A LINGUAGEM DO TERROR

Como o EI consegue angariar tantos jovens mundo afora? “É um fenômeno da sociedade do espetáculo; por isso os alvos em Paris eram estádios e shows de rock”, diz o historiador Gabriel Zacarias. Para o pesquisador Javier Lesaca, há pouco de religião: “Ao usar games em suas campanhas, ele oferece uma aventura audiovisual pela qual vale a pena viver ou morrer”

Gabriel Zacarias, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2015 | 16h00

 

Apenas alguns meses após os ataques à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, Paris se viu vítima de um novo ataque terrorista de envergadura. Dessa vez, a proximidade com o cotidiano dos habitantes da cidade foi maior, sendo maior também a dor e o medo resultantes. Em janeiro se visava ainda a um alvo específico, motivado pela polêmica preexistente em torno das charges de Maomé. Por conta disso, alguns sentiam certo desconforto em se solidarizar com as vítimas, como no caso de escolas nas quais alunos muçulmanos se recusaram a respeitar o minuto de silêncio decretado pelo governo. Agora, nada autoriza a não se solidarizar com as vítimas dos ataques. Os espaços de lazer e vida noturna que foram alvejados não podem ser subsumidos a uma única justificativa ideológica. Mas a escolha da região não foi fortuita e deve ser interrogada.

Seria talvez de se esperar que fossem atingidos emblemas do poderio militar ou econômico (como nos EUA em 2001) ou um dos tantos marcos turísticos que são símbolos reconhecíveis da cidade. Para quem pouco conhece Paris, a escolha dos alvos é quase enigmática, enquanto possui sentido muito mais forte para aqueles que habitam a capital. A região do Canal Saint-Martin é atualmente uma das principais zonas da vida noturna da cidade. Congregando pessoas de diversas origens, o bairro é frequentado sobretudo por jovens em torno dos 30 anos de idade, de classe média, politicamente à esquerda e tolerantes. Não é raro encontrar entre as vítimas pessoas que participavam de projetos sociais e ONGs, assim como tantos descendentes de imigrantes e estrangeiros. A zona visada não pode, portanto, ser acusada de “islamofobia”. Pelo contrário. A escolha do alvo é um ataque à tolerância e tende a recrudescer as divisões internas da sociedade francesa, o que pode parecer, à primeira vista, contraditório.

Como todo ataque terrorista almeja um forte efeito de propaganda, é preciso questionar aqui qual foi o seu “público alvo”. Pode-se aventar que, ao se escolher como alvo um bairro central de vida noturna da juventude educada de classe média, buscou-se mobilizar o ressentimento da juventude de origem imigrante das periferias francesas, que não está integrada da mesma forma na vida cosmopolita. A periferia parisiense, a chamada banlieue, já foi conhecida como “cinturão vermelho”, pois abrigava os trabalhadores industriais organizados em sindicatos e os eleitores dos partidos de esquerda. Para aqueles que acreditavam na possibilidade de uma revolução comunista em Paris, era dali que viria o impulso.

Hoje essa região é habitada por imigrantes e descendentes de imigrantes, muitos dos quais muçulmanos. Uma população sem expressão política definida, que não está representada em partidos nem tampouco organizada em torno de projetos políticos. Isso ficou claro em 2005, quando explodiu uma forte revolta na banlieue parisiense desprovida de referências ideológicas ou de reivindicações claras. Essa forte insatisfação não foi em nenhum momento convertida em impulso de transformação social. O terrorismo atual tenta se valer dessa mesma força para um fim contrário, completamente reacionário, guiado por uma ideologia conservadora e um projeto retrógrado. Escrevendo à época da ascensão dos nazistas, Walter Benjamin dizia que o fascismo florescia sobre o terreno das revoluções fracassadas. A expressão “fascismo islâmico”, empregada frequentemente com relação ao EI, encontra aqui um novo sentido.

A tensão interna que existe na Europa, e especialmente na França, com relação às populações de origem imigrante – que não deixa de ser uma tensão de classe – parece encontrar assim uma infeliz válvula de escape no novo terrorismo. Não à toa, um terrorismo praticado por cidadãos franceses e europeus, diferentemente do que ocorria no passado. Tal situação coloca o Estado francês numa situação paradoxal. Por um lado, tenta-se reforçar o credo patriótico, reivindicando uma situação de guerra. Ao mesmo tempo, aventam-se medidas contrárias aos princípios basilares do Estado-nação, buscando-se formas jurídicas que permitam a expulsão de franceses de seu próprio território ou ainda o cancelamento da nacionalidade de terroristas (e suspeitos), o que criaria apátridas, ferindo as principais convenções de direito internacional.

Tais paradoxos evidenciam, em primeiro lugar, que a França não está em guerra, no sentido tradicional da palavra, a saber: de um conflito entre diferentes Estados nacionais. A guerra à qual Hollande faz referência é na verdade a “guerra global ao terror” lançada pela administração Bush após os atentados de 11 de setembro de 2001. O caráter pouco claro das delimitações entre interno e externo, nacional e estrangeiro, surgem em parte desse caráter “global” do terrorismo. Entretanto, no caso norte-americano, não encontrávamos ainda o mesmo problema de cidadãos nacionais entre os terroristas, e as fronteiras entre o dentro e o fora podiam ser traçadas de maneira mais clara, mesmo se o fora era tudo aquilo que não eram os Estados Unidos da América. No caso francês, a presença de cidadãos europeus entre os perpetradores do ataque é predominante: dos seis terroristas identificados até agora, cinco são franceses, e o suposto mandatário do ataque é belga.

O que explica esse paradoxo é na verdade a dimensão espetacular das novas formas de pertencimento coletivo, um fato sociológico característico da contemporaneidade e que aparece de maneira extrema no novo terrorismo. Guy Debord, que nos anos 1960 cunhara a expressão sociedade do espetáculo, já havia notado que as experiências que se perdiam com o avanço da modernidade capitalista tendiam a ser recompostas artificialmente na esfera da representação, o espetáculo funcionando assim como um mecanismo de compensação. Mas esse processo adquiriu outras dimensões com o advento das novas mídias nas últimas décadas. Se tivermos em mente que uma das consequências maiores do avanço do capitalismo foi a dissolução de formas tradicionais de vida comunitária, não é de se estranhar que no mundo virtual tenhamos visto florescer novas formas de coletividades imaginadas. O que vemos no caso da adesão de europeus ao Estado Islâmico via internet é que essa nova forma de pertencimento pode entrar em choque com os Estados nacionais, que foram as grandes comunidades imaginadas do século 19, mas que já não conseguem mais conter as formas de pertencimento coletivo. Existe hoje uma miríade de pequenas comunidades imaginadas que se tecem ao redor de produtos da indústria cultural, como times de futebol e grupos de rock, não à toa dois alvos visados nos últimos ataques. É como se, enquanto coletividade espetacular, o EI devesse concorrer com outras formas de pertencimento espetacular.

Claro que não se pode esquecer que o EI tem uma realidade territorial, e que sua existência tem origem na desestabilização do Oriente Médio provocada pela intervenção militar norte-americana na região após os atentados de 11 de setembro. A organização é, nesse sentido, um produto direto da “guerra ao terror”. Mas ela não se limita a essa territorialidade e, cada vez mais isolada na região, depende mais e mais de sua capacidade de aliciamento de europeus, de origem muçulmana ou não. A alta taxa de recém-convertidos em suas fileiras indica o quanto seu simulacro de islamismo diz pouco sobre a religião muçulmana, mas muito sobre a sociedade capitalista. Por isso, o uso que o EI faz das novas mídias, frequentemente notado, revela mais do que uma estratégia consciente. Ele remete à raiz mesma do problema, ao fato de que o novo jihadismo é um fenômeno da sociedade do espetáculo. Como tal, busca compensar no âmbito da representação as carências da vida moderna, recompondo artificialmente o simulacro de uma comunidade pré-moderna. Sua capacidade de aliciamento não se compreende apenas pela estética de seus vídeos, tão próxima dos jogos de videogame, ou pelo elaborado trabalho de divulgação nas redes sociais.

Se o EI consegue atrair pessoas de diferentes partes do mundo globalizado, isso se deve ao fato de que seu simulacro de islamismo aparece como compensação de frustrações típicas da contemporaneidade. Contra a instabilidade ética característica de uma modernidade líquida, que perdeu seus padrões claros de conduta, oferece-se a lei rígida da religião. Das promessas de onipotência do consumismo, sempre frustradas pelas limitações da vida prática, nasce um constante ressentimento que encontra alívio na violência cega. Em meio às justificativas ideológicas do terrorismo, acabamos por perder de vista a ligação que existe entre esses ataques e outras formas de violência cega que têm se tornado cada vez mais comum. A cena de jovens europeus que realizam uma carnificina no interior recluso de uma casa de show não está nada distante daquela de um aluno que dispara sobre seus colegas em uma sala de aula (como acontece nos EUA) ou sobre a plateia de uma sala de cinema (como ocorrido no Brasil). Para além de um fenômeno geopolítico, o terrorismo contemporâneo aparece como sintoma de uma contradição intrínseca da modernidade capitalista, e deve ser pensado como tal.

GABRIEL ZACARIAS É DOUTOR EM ESTUDOS CULTURAIS PELAS UNIVERSIDADES DE PERPIGNAN (FRANÇA) E BÉRGAMO (ITÁLIA), COMO MEMBRO DO PROGRAMA ERASMUS MUNDUS, DA UNIÃO EUROPEIA, E HISTORIADOR HABILITADO PELO CONSEIL NATIONAL DES UNIVERSITÉS, DA FRANÇA

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