A lei do mais alto

Com seu prédio, Giuseppe Martinelli jogou tamanho e quantidade contra beleza e qualidade, contrariando a então tendência paulistana das edificações solenes

JOSÉ DE SOUZA MARTINS -SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE UMA ARQUEOLOGIA DA MEMÓRIA SOCIAL (AUTOBIOGRAFIA DE , UM MOLEQUE DE FÁBRICA), ATELIÊ EDITORIAL, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h08

JOSÉ DE SOUZA MARTINS

Por várias razões, o chamado Prédio Martinelli foi, em sua época, símbolo de transformações na paisagem urbana de São Paulo. Havia gente que saía dos bairros com a família para ir de bonde ao centro da cidade, vê-lo e mostrá-lo à mulher e aos filhos. No entanto, as fotos da época mostram o Martinelli como corpo estranho perturbando a volumetria da cidade romântica e elegante. Admirado e louvado como um marco do progresso, ganhou indevido prestígio, até perdê-lo na decadência vertiginosa que culminou, nos anos 70, com sua conversão em cortiço e favela. Uma mesma geração teve oportunidade de vê-lo em polos opostos do imaginário que o cerca: no esplendor e na ruína. A cada 40 anos, como agora, o Martinelli tem que ser reformado para voltar a ser útil. Na verdade, sua decadência começou quando Giuseppe Martinelli, em dificuldade econômica, teve que vendê-lo ao governo italiano, que o perdeu por confisco para o governo brasileiro, em 1943, em decorrência da guerra entre os dois países.

No entanto, o Martinelli é expressão do que foi a nossa revolução urbana. Entre a primeira e a segunda década do século 20, o centro da cidade teve demolidas as edificações do que lhe restavam da velha cidade caipira dos tempos da escravidão. Um ímpeto de alargamento dos espaços e de transformação arquitetônica começava a desenhar a São Paulo da belle époque, a São Paulo europeia, erguida com o ouro do café. Durante anos, o centro estivera circunscrito ao chamado Triângulo, formado pelas Ruas 15 de Novembro, São Bento e Direita. O primeiro Viaduto do Chá, desde 1892, e o Theatro Municipal, desde 1911, fizeram o centro avançar para o Morro do Chá, despejando casebres e cortiços do entremeio para dar lugar ao que seria o belo jardim do Parque do Anhangabaú.

Giuseppe Martinelli, imigrante rico, encomendara o projeto de um prédio de 12 andares para o terreno da Ladeira de São João, demolidas as velhas edificações, cuja construção teve início em 1924. Não foi o único a erguer novas e imponentes edificações no novo centro de São Paulo. Quase seu vizinho, já estava pronto, no mesmo ano, o requintado Edifício Sampaio Moreira, projetado com 13 andares por Cristiano Stockler das Neves.

O Martinelli é o cume da contraditória história urbana de São Paulo. Expressa o exagero e o indesejável. Nele se plasma uma discutível concepção de cidade, a contrapelo da tendência que se desenhava com as edificações belas e solenes dos edifícios, palacetes e até vilas operárias que o dinheiro do café podia pagar, em terrenos virgens ou em terra arrasada da cidade velha. A elite paulista havia optado pelo qualitativo e belo. As fortunas do café levavam anualmente a Paris os fazendeiros, que voltavam carregados de ideias sobre o morar, o transitar e o viver. Migraram das fazendas para a cidade, para novos e modernos bairros como Campos Elísios e Higienópolis. São Paulo ganhou nova vida porque, graças ao trem, ficava no meio do caminho entre as fazendas e o porto de Santos, onde transcorriam os grandes negócios do café, nas casas comissárias e nas de exportação e importação.

Essa onda de afluência, materializada na redefinição da forma e das funções do centro da cidade, não foi presidida por uma mentalidade uniforme. No mínimo duas tendências opostas e polarizadas acabaram reconceituando e redesenhando o centro e a própria cidade. De um lado, estava a mentalidade de muitos fazendeiros de café, informada pelas tradições de uma elite nativa educada nos valores do Império e nas aspirações de nobreza que a tornaram formal e exigente, sensível à vida com estilo. Para ela, beleza e estilo se antepunham a tamanho e quantidade. De outro lado, estavam imigrantes como Giuseppe Martinelli, rico negociante, cuja vida era presidida pelo primado da quantidade e dos volumes. A Avenida Paulista combinou gente dos dois grupos, que pensava como negociante, mas tinha bom gosto.

Cada um desses grupos construiu uma São Paulo diferente. A São Paulo do Prédio Martinelli é o limite e o exagero da mentalidade do segundo grupo. Martinelli se aproveitou da insuficiente regulamentação das edificações urbanas para abusar do direito de propriedade. Projetado para ter 12 andares, seu prédio chegou a 24, quando a obra foi embargada. Era um monumento à prepotência da altura. Giuseppe Martinelli foi dos primeiros a perceber que a verticalização criava espaços em terreno de extrema valorização potencial. Fez de seu prédio uma cidade dentro da cidade, uma exacerbação anômala do urbano e sua negação.

Dizia-se que tinha ilegalmente adicionado andares ao seu edifício para não ficar mais baixo do que o vizinho Sampaio Moreira. Como nesse, construiu seu palacete residencial no topo. Dali vislumbrava toda a cidade, ainda minúscula, e os campos que podiam ser alcançados de vista, como se nota numa das fotos antigas. Tanto em Sampaio Moreira quanto em Martinelli, nos prédios que construíram, havia também o afã de poder.

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