A língua das ruas: o impacto dos protestos de 2013 a 2016 nas eleições e na política brasileira

Em livro recém-lançado, o jornalista e professor da USP Eugênio Bucci analisa a evolução dos protestos de 2013 a 2016 a partir dos símbolos e da linguagem. O espetáculo, diz ele, acabou no centro do movimento. “As manifestações se tornaram um happening cultural, em que a estética precede a política, e as pessoas saem de casa prontas para sair na TV.” Um rumor que, enfim, chegou às urnas. “Os protestos alteraram a rotina de cada indivíduo, em níveis sutis da vida pessoal. Criaram uma nova forma de convívio e identificação. Isso não poderia passar incólume nas eleições”

O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2016 | 16h00

“O que vimos em junho de 2013 foi um transbordamento de multidões e energias que não encontravam canais para se comunicar com o Estado”, diz o jornalista e professor da ECA-USP Eugênio Bucci, que acaba de lançar o livro A Forma Bruta dos Protestos – Das Manifestações de Junho de 2013 à Queda de Dilma Rousseff em 2016 (Companhia das Letras). Neste ensaio, Bucci analisa esse transbordamento de demandas sociais a partir da linguagem das ruas, da estética dos manifestantes e da explosão de signos que as demonstrações públicas trouxeram ao cotidiano. “As manifestações se transformaram em um grande happening cultural. Nesse sentido, as causas e bandeiras perderam a relevância e a centralidade.”

Nesta entrevista, Bucci analisa a identidade própria adquirida pelos manifestantes nas ruas, que criaram signos de linguagem e um “espetáculo cultural” raro na história do País. “A estética precedeu a política, num Big Bang que se deu após junho de 2013 e construiu uma narrativa estetizada, seja em verde e amarelo ou em vermelho.” No livro, Bucci trata de elementos que se tornaram corriqueiros de 2013 para cá, como patos da Fiesp, bonecos de políticos e os próprios black blocs. Aos mascarados, é reservada uma comparação curiosa – com papais noéis de shopping. “Todos sabem qual será o gestual de um Papai Noel num centro de compras. Assim que veste a fantasia, todos sabem o que virá. O mesmo vale ao black bloc...”

Autor de mais de 10 livros sobre comunicação e sociedade, Bucci falou também sobre o impacto das manifestações populares nas eleições. E é otimista em relação à participação popular. “O pior que pode acontecer ao País é a inércia”, disse, nesta entrevista ao Aliás.

Os protestos de junho de 2013 foram relevantes para o resultado das eleições municipais de 2016?

As manifestações de 2013 e seus prolongamentos determinaram um efeito devastador principalmente no discurso do PT. Nas proporções que aconteceram, elas são em si mesmas vetores de comunicação extremamente poderosos e capazes de ir ao nível mais sutil e delicado da vida pessoal de cada indivíduo. Alteraram a rotina não só da cidade, mas de cada um. As causas defendidas foram incorporadas por milhões. E aquilo que instaura uma prática nova, uma forma não corriqueira de convivência e encontro, é uma força de mobilização de mentalidades. Isso foi criando uma energia que pôs abaixo a fantasia e a impostura que encobria práticas nefastas. Não só de figuras do PT, mas também delas. Portanto, como as manifestações constituem uma poderosa forma de comunicação, elas causaram, sim, impactos nos resultados das eleições.

Candidatos que se disseram “não políticos” tiveram sucesso, como João Doria em São Paulo. Os protestos de 2013 para cá influenciaram nisso?

Essa ojeriza contra os políticos apareceu de muitas maneiras. Formou-se uma espécie de consenso em torno da rejeição à política. A partir daí, uma das formas que o discurso político encontrou para galvanizar esse sentimento foi o “eu não sou político”. Na verdade, é o discurso político de quem diz que não é político. Isso é política pura, na veia. Também tem a ver com o que aflorou das ruas em 2013. Esse discurso é uma resposta, talvez até inconsciente, que busca atrair essas vertentes que protestavam contra todo o universo político.

Há quem culpe os protestos de 2013 por uma onda conservadora, também refletida nas eleições municipais. O que há de verdade nisso?

Esse discurso sempre procura alguém pra chamar de eles, alguém sobre quem deve recair a culpa pelos nossos males. Do ponto de vista do pensamento isso é menos do que rudimentar. Muita gente quando viu 2013 disse que era coisa da web profunda, estratégia da CIA, todo tipo de fantasia... Mas minha leitura positiva é de que as pessoas estavam expressando o que sentiam, dando a cara para bater e debatendo o País. O pior que pode acontecer ao País não é o surgimento de pessoas que abraçam o ideário conservador. O pior que pode acontecer ao país é a inércia, a não participação. Que tenha surgido algo conservador não é problema. Isso é parte de um processo democrático que deve ser visto como natural. Em algum momento, vai ser produzido um ponto de equilíbrio. Culpar a rua pelos descaminhos da política brasileira é um absurdo.

Em seu ensaio, o sr. diz que os protestos de 2013 se originam de uma desconexão temporal entre Estado e sociedade. Como é esse descompasso?

Trata-se do predomínio das dinâmicas do espetáculo e da teatralização eletrônica da política versus a lentidão dos processos de decisão do Estado. Isso ganha visibilidade e propulsão a partir das tecnologias digitais. O Estado moderno foi constituído a partir da instância da palavra impressa. Foram os jornais de circulação nacional que serviram de suporte aos debates e à elaboração coletiva de fórmulas que deram origem ao Estado moderno. A conformação das nações teve como mediação a presença dos jornais. É curioso como isso leva para dentro do Estado certos ritos. O retrato da temporalidade da palavra impressa é a figura do Diário Oficial – que é hoje editado eletronicamente, mas o ciclo temporal de 24 horas é uma marca. Os processos que tramitam para que uma decisão saia de uma instância a outra. Esse percurso se refere à pulsação da sociedade mediada por publicações de periodicidade diária. Hoje um grupo de estudantes convoca uma manifestação em questão de dias, via redes sociais. O Estado demora meses para responder. Não quero dizer que devemos substituir os ritos da democracia pela dinâmica do Facebook. Isso seria uma ditadura. Mas o Estado precisa ser mais ágil e atualizar os paradigmas temporais. O que vimos em junho de 2013 foi um transbordamento de multidões e energias que não encontravam e ainda não encontram canais para se comunicar com o Estado. Elas então transbordam e explodem nas ruas. Junho de 2013 não acontece por falta de escolas, de hospitais, pelo preço da passagem de ônibus, pela corrupção. Acontece porque quando o cidadão tenta falar com o Estado, ele bate com a cara em uma parede de concreto.

Como a sociedade reage à ocupação do espaço público em uma passeata?

O sentido político de uma manifestação tem sempre a ver com a demonstração de um grupo capaz de alterar a rotina da cidade. Os protestos ganham sentido a partir da premissa da cidade e da multidão. A Ditadura Militar imprimiu um ambiente que dificultou que as passeatas sejam incorporadas em uma normalidade democrática. Em vários países, manifestações fazem parte da normalidade. No Brasil, ainda vemos quase como exceção. Elas sempre trazem um estranhamento. São vistas como transgressões ou rupturas do que seria uma ordem pacífica. Não deveria ser assim. O que agrava a situação é o emprego da violência, que não se justifica, tanto do lado dos manifestantes, como do lado da polícia, que é muito mais grave. Uma polícia violenta, preconceituosa, contribui muito para agravar essa tensão colocada pelos protestos.

Como entender os black blocs no universo das manifestações?

No livro, faço uma analogia provocativa entre black blocs e a fantasia de Papai Noel. São dois figurinos próprios que mascaram o ator e seguem um rito gestual muito típico. O Papai Noel do shopping tem uma fantasia em que qualquer um pode entrar e viver. O mesmo vale para o black bloc. Qualquer um pode ser um black bloc, com o rosto coberto por uma camiseta. Existe uma certa justificativa retórica de que os black blocs são uma forma de autodefesa dos movimentos. Dizem até que enfrentar violência com violência é um jeito de proteger as manifestações. São justificativas rasas para esse tipo de prática que alguns chamam de tática. A tática não colou. Pelo menos até agora, os próprios manifestantes cuidam de escondê-los, de desestimulá-los.

Em que medida uma manifestação é um elemento estético?

Há um fator estético nas manifestações que é fecundo e determinante. Elas podem encerrar ou comportar um fator de identificação e gerar o sentimento de pertencimento, cujos fundamentos são propagados por vias estéticas. Temos uma resistência de setores da inteligência brasileira de levar isso em conta. O argumento é que é política, não é estética. Ok, não se deve estetizar a política. Claro que não. Quem estetizou a política e o Estado foi o nazismo. O que é irrefutável é que a política engloba a estética na forma de se irradiar e seduzir corações.

E qual o sentido da estética nesse contexto?

Manifestações se transformaram em um grande happening cultural. As causas e bandeiras perderam a relevância e a centralidade. Quando as manifestações se apresentam como a celebração da indignação generalizada, elas independem de ordem. Em 2013, e mesmo em 2015/2016, não havia preparação política. Os manifestantes se identificavam por uma linguagem própria, por um espetáculo cultural. A estética precedia a política. Foi uma espécie de Big Bang desse ciclo inicial das manifestações. Dessa explosão surgiram duas vertentes, uma amarela e outra vermelha. Isso evoluiu e resultou em um muro erguido na Esplanada dos Ministérios no dia da votação do impeachment, um muro repartindo o Brasil, com cores, gestos e alegorias diferentes. A estética foi sempre predominante de um lado ou do outro.

Como nascem os signos dos protestos?

As manifestações supõem um adestramento das multidões para as câmeras, holofotes e objetivas da mídia e do grande sistema de circulação de informação. Como se as pessoas soubessem tacitamente que estão saindo de casa para ganhar a cena no noticiário e a lente dos fotógrafos. Há uma consciência difundida, e não problematizada, internalizada por parte das massas e das multidões que fazem desses atores políticos, atores preparados para falar a linguagem da TV e do entretenimento. O “pixuleco” já é bolado para as câmeras da TV. O uso da bandeira do Brasil, a camiseta amarela... Essas pessoas saem de casa conscientes de que aparecerão na TV. Quase como quem vai a um show de rock ou a um jogo de futebol.

As manifestações reacenderam um nacionalismo adormecido?

Foi como se tirassem a poeira do brasão da República. O recado era: o País somos nós na rua, e não vocês em Brasília. Isso elevou a autoestima, a autoconfiança. Agora, esse estimulo cívico leva a uma nostalgia hiper-reacionária. Há gente defendendo golpe militar, regime militar, fim dos políticos, fim dos partidos. Isso seria o fim da democracia. Por outro lado, não haveria como esse sentimento não surgir. Isso está aí, pulsa dentro de uma gente que estava calada. Agora, mesmo isso aparecendo, só reforça o amadurecimento da democracia. Porque quando isso aparece, aparecem os argumentos contrários. As ruas, na sua dinâmica viveram um amadurecimento político. Estamos no meio do caminho, o governo Temer não é o fim desse percurso. Isso vai continuar, não se sabe com que discurso ou estética, mas vai continuar. Esse amadurecimento político passa por uma acomodação, que tem sido o governo Temer. Mas 2013 está longe de terminar.

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