MARTY LEDERHANDLER/AP
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A ligação íntima entre música erudita e política no século 20

Livro revela a surpreendente relevância que a música clássica teve para o panorama político da Guerra Fria

Jonathan Rosenberg, The Washington Post

01 de fevereiro de 2020 | 16h00

Não faz muito tempo que o ensino de música era uma parte essencial na formação das crianças nos Estados Unidos. Elas aprendiam as escalas musicais, a reconhecê-las e a tocar piano, mesmo que rudimentarmente, ou flauta doce. A elas eram apresentadas músicas de grandes compositores como Bach, Beethoven, Mozart e Wagner, e eram incentivadas a se aprofundar mais nesse gênero de música. Quando Leonard Bernstein dirigiu os concertos para a juventude da Filarmônica de Nova York, que eram transmitidas pela TV, nos anos 1950 e 1960, o conhecimento musical dos mais jovens provavelmente era maior do que o do público que frequenta concertos musicais atualmente.

Hoje, a música clássica ocupa um lugar de nicho ao lado da poesia séria e da filosofia, e não é mais considerada uma das artes realmente populares. Seus aficionados são poucos, mas apaixonados. Tudo isso torna difícil imaginar o mundo que Jonathan Rosenberg explora no seu novo livro, envolvente e abalizado, Dangerous Melodies: Classical Music in America From the Great War Through The Cold War.

Foi a época em que uma nova sinfonia de um compositor russo mereceu uma capa na revista Time, múltiplos concertos e transmissões nacionais em todo o país. O compositor era Dmitri Shostakovich (1906-1975) e sua obra despertou tanta atenção na época como hoje. A apresentação da sua Sétima Sinfonia, chamada de Leningrado, se estendeu por um ano depois da sua estreia (A União Soviética havia sido traída em sua aliança com a Alemanha nazista e foi obrigada a se juntar a outros inimigos de Hitler).

A Sinfonia número sete de Shostakovich não era somente uma obra de arte, mas uma exortação – algo similar a um editorial musical. Como diz Rosenberg em seu livro, “não foi exagero quando, mais de um ano depois da estreia da Sinfonia, a revista Newsweek afirmou que “o mundo inteiro conhece Dmitri Shostakovich” e sugeriu que aqueles que não eram capazes de soletrar seu nome conseguiam no mínimo pronunciá-lo”. Por seu lado, Shostakovich manifestou sua satisfação com o fato de os americanos terem gostado da sua composição, embora o mais importante, disse ele, era que eles a compreenderam. “Ambos os povos tinham sentimentos em comum sobre a guerra e a paz.”

Algumas histórias que Rosenberg relata em seu livro são familiares, até tranquilizadoras. Ele fala do inesperado triunfo do pianista nativo do Texas, Van Cliburn, no Concurso internacional Tchaikovski em Moscou, no auge da Guerra Fria, uma vitória que o próprio premiê russo Nikita Kruchev teve de ratificar antes de ser concedida. “No Sul, se as pessoas gostam de você, elas ficam loucas com você, disse Cliburn a jornalistas. “Com base na recepção que tive acho que há um pouquinho do Texas no povo russo”. (O pianista foi recebido com um desfile nas ruas em Nova York em 1958 e tocou na Casa Branca para cada presidente até Barack Obama).

Mas no geral o livro está longe de ser um estudo triunfalista. Rosenberg examina meticulosamente o chauvinismo de tempos de guerra nos Estados Unidos. Em uma história que ele narra, a obra A Lincoln Portrait, de Aaron Copland, foi retirada do concerto inaugural para o presidente recém-eleito Dwight D. Eisenhower por ordem de um congressista do Texas, hoje esquecido, que se opunha à política de esquerda de Copland. Rosenberg explora também os veementes protestos contra alguns artistas que, por uma série de razões, nem todas políticas, preferiram ficar na Europa ocupada durante a 2.ª Guerra Mundial.

Este não só é um livro de história valioso, mas uma série fascinante de relatos. Minha parte predileta é o exame que ele faz da histeria contra os alemães que tomou conta dos Estados Unidos durante a 1.ª Guerra Mundial, que raramente, caso tenha sido, foi examinada com tantos detalhes. A música de Richard Wagner desapareceu do Metropolitan Opera e a Orquestra da Filadélfia cortou a Sinfonia Inacabada de Franz Schubert do programa da noite de estreia da orquestra.

O alemão Karl Muck, diretor musical da Sinfônica de Boston, foi preso por sua relutância a reger The Star Spangled Banner, e seus vizinhos em Seal Harbor, Maine, reportaram que o chalé de verão de Muck “com sua vista do alto da colina para o oceano, permitia ao maestro emitir sinais de luz a partir do seu chalé que, segundo imaginavam, eram parte de um esquema destinado a transmitir mensagens para navios alemães distantes da costa”.

Por outro lado, a Associação de Professores de Música de Wisconsin, em Oshkosh, condenou unanimemente a contratação de professores de música estrangeiros na época da guerra. Como Rosenberg observa, “a lista de episódios violentos aumentaria durante todo o período de beligerância, incluindo, segundo um relato, o apedrejamento de cães da raça Dachshund nas ruas de Milwalkee”.

Rosenberg fecha seu livro com a visita da Filarmônica de Nova York à Coreia do Norte, em 2008, que gerou uma certa controvérsia entre aqueles que consideravam a visita uma concessão equivocada a um país totalitário. Com um pouco de pesar, Rosenberg escreve: “Durante aqueles poucos dias em que irrompeu um forte interesse na excursão da orquestra, algumas pessoas devem ter se lembrado da época em que a música clássica e o mundo mais amplo convergiam. E da época em que as melodias de Wagner, Beethoven, Strauss, Copland e Shostakovich, e o trabalho de artistas e instituições estimados que tocaram essa música extraordinária, estavam interligados com os acontecimentos que iam além da América. Embora difícil imaginar, durante aquelas décadas conturbadas, para um número incontável de pessoas o que acontecia na sala de concertos ou na Ópera era inseparável do destino dos Estados Unidos e do bem-estar do povo americano”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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