A lista negra de Hollywood cresce

A lista negra de Hollywood cresce

Kevin Spacey engrossa as fileiras de assediadores denunciados

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2017 | 16h00

Ao longo de um século de existência, Hollywood ganhou vários epítetos: “capital mundial do cinema”, “fábrica de sonhos”, “cidade das ilusões”, Tinseltown (tinsel é ouropel em inglês), chavões aposentados antes do surgimento de “Babilônia do Pacífico”, que não pegou, mas agora pode colar, por conta da torrente de denúncias de assédio sexual e estupro desencadeada por atrizes e jornalistas molestadas pelo megaprodutor Harvey Weinstein. 

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Domingo passado, o Hollywood Boulevard foi tomado por uma passeata de profissionais de cinema contra a intimidadora cultura do bullying sexual atrás das câmeras. Centenas de participantes, muitos afastados por não ceder às impertinências depravadas de patrões e colegas de equipe, desfilaram sua indignação, gritando palavras de ordem e empunhando cartazes acusatórios. O da atriz Elizabeth Perkins entregava James Woods. Weinstein, porém, continua sendo o alvo de maior destaque.

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F. Scott Fitzgerald criou Monroe Stahr, “the last tycoon” (o “último magnata”); Weinstein inventou “the lost tycoon” (o magnata perdido), ele próprio. Mulheres ligadas, direta e indiretamente, ao show business só faltam pegar senha para expor em detalhes, no mínimo constrangedores, o que ele fez ou tentou fazer com elas, a pretexto de um teste prévio para algum filme, quase sempre em suítes de hotel, o ‘locus operandi’ tradicional dos libertinos de Bullywood. Daryl Hannah precisou bloquear a porta de seu quarto com uma cômoda para não ser alcançada pelas mãos gordas, peludas e cúpidas de Weinstein.

A carreira do produtor, aparentemente, acabou. Ninguém quer mais nada com o ogro da Miramax. Até um mês atrás, ele podia quase tudo, inclusive contratar ex-agentes do Mossad para espionar e chantagear atrizes e jornalistas que comprometessem suas libidinagens e sua blindagem midiática.

Mais que um “lost tycoon”, ele foi uma espécie de flautista de Hamelin. Atrás dele, inesperados ratos da concupiscência hollywoodiana: o comediante Louis C. K. (um infrene onanista, para decepção das feministas que o tinham em alta conta), o produtor e cineasta James Toback (que aterrorizou as atrizes Selma Blair e Rachel McAdams, entre outras), o produtor Brett Ratner (acusado por seis vítimas, até a última contagem), e o admirado ator Kevin Spacey, a quem Anthony Rapp, cantor e ator mais de teatro que de cinema, imputou sucessivas cantadas quando ele tinha 14 anos e o intérprete de Frank Underwood, 37.

A difamação de Spacey foi a que mais celeuma provocou, até por ser ele, por enquanto, o primeiro assediador gay desse que se tornou o mais traumático escândalo de Hollywood desde a caça às bruxas macarthista, seis décadas atrás. Ora recolhido, voluntariamente, a uma clínica de reabilitação no Arizona, Spacey vivia o auge de uma carreira exemplar. Em questão de horas, também perdeu tudo: a série House of Cards e o papel do bilionário J. Paul Getty no novo filme Ridley Scott, All the Money in the World, do qual não é protagonista.

Por que puni-lo tão drasticamente por um “ato impensado” cometido há 21 anos?, cobrou o mestre do jornalismo literário Gay Talese, que ainda ignorava as vinte acusações de assédio que o ator teria cometido no mundo teatral londrino, vindas à tona na quinta-feira. Talese pretende escrever um perfil do ator, caso ele aceite conversar. Não esperem, portanto, um Kevin Spacey Had a Cold.

All the Money in the World já estava pronto e com estreia marcada para daqui a um mês quando Spacey caiu em desgraça. Com os miraculosos recursos da digitalização, Scott substituiu Spacey por Christopher Plummer, que, ironicamente, fora o primeiro escolhido para o papel de J. Paul Getty. Scott descartou-o porque preferia um ator com mais apelo popular. Em seu blog, a renomada historiadora inglesa Mary Beard saiu de sua seara para questionar as ressalvas de ordem moral apresentadas pelo cineasta. “Ele apenas calculou quanto perderia agora com a presença de Spacey em seu filme”, disparou Beard.

Spacey, que tampouco se furtou a uma jogada oportunista, ao admitir pela primeira vez, publicamente, que era gay, deixou outro filme, em pós-produção, que, até onde se sabe, não deverá ser alterado nem lançado. Além de potencialmente menos comercial, nele Spacey é o protagonista, encarnando o escritor Gore Vidal. Custaria uma fortuna trocá-lo, digitalmente, por outro intérprete.

Nenhum tipo de assédio deve ser perdoado, sustenta o produtor e ator Judd Apatow, amparado na inexistência de penas legais estabelecidas para diferentes casos de bullying. Apatow é uma das vozes masculinas mais radicalmente empenhadas em banir todos os predadores da indústria de entretenimento, que há décadas nela impuseram “um império do medo”, uma falocracia amparada por managers e assessores receosos de perder emprego e advogados gananciosos e sem o menor escrúpulo.

Num artigo publicado 72 anos atrás, a atriz Maureen O’Hara alertou para essa deriva dissoluta mas não contou com o esperado respaldo da colônia cinematográfica. Em 2003, Daryl Hannah ligou para seus conhecidos na equipe de Kill Bill para avisá-los do perigo que corriam sob as ordens de Weinstein. Ninguém se tocou.

A fila dos arrependidos não para de crescer. Quentin Tarantino, diretor de Kill Bill e outras produções da Miramax, a produtora independente que então Weinstein comandava, penitenciou-se por não haver dedurado o patrão no final do século passado. Alec Baldwin confessou saber das cafajestadas do produtor desde o alegado estupro de Rose McGowan, no Festival de Sundance, em 1997. 

Todos sabiam e ficaram nas encolhas. Menos Kate Winslet, que ao receber o Oscar por sua atuação em O Leitor, fez questão de omitir Weinstein em seu discurso de agradecimento, por ele ter sido “grosseiro, agressivo e desagradável” durante as filmagens. Pena que não tenha incluído essa explicação no discurso. 

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