A lógica viciada da narcoguerrilha

Exigir legitimidade em troca de reféns maltratados e ameaçados equivale a cobrar respeito por ser malvado

Joaquín Villalobos*, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2008 | 15h21

Quando comecei a conhecer o conflito colombiano foi difícil acreditar que os chefes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, viajassem em veículos com ar condicionado e seus acampamentos contassem com muitas comodidades. Surpreendeu-me também o evidente excesso de peso de alguns dos seus comandantes. A guerra civil salvadorenha se explicava pelo excesso de poder do Estado, mas o conflito colombiano, ao contrário, se explica essencialmente pela debilidade do Estado no controle do próprio território. Na Colômbia há regiões que estão sem governo há mais de 40 anos. Esse vazio foi preenchido por paramilitares, guerrilheiros, narcotraficantes e bandidos, que automaticamente se tornaram autoridade diante da indiferença ou anuência dos governos.Como guerrilheiros salvadorenhos, disputamos em combate cada metro quadrado do nosso pequeno país com governos autoritários sustentados militarmente pelos Estados Unidos. Na Colômbia, ao contrário, as Farc têm sido uma guerrilha sedentária, que, sem lutar muito, controla extensas áreas de território onde não existia governo. Por isso estão há 43 anos na selva e alguns de seus chefes já morreram de velhice. Entretanto, na Colômbia, o M-19, Movimento 19 de Abril, foi a primeira guerrilha latino-americana que, às custas de muitos mortos, negociou reformas políticas democráticas. Hoje o M-19, como parte do pólo democrático, é a segunda força do país. Isso quer dizer que, na Colômbia, a esquerda poderia ganhar as próximas eleições, como já ocorreu no Chile, Argentina, Uruguai, Equador, Bolívia, Brasil, Peru, Panamá, República Dominicana, Venezuela, Guatemala e Nicarágua.Existem aqueles que ainda consideram a América Latina uma região formada por repúblicas de bananas, onde a violência política é legítima. O mapa, os tempos e o dinheiro da cocaína coincidiram com o crescimento da violência das Farc nos anos 90. Antes disso, elas constituíam uma insurgência indolente e por isso pouco relevante. Em 1990, com a morte de seu líder político Jacobo Arenas, as Farc ficaram sem um freio ideológico diante das plantações de coca que proliferavam em seus territórios. Começaram extorquindo dinheiro dos narcotraficantes e acabaram se tornando donos da maior produção de cocaína do mundo. Deixaram de ser a última guerrilha política latino-americana para se tornar o primeiro exército irregular do narcotráfico, convertendo-se numa real ameaça para o Estado colombiano. Nos últimos 20 anos, os governos tiveram que começar a reverter essa debilidade do Estado e corrigir abusos passados. Primeiro, firmaram um acordo de paz com a insurgência política; depois, desarticularam os grandes cartéis do narcotráfico dirigidos por Pablo Escobar; em seguida, um dos governos em Bogotá inventou uma maneira bem-sucedida de combater a cultura da violência; e, finalmente, iniciou-se a recuperação do campo. Propuseram negociações às Farc, que fracassaram após o seqüestro de 12 parlamentares, executados em junho de 2007. As forças do Exército e da polícia cresceram e se instalaram de modo permanente nos 1.120 municípios colombianos. Teve início então o combate e a desmobilização dos paramilitares. Os chefes guerrilheiros perderam seus veículos com ar condicionado e seus acampamentos com geladeira. Encurralados, partiram para o terrorismo: 117 colonos refugiados na igreja de Bellavista morreram quando a igreja foi destruída pelas Farc; um carro-bomba com 200 quilos de explosivos destruiu um clube em Bogotá repleto de famílias. Foram fatos que se tornaram quotidianos, com milhares de civis mortos e feridos. Hoje, contudo, diminuiu a violência das Farc e em 2007 elas não conseguiram capturar ou atacar povoados controlados pelo Estado. Seus combatentes vêm se desmobilizando maciça e voluntariamente, 2.400 só no ano passado, e há evidências de que alguns chefes guerrilheiros recuperaram as comodidades perdidas - no território venezuelano . As Farc não têm futuro como guerrilha, mas sim como narcotraficantes. A imensa selva colombiana lhes permite manter os reféns seqüestrados e usá-los como última cartada política. As duras condições em que os cativos são mantidos evidenciam a desmoralização e a perda de controle da guerrilha: ela nem sabia onde se encontrava o menino Emmanuel. As Farc fizeram do seqüestro, da extorsão e do narcotráfico suas principais atividades, e são os maiores seqüestradores do planeta. Uma insurgência negocia ou a partir da legitimidade política de suas demandas ou da força militar que detém. Contudo, exigir legitimidade em troca de reféns maltratados e ameaçados de morte equivale a exigir respeito por ser malvado. Ser contra o neoliberalismo não justifica explorar a dor das famílias dos cativos. Se Hugo Chávez estivesse apenas ajudando a salvar os reféns isso seria positivo, mas seu reconhecimento político das Farc ressuscita a violência colombiana, abre as portas do seu país à cocaína e o converte em protetor de alguns cruéis narcoterroristas. * O AUTORJoaquín Villalobos, o comandante Atilio, foi um dos principais estrategistas da guerrilha de esquerda salvadorenha durante as mais de duas décadas da guerra civil que terminou em 1992. Foi um dos fundadores da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, que se transformou em partido político. É hoje crítico da esquerda latino-americana e do chavismo.

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