem deixar de parecer multicoloridos, pelo menos de início. Se os voleios de Bronzino voltam para o mesmo lugar seguidamente, Salviati parece tentar um retorno cada vez diferente. Ele opta por uma austeridade psicológica realista em um retrato do Cardeal Rodolfo Pio da Carpi, o mordomo de  Clemente VII. Mas o Retrato de Jovem com um Cão de Salviati tem muitos atributos maneiristas, desde o pescoço alongado, a cabeça pequena e dedos desprovidos de ossos, às ambiguidades  simbólicas espaciais no fundo: uma parede rachada, um anjo levitando e um trecho de paisagem.

Então, Salviati termina com um ponto alto retornando mais plenamente para o mundo real, não o maneirista: o seu grande retrato de Bindo Altoviti, um rico banqueiro que se opunha aos Médicis cuja propriedade florentina foi confiscada por Cosimo. Seu rosto tem sombras reais, sua boca parece prestes a falar, assim como seus olhos suaves quase piscando. Nenhum dedo atenuado à vista. Ele é quase um de nós. A sua imagem proporciona um lugar para parar, conectar-se e prender a respiração nesta extraordinária mostra coreografada com esta grande complexidade.

Tradução de Anna Capovilla

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