A longa viagem da X2

Restos do primeiro guerrilheiro morto pelo Exército no sul do Pará são sepultados após 37 anos

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2009 | 03h17

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A cada noite de Natal a cena se repetia. No meio da festa, família reunida entre abraços e sorrisos, d. Luiza puxava os versos da marcha de Paulo Soledade e Fernando Lobo, lançada na voz de Dalva de Oliveira em 1951: "Oi, zum, zum, zum, zum, zum, zum, zum / Tá faltando um". Aos 94 anos, d. Luiza sabe o que é sentir falta. Esperou 37 anos pelo retorno de seu primeiro filho homem, Bergson Gurjão Farias, terceiro dos quatro que teve com o comerciário Gessiner Farias, morto em 1988. Todos nascidos de parteira na casa da família, no bairro de Aldeota, em Fortaleza: Tânia, Ielnia, Bergson e Gessiner Júnior. Bergson foi líder estudantil e militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B) no final da década de 60, durante a ditadura militar. Entrou para a guerrilha do Araguaia, da qual se tornaria o primeiro desaparecido, em 1972. Na terça-feira, sua ossada, finalmente identificada, voltou para o Ceará. E d. Luiza pôde enterrar seu filho.

"Cantando o Zum-Zum minha mãe instituiu uma espécie de ausência presente do meu irmão", conta a primogênita Tânia, de 66 anos, última a aceitar a morte de Bergson na família, após uma via-crúcis de buscas infrutíferas, informações truncadas e má vontade política.

Ela se lembra do menino curioso e perspicaz, nascido em 17 de maio de 1947, que, com pouco mais de 3 anos, perguntou a uma tia-avó muito católica por que nunca tivera filhos. Diante da resposta "porque Deus não quis", o pequeno pôs-se, para seu espanto, a ensiná-la. "A senhora entra no quarto, fecha a porta, deita na cama e manda chamar a d. Dudu", disse Bergson, referindo-se à parteira da família.

Os Gurjão Farias, que por décadas contemplaram a porta de casa na esperança de ver Bergson surgir de volta da clandestinidade, não esquecem a forma como ele entrava: sem dizer "oi", cantando uma marcha de carnaval e agarrando mãe e irmãs para beijá-las e cheirá-las. "Tinha essa mania de dar cheiro na gente", suspira d. Luiza. "Eu, adolescente, morria de raiva", ri Ielnia, de 64 anos. Paixão mesmo Bergson tinha por Noel Rosa e pela política.

Estudante de química na Universidade Federal do Ceará (UFC), foi vice-presidente do DCE em 1967 e um dos presos no famoso Congresso da União Nacional dos Estudantes ocorrido em Ibiúna (SP) em outubro de 1968. Por conta disso, acabou expulso da faculdade. Naquele mesmo ano de 1968, durante uma passeata estudantil em Fortaleza, sofreu um ferimento grave na cabeça. "O relato que tivemos foi de que o meu irmão agachou-se para desmontar um coquetel molotov que um dos estudantes tinha deixado rolar perto de um carro e tomou uma botinada de um soldado", diz Tânia. "Ele se preocupava muito com a pecha de baderneiros que o regime queria grudar nos estudantes e era contra que se danificasse qualquer patrimônio. Chegava a pedir licença às autoridades antes das passeatas - que era negada e, aí, eles saíam do mesmo jeito."

Com a pancada, Bergson fraturou o osso mastóide, na região temporal do crânio e teve hemorragia pelo ouvido. Julgado pela Justiça Militar em julho de 1969, foi condenado a 2 anos de prisão e partiu para a clandestinidade. Seria a última vez que seus pais o veriam. Bergson fugiu para São Paulo, onde adotou o codinome "Jorge". De lá, seguiu para o Araguaia, na região sul do Pará, onde integraria um dos três grupamentos de militantes do PC do B que sonhavam derrubar a ditadura e criar as condições para uma revolução socialista no País. Uma aventura que terminaria mal após o cerco organizado pelo Exército brasileiro: 70 pessoas, entre membros do PC do B e camponeses locais, foram presos, torturados e assassinados.

As circunstâncias da morte de Bergson até hoje não estão esclarecidas. Ela teria ocorrido entre os dias 4 de maio e 4 de junho de 1972. Em A Ditadura Escancarada, o jornalista Elio Gaspari traz uma descrição: "O Exército oferecia mil cruzeiros por "paulista" capturado. Era dinheiro suficiente para a compra de um pequeno pedaço de terra. Esse tipo de incentivo, associado à intimidação, levou um camponês a denunciar um guerrilheiro com quem tinha boas relações. Deveria entregar-lhe um rolo de fumo e avisou o Exército. Cinco "paulistas" foram para as proximidades do lugar onde deveria ser deixada a encomenda. Um deles, Jorge, aproximou-se. Ouviram-se três rajadas. Bergson Gurjão Farias, 25 anos, ex-aluno de química na Universidade Federal do Ceará, tornou-se o primeiro desaparecido da guerrilha".

O Livro Negro do Terrorismo no Brasil, produzido pelo Centro de Informações do Exército (CiEX) em resposta ao Brasil: Nunca Mais, extenso relatório sobre os crimes da ditadura divulgado em 1985 por d. Paulo Evaristo Arns, registra: "Em junho, começando a rarear os suprimentos, os elementos subversivos começaram a deixar a selva em busca de alimentos. No dia 4, houve um choque de um grupo subversivo com as forças legais na região do Caiano. Dele resultou ferido um tenente paraquedista, sendo morto Bergson Gurjão Farias (Jorge)". O oficial que teria sido baleado na omoplata por Bergson seria Álvaro de Souza Pinheiro, hoje general da reserva.

Testemunhas afirmam que o corpo de Bergson foi perfurado por baionetas e pendurado em uma árvore, de cabeça para baixo, para ser agredido por paraquedistas e agentes da repressão. O Exército jamais confirmou a informação ou o entregou à família. O deputado federal José Genoino, do Partido dos Trabalhadores (PT), um dos poucos sobreviventes da guerrilha, afirma tê-lo visto. "Enquanto estava preso, vi seu corpo chegando da mata, trazido pelos militares. Estava enrolado em um pano verde e tinha os olhos bem abertos, com uma expressão altiva, de quem não morreu na tortura, mas lutando, atirando", contou ao Aliás, minutos antes do sepultamento de Bergson esta semana.

Passados 24 anos da redemocratização, ainda existem cerca de 140 desaparecidos políticos no Brasil. O psicólogo paulista Sergio Perazzo, autor de Descansem em Paz os nossos Mortos dentro de Mim, de 1995, obra pioneira sobre o processo de luto, afirma que "quando não se tem contato com o corpo, a dor da família se prolonga. É o ritual funerário que marca a virada de página concreta". Já para o escritor Marcelo Rubens Paiva, colunista do Estado, cujo pai foi levado de casa em 1971 por agentes da repressão e nunca mais foi encontrado, o grande acerto de contas é com o País. "A gente não consegue ver nosso passado com os olhos da verdade", diz Marcelo, que participou da campanha de rádio e televisão da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) para recolher informações sobre o paradeiro das vítimas, que está no ar.

Acionada por familiares dos militantes da guerrilha do Araguaia, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) considerou insuficientes os esforços empreendidos pelas autoridades no esclarecimento das circunstâncias das mortes, na devolução dos restos mortais às famílias e na punição dos responsáveis pelos crimes. E encaminhou em setembro um pedido de explicações ao País, que corre o risco de ser condenado por violações continuadas aos direitos humanos. A força tarefa enviada pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao Araguaia este ano - cuja credibilidade tem sido questionada pelos familiares de desaparecidos - seria um sintoma do temor do governo com a possibilidade de uma condenação internacional.

Não por acaso, foi longo o caminho percorrido pelos restos mortais de Bergson, até que pudessem descansar em sua Fortaleza natal. Em 1996, ainda no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos localizou uma ossada com uma fratura no crânio semelhante à que Bergson tivera, no cemitério da cidade de Xambioá, no Tocantins. Ela recebeu o nome de "X2". Ainda que se encontrasse em péssimo estado de conservação, é difícil entender por que um teste de DNA conclusivo tenha levado 13 anos para acontecer. As razões de tanta demora oscilam, de acordo com o ponto de vista, entre as exigências técnicas e os humores da política.

Do início do governo Fernando Henrique até o final do governo Lula, amostras da X2 viajaram mais quilômetros do que Bergson em sua escapada do Ceará para São Paulo e, então, para o Araguaia. Em 1996, elas passaram pela Divisão de Pesquisa de DNA Forense da Polícia Técnica do Distrito Federal. Em 1998, foram enviadas para um novo laboratório, em Portugal. Em 2001, foram repassadas ao Instituto Nacional de Criminalística do Departamento de Polícia Federal, em Brasília. Em 2003, visitaram a Universidade de Buenos Aires, na Argentina. Em 2006, chegaram pela primeira vez ao laboratório Genomic, licitado pelo governo federal, em São Paulo. Só no dia 6 de julho de 2009, uma nova amostra, enviada no mês anterior, confirmou: X2 era mesmo Bergson Gurjão Farias.

"Encontramos, nessa segunda amostra, uma parte mais preservada do osso e utilizamos outra técnica, chamada SNP (sigla em inglês para Single Nucleotide Polymorhism)", explica a cientista que conseguiu a identificação, Denilce Ritsuko Sumita, bióloga paulista especializada em genética humana. O processo começa com a retirada de pedaços menores do osso, com o uso de uma serra elétrica. Depois, os fragmentos são triturados em um aparelho de nitrogênio líquido e submetidos a reagentes químicos para extrair o DNA - então comparado ao material colhido junto aos parentes, no caso, uma gota do sangue de d. Luiza.

Assim que o laudo da Genomic chegou a Brasília, o ministro da SEDH, Paulo Vannuchi, enviou uma assessora a Fortaleza para dar a notícia pessoalmente. Foi Tânia quem a recebeu, e perguntou três vezes: "Então não falta nada?", antes de acreditar que a espera de quase quatro décadas havia terminado. Minutos mais tarde, d. Luiza foi informada e ouviu em silêncio. Só depois, quando a filha saiu de casa, ela se sentou sozinha e chorou. "Depois de tanto tempo, pensei que nem tivesse mais lágrimas para chorar."

A pequena urna com os despojos de Bergson chegou de avião ao Aeroporto de Fortaleza e foi transportada em carro do Corpo de Bombeiros até o campus da UFC. Lá, um público de cerca de 300 pessoas a aguardava, entre familiares, amigos, estudantes universitários e secundaristas - vários vestindo camisetas com a inscrição "Bergson Vive".

Quando a urna surgiu, carregada por José Genoino, o senador Inácio Arruda, do PC do B, e o presidente nacional do partido, Renato Rabelo, entre outros, houve um momento de tensão inicial, motivado não só pelas divergências político-partidárias, mas também pelas histórias de delação que envenenaram as relações entre os personagens do Araguaia ao longo dos anos. Mas a sucessão de discursos emocionados aos poucos desarmou os ânimos. "Foi a coisa mais bonita ver gente que não se falava há tanto tempo se abraçar e chorar", disse Tânia.

Da universidade, o cortejo seguiu para o cemitério Parque da Paz, onde o filho de d. Luiza enfim foi sepultado, 37 anos depois, às 17h54 do dia 6 de outubro de 2009. Quando a última pá de cimento cobriu o jazigo, a mãe de Bergson sorriu pela primeira vez aquele dia. Daqui dois meses, na noite de Natal, quem sabe ela deixe de lado os velhos versos de Zum-Zum: "Bateu asas, foi embora / Não apareceu / Nós vamos sair sem ele / Foi a ordem que ele deu / Oi, zum, zum, zum, zum, zum, zum, zum / Tá faltando um".

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