A legião feminina de Hillary

Obama percebeu a força política e diplomática da ex-primeira-dama, forjada no convívio direto com mulheres pobres do mundo

Naomi Wolf, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 21h27

Por que ele fez isso? O que levou Barack Obama a mobilizar sua ex-adversária Hillary Clinton para servir como secretária de Estado, o rosto e a voz de sua política externa, sua emissária no mundo?São muitas as explicações plausíveis. Pode-se imaginar que ele esteja aplicando o velho ditado "mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda". Num único golpe, Obama assume o controle da Máquina Política Clinton: a rede, os doadores e o eleitorado. E neutraliza a famosa habilidade dos Clintons para críticas mordazes e aparições exibicionistas que levaram Al Gore e Bill Clinton a mal se falarem durante a campanha presidencial de 2000. Com essa nomeação, Obama desvia a mira de canhões apontados para ele. Tática esperta.Pode-se imaginar também que ele o fez para assegurar o voto feminino. Mas as pesquisas de boca-de-urna e os dados todos mostram que Obama já tem o apoio de uma grande parte das americanas. A novidade de sua vitória foi que ele conquistou eleitores brancos que raramente apóiam um democrata.A verdade é que há muitas evidências sugerindo que Obama - filho de uma mãe solteira forte, criado também por uma avó influente, homem bastante para se casar com uma mulher realizada e de opiniões próprias e pai devotado de duas garotas - tem uma maneira inteiramente nova de atrair e conservar o apoio das mulheres. Ele descobriu que elas adorarão você se você as incluir para valer.Obama está se cercando de conselheiras competentes sem alardear o fato. Se você é uma mulher atenta, sentirá em seu íntimo que essas mulheres não serão enfeite de janela. Elas poderão ter sucesso ou falhar, mas estão realmente no jogo.Entretanto, não creio que alguma dessas razões, por mais forte que pareça, seja a melhor explicação para a escolha de Hillary. Acho que Obama a escolheu por compreender que, mesmo como presidente dos Estados Unidos, ele é de fato um cidadão de uma comunidade global - comunidade para a qual prestará contas e com a qual mantém uma relação de interdependência. Uma das qualidades menos consideradas de Hillary Clinton é que ela também compreende isso - e demonstrou saber o que significa. Há muita coisa em sua experiência como primeira-dama que ela exagerou. Mas uma de suas inegáveis realizações, talvez mais importante que qualquer outra coisa que tenha feito naquela época, foi o conjunto de ações globais sobre temas femininos que ela empreendeu.Hillary se cercou de consultores extremamente bem informados em questões importantes como o papel decisivo das mulheres no mundo em desenvolvimento - na elevação dos níveis educacionais, na administração do crescimento populacional, na contenção da degradação ambiental e na construção de economias que privilegiavam o microcrédito. Visitou a África e o subcontinente indiano, e falou contundentemente na conferência de Pequim que reuniu líderes feministas de todo o globo. Os maiores especialistas em desenvolvimento do mundo agora concordam em que, para resolver muitos dos conflitos culturais, ambientais e motivados por recursos naturais de hoje, é preciso educar e investir em mulheres, como ela defendeu.Mas o que distingue Hillary Clinton de Madeleine Albright ou Condoleezza Rice é aonde ela se mostrou disposta a ir para seu aprendizado. Não ficou em hotéis com ar condicionado e entre parlamentares nas nações que visitou. Foi às minúsculas aldeias pobres, a lugares onde mulheres caminham seis quilômetros por dia para buscar água, a lugares onde mulheres baseavam a prosperidade de suas famílias num empréstimo de US$ 20 para uma máquina de costura. Sentou-se no chão de terra e espaços comunitários de aldeias poeirentas para ouvir dessas comunidades quais eram seus problemas e prioridades. Enfrentou temas controversos e culturalmente delicados como mutilação genital feminina e queima de noivas por não-pagamento de dote. No entanto, o respeito que ela mostrou pelas várias culturas e povos com os quais se engajou fez muito para permitir que esses desafios avançassem sem radicalismos e num espírito de verdadeiro diálogo. Hillary é adorada por muitas mulheres no mundo em desenvolvimento por essas jornadas, e estou certa de que elas lhe ensinaram lições cruciais sobre política global - lições que formaram uma visão de mundo da qual Obama, um filho de experiências internacionais, compartilha.Nessa visão, a América não está sozinha contra todos os demais, emitindo ordens e se concentrando estreitamente em lucros corporativos. Em vez disso, cooperando com outros líderes internacionais, os Estados Unidos tentam resolver os verdadeiros problemas mundiais: a degradação ambiental, o esgotamento dos recursos naturais, a alfabetização insuficiente e a pobreza aterradora em que vivem os "bilhões de baixo".Obama compreende, como eu acredito que Hillary Clinton compreenda, que resolver essas crises é a verdadeira chave para questões de guerra e paz - o que de fato determina a possibilidade de alianças internacionais. Hillary compreende que os conflitos surgem desses problemas, e acredito que Obama saiba disso. Usar a intervenção militar sem enfrentá-los é meramente o equivalente a jogar um cobertor num vulcão.O presidente eleito dos Estados Unidos pode até compreender que sua escolhida para secretária de Estado aprendeu política global e diplomacia ouvindo uma mulher miserável numa sala comunitária de uma aldeia poeirenta - uma mulher que agora se tornou uma empresária de microcrédito em pequena escala e está ajudando a educar e alimentar sua família. Seria mais impressionante ainda se ele compreendesse que essa educação foi ao menos tão importante quanto a que ela, com os rapazes, teve em Yale. *Naomi Wolf, ativista política e crítica social, co-fundadora da American Freedom Campaign, é autora de The End of America: Letter of Warning to a Young Patriot (Chelsea Green)

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