A lama que cobre tudo

A enxurrada de rejeitos afogou o mundo comunitário dos simples, a sociedade de vizinhança, os valores humanos centrados na pessoa

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2015 | 18h55

O mar de lama que inundou o Vale do Rio Doce esconde ocorrências e consequências que a própria intensidade da tragédia coloca em plano obscuro e até em silêncio. Aquelas que o senso comum dos distantes não considera dignas de atenção, de interesse e, mesmo, de compaixão. Lamenta-se os mortos e desaparecidos e há gratidão pelas vidas que se salvaram graças a gestos de solidariedade de pessoas educadas nos valores comunitários da precedência do bem comum e da vida em relação a tudo o mais. Nos países civilizados, essas personagens receberiam elogios públicos, seriam condecoradas, os governantes se curvariam diante delas, para enfatizar seu exemplo educativo. Nelas, a pátria se identificaria e se reconheceria.

No plano do que não tem relevância nas considerações imediatas de uma ocorrência como essa, estão aquelas revelações que propicia quando observada à luz dos critérios próprios do conhecimento especializado. As ciências, não raro, têm se valido das revelações dos desastres naturais para ampliar o conhecimento científico sobre realidades que não poderiam ser observadas de outro modo. Quando os desastres naturais constituem, também, desastres sociais e humanos, como nesse caso do Rio Doce, é a vez da antropologia e da sociologia fazerem descobertas que podem ampliar conhecimentos com função humanitária na prevenção e na definição de políticas públicas, seja para evitar novas ocorrências, seja para atenuar o largo sofrimento invisível de tragédias coletivas, o sofrimento interior. As sociedades, como as pessoas, se revigoram e até se reinventam em face da tragédia. É o que faz, para os cientistas sociais, novas revelações sobre o que elas são, como funcionam, como se regeneram, para que a própria ciência se torne coadjuvante da vida.

Nos povoados e pequenas localidades atravessados pelo Rio Doce e por seu formador, o rio do Carmo, por onde escoa a lama mortífera, ribeirinhos acrescentam um item, para eles essencial, ao inventário de perdas e danos dela decorrentes. A lama afogou o mundo comunitário dos simples, a sociedade de vizinhança, os valores humanos centrados na pessoa, que cimentam os relacionamentos e que explicam os repetidos gestos de solidariedade e de prontidão que salvaram vidas. São os que preservaram a alma do povo que habitava ou habita ainda nesses lugares idílicos da identidade coletiva. Nos fragmentos de entrevistas com as vítimas, que circularam pela mídia, há reiterada manifestação de dor e sofrimento pela perda das referências da vida cotidiana, a vizinhança desfeita, a incerteza quanto ao destino, o próprio desenho do espaço, casas, cercas, árvores, demarcações simbólicas do espírito e do ser. Não estão falando das perdas materiais: uma casa nova sempre pode ser construída, um novo sítio sempre pode ser aberto em outro terreno. Mas, a comunidade, a unidade afetiva do grupo humano, pode se perder. É uma modalidade de morte.

O historiador francês Pierre Nova, um dos ícones da corrente da História Nova e dos estudos sobre “o presente como história”, organizou uma obra coletiva marcante, Les Lieux de Memoire. Desde então proliferaram estudos históricos sobre os lugares da memória coletiva, com a descoberta de que são lugares referenciais da identidade de um povo. A expansão da sociedade moderna tem se dado às custas da devastação da identidade social, os seres humanos reduzidos à imensa pobreza da sociedade de consumo, em que comprar e ter tornaram-se muito mais importantes do que ser. Nessa lógica, o ser humano se tornou removível e até descartável. O homem passou a ser aquilo que tem e não aquilo que é ou poderia ser. Tornou-se mero epifenômeno da mercadoria e do lucro. Ele nada é no muito ter. Virou objeto. Não é mais povo e nação e, frequentemente, já não é nem mesmo gente. Abatido pela imensa solidão que daí decorre, acabou reduzido ao mísero horizonte de meramente viver o presente. Mesmo no Rio Doce, uma extensa pobreza de políticas públicas fala em novas casas, construídas ou alugadas, como compensação pelo desastre, a população gemendo queixas: não é o que eu tinha, não é o que eu era.

O interesse dos historiadores pelos lugares da memória trouxe a história para o atual e o vivencial e aí encontrou o interesse e a obra de sociólogos e antropólogos. A história não é o passado, não escorre na lama do rio. Ela atravessa e determina o nosso presente, define esperanças e possibilidades, nos convida a continuar o que deu e dá sentido às nossas raízes para dar sentido ao nosso presente e a recriar em nós a concepção de membros de uma sociedade que se renova na permanência. Legado e patrimônio, plasma-se nos marcos significativos da existência grupal: uma casa de pau a pique, o perfume das rosas de uma roseira rústica, o canto do sabiá, o complexo das plantas contra o mau olhado – a arruda, a espada de São Jorge, a guiné. As demarcações identitárias dos símbolos, das coisas que só existem como todo na obra que deu forma e vida a determinado lugar.

José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor, entre outros, de Diário de uma Terra Lontana (Fundação Pró-Memória, São Caetano do Sul, 2015)

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