Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires
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A literatura transgressora de Roberto Arlt ganha reedições no Brasil

Escritor argentino não se filiou a nenhuma das tradições da literatura de seu país

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

12 de setembro de 2020 | 16h00

Com tradução e apresentação de Maria Paula Gurgel Ribeiro, a Iluminuras acaba de publicar os romances Os Sete Loucos (1929) e sua continuação, Os Lança-Chamas (1931), do escritor argentino Roberto Arlt (1900-1942). Como nos informa a tradutora, “vários temas de Roberto Arlt estão presentes: a crítica à classe média e sua hipocrisia, a angústia, a atração pelo dinheiro e pelo poder, o vazio que ambos causam nos homens. As personagens arltianas sempre preferem transgredir a manter uma ‘vida cinza’, e é somente através da marginalidade que elas podem se realizar”. Ademais, prossegue Maria Paula, “o fato de utilizar uma linguagem que mescla o léxico culto com o espanhol das ruas, dos cortiços, dos dialetos dos imigrantes foi seu grande achado, tornando Arlt um escritor singular”. 

Ler Roberto Arlt configura uma experiência antes de tudo desestabilizadora e vertiginosa, vivência que confere à obra do autor uma característica intersticial em relação aos movimentos literários majoritários da literatura argentina no início do século 20. É assim que, para o jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto, em seu prefácio para Os Sete Loucos, Arlt não se encaixa na “dicotomia que, para fins didáticos, dividia duas tendências na literatura argentina: a dos ‘estetas’, da revista Martins Fierro, reunidos na elegante calle Florida, em Buenos Aires [entre os quais Jorge Luis Borges (1899-1986)], e a dos escritores ‘sociais’, da revista Claridad, reunidos na suburbana calle Boedo [este seria o logradouro de Arlt]”. Em um dossiê publicado pela revista Cult em abril de 2000, o escritor, professor e crítico literário argentino Ricardo Piglia (1941-2017) vislumbrou a obra de Arlt sob o signo da amplitude e da polifonia: “Arlt é excêntrico demais para os esquemas do realismo social e realista demais para os cânones do esteticismo”. 

Que poderíamos dizer, como marcos minimamente estabilizadores, sobre romances cujos títulos pirofágicos despontam com as insígnias Os Sete Loucos e Os Lança-Chamas? Que, em boa medida, Roberto Arlt foi afiando a navalha de seu olhar sobre Buenos Aires na coluna “Águas-fortes portenhas”, publicada no jornal El Mundo, ininterruptamente, de 1928 até o dia posterior à sua morte, que ocorreu em 26 de julho de 1942. 

De retumbante sucesso entre os leitores, que, segundo Maria Paula Gurgel Ribeiro, “se reconheciam na figura do pequeno comerciante, daqueles que praticam pequenos furtos, da moça que está à procura de um noivo, dos que fazem corpo mole no trabalho”, a coluna de Arlt era a única seção assinada do jornal. Prossegue Maria Paula: “Dizia-se que as ‘Águas-fortes portenhas’ eram a primeira coisa que as pessoas liam ao comprar o jornal ou até mesmo que o compravam apenas para ler Roberto Arlt. Diante de tamanho sucesso, o El Mundo garantiu então publicidade ao livro do seu jornalista estrela, e Os sete loucos foi recebido com entusiasmo tanto pelos leitores quanto pela crítica, e todas as edições se esgotaram rapidamente”. O romance Os Lança-Chamas, por sua vez, não angariou a mesma atenção da crítica e do público, mas Arlt, atento mais à vocação e ao ímpeto da escrita que ao reconhecimento propriamente dito, assim se pronunciou quando Os Sete Loucos ficou em terceiro lugar (todos esperavam a vitória retumbante da obra) no prestigioso Prêmio Municipal de Literatura oferecido por Buenos Aires: “Eu, que sou um filósofo cínico acima de tudo, direi que o veredicto do júri me deixou, mais que tranquilo, satisfeito. Por estas razões: 1.º Porque poderiam não ter me dado nenhum prêmio. 2.º Porque não fui buscar prestígio no concurso (isso tenho de sobra), senão dinheiro, e dinheiro me deram. 3.º Porque a vida é assim, e nenhum homem pode ser mais feliz porque em vez de lhe dar 2 mil deram-lhe 3 ou 5 mil, que é o prêmio máximo. Depois, todos nós do ofício sabemos de maneira consciente o que é que merecemos e o que não merecemos. E, que diabo, se a pessoa trabalha, escreverá bons livros, porque para isso tem condições e vontade. E se chega um prêmio maior, o receberá com igual tranquilidade, porque é tanta coisa que um homem pode sonhar que a vida poucas vezes pode superar seus sonhos e a satisfação que estes proporcionam”.

A ação de Os Sete Loucos ocorre em apenas três dias e desvela a história de sete personagens angustiados, pauperizados e desnorteados após o fim da 1.ª Guerra Mundial (1914-1918). Funcionário de uma empresa chamada Companhia Açucareira, o protagonista Erdosain se vê emparedado pelos superiores hierárquicos, que o acusam de ter desviado dinheiro da firma. 

Logo no início do livro, as impressões do narrador, cuja visão oscilante ora se funde ao olhar tresloucado de Erdosain, ora se alça para além da personagem a ponto de escarafunchar o mais íntimo de sua consciência, nos revelam que o leitor pode esperar, a cada momento, camadas de realidade verossímil imiscuídas a impressões que esfumaçam o real como uma névoa vanguardista que flerta com o expressionismo cubo-geométrico e o surrealismo enevoado pelo ópio: “Ao abrir a porta envidraçada da gerência, guarnecida de vidros japoneses, Erdosain quis recuar; compreendeu que estava perdido, mas já era tarde. Estavam à sua espera o diretor, um homem de baixa estatura, beiçudo, com cabeça de javali, cabelo cinza cortado à la ‘Humberto I’, e um olhar implacável filtrando por suas pupilas cinzas como as de um peixe; Gualdi, o contador, pequeno, magro, meloso, de olhos escrutadores; e o subgerente, filho do homem de cabeça de javali, um bonito rapaz de trinta anos, com o cabelo totalmente branco, cínico em seu aspecto, a voz áspera e o olhar duro como o do seu progenitor. Estes três personagens, o diretor inclinado sobre uma das planilhas, o subgerente recostado numa poltrona com a perna balançando sobre o espaldar, e o sr. Gualdi respeitosamente de pé junto da escrivaninha, não responderam ao cumprimento de Erdosain. Só o subgerente se limitou a levantar a cabeça: ‘Recebemos a denúncia de que o senhor é um vigarista, que nos roubou seiscentos pesos’”.

Com o ultimato de ter que se explicar perante seus inquisidores até as três horas da tarde do dia seguinte, Erdosain sai da empresa e passa a caminhar, desconcertado, “pensando telegraficamente, sem preposições” – o que, para o narrador, é “enervante” –, pelas ruas de uma Buenos Aires sobre a qual a paira uma névoa espessa e viscosa, ainda que etérea, de angústia e ressentimento. O narrador que mete o bedelho e o dedo na consciência purulenta da personagem nos revela que “Erdosain imaginava que tal zona existia sobre o nível das cidades, a dois metros de altura, e a representava graficamente sob a forma dessas regiões de salinas ou desertos que nos mapas estão reveladas por óvalos de pontos, tão espessos como as ovas de um arenque. Essa zona de angústia era a consequência do sofrimento dos homens. E como uma nuvem de gás venenoso se deslocava pesadamente de um ponto a outro, penetrando muralhas e atravessando os edifícios, sem perder sua forma plana e horizontal; angústia de duas dimensões que, guilhotinando as gargantas, deixava nestas um sabor de soluço”. 

Que o leitor de Roberto Arlt prepare-se para encontrar delírio e pirofagia, em Os Sete Loucos e Os Lança-Chamas, como uma alquimia literária que se comunica à forma e ao conteúdo das obras, de modo a adensar as lancinantes críticas sociais de um Arlt que procura transcender os marcos embotados da realidade pelas rupturas e ampliações de sentido(s) que sua literatura comunica. 

*É ESCRITOR, PROFESSOR E YOUTUBER. É DOUTOR EM LETRAS PELA USP, COM PÓS-DOUTORADO EM LITERATURA RUSSA PELA NORTHWESTERN UNIVERSITY (EUA) E AUTOR DE, ENTRE OUTROS, ‘DOSTOIÉVSKI E A DIALÉTICA: FETICHISMO DA FORMA, UTOPIA COMO CONTEÚDO’ (HEDRA, 2018) E ‘DIÁRIO DE UM ESCRITOR NA RÚSSIA’ (HEDRA, 2019)

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