A mãe mítica que governa os brasileiros

No messianismo hermafrodita, o desenvolvimentista ?pai dos pobres? vira a mãe que protege contra a economia perversa

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2008 | 22h57

Nos discursos que fez numa favela do Rio de Janeiro e em Dianópolis, no Estado de Tocantins, o presidente Luiz Inácio retornou ao tema da mãe mítica que governa seu governo e por meio dele nos governa a todos. No do Rio, definiu a ministra Dilma Roussef como "mãe do PAC" (Plano de Aceleração do Crescimento). No início, a ministra resistiu. Mas chorou no Congresso, na celebração do Dia Internacional da Mulher. Raríssima demonstração pública de emoção, aparentemente liberada pelo bom acolhimento que o apelido teve. Poucos dias depois, em Dianópolis, Lula voltou à figura simbólica da mãe. Curiosa coincidência que tenha escolhido aquela localidade para esse retorno à mãe dirigente, que é referência oculta do Brasil patriarcal. É que ali, na República Velha, um conflito de coronéis sertanejos colocaria a localidade na história do coronelismo dos pais da pátria e numa obra emblemática da literatura brasileira, O Tronco, de Bernardo Elis. Baseado em fatos ocorridos no sertão de antanho, o romance expõe as entranhas do poder pessoal e do Estado patrimonial, de que há resquícios na mãe mítica da política brasileira.Lula foi mais longe do que fora no discurso da favela do Rio. Referiu-se a si mesmo como mãe dos brasileiros: "...e nós, então, decidimos governar o Brasil como uma mãe administra seus filhos, cuidar de todos, mas olhar para os mais pobres, pra que eles possam ter um processo de ascendência social e transformar o Brasil num país de classe média..." A centralidade da mãe mítica no petismo de Lula, que administra as possibilidades da ascensão social, maternalmente grávida de um país de classe média, representa uma transformação profunda e uma inversão significativa no imaginário político que nos vem desde o Descobrimento. Ao menos três episódios, muito distantes entre si, são reveladores da persistência de um pai mítico que nos conduz em nossas esperanças. Num primeiro momento, o desaparecimento do jovem rei d. Sebastião, de Portugal, na batalha de Alkácer-Kibir (1598), contra os mouros, no norte da África, difundiu a espera pelo rei encantado, cujo retorno desencantaria o reino. Num segundo momento, a deposição de d. Pedro II (1889) literalmente expulsou de casa o pai da pátria e criou a difusa espera que foi misto de restauração, messianismo e milenarismo. Por fim, a morte de Getúlio Vargas, em 1954, que voltara ao poder como o "pai dos pobres", redefiniu o tempo da expectação e nele estamos até hoje. Getúlio como pai da pobreza não foi uma invenção de publicitários nem dele próprio. É designação que ainda se encontra por aí, nos recônditos lugares de um Brasil que persiste, aplicada aos benfeitores dos que de tudo carecem. A mística dessa paternidade difusa se enraíza no profetismo do calabrês Joaquim de Fiore, monge cistercense do século 12, que nos dois testamentos da Bíblia viu três, o do Pai, o do Filho e do Espírito Santo. Aparentemente, foi o padre Antônio Vieira quem primeiro associou o profetismo joaquimita, introduzido, em Portugal pela rainha Santa Isabel, ao sebastianismo. Recobriu o Esperado com a aura do rei encantado que retorna e com a aura do imperador do Espírito Santo que desencanta, invertendo o mundo pecaminoso, errado e injusto, de cabeça para baixo, para colocá-lo de pé no reino da fartura, da justiça e da alegria. Daí que as virtudes humanas libertadoras sejam encontradas no contrário do existente: nas crianças e não nos adultos, nas mulheres e não nos homens, nos pobres e não nos ricos. Nisso se resume o messianismo e o milenarismo que governa nossas esperanças. A própria monarquia brasileira foi fundada como império e não reino, por sugestão de José Bonifácio, para se legitimar na cultura joaquimita e sebastianista dos brasileiros.A idéia do pai mítico sempre foi muito forte em nossa cultura. O rei encantado, o imperador do Divino, o "pai dos pobres" e, agora, a "mãe dos brasileiros, especialmente dos pobres", são denominações variantes do que no passado colonial se confirmava na realidade vivente dos patriarcas de grande carisma e poder, os chamados "pais da pátria". Toda comunidade tinha o seu. A pátria terminava ali mesmo, nos confins da vila e da cidade e da teia de parentesco. "Pai da pátria" era designação de respeito e até de veneração. Mas o igualitarismo republicano do século 20 acabou com a imagem dos velhos patriarcas, que passaram a ser ridicularizados. "Pai da pátria" passou a designar os retrógrados que ainda se criam credores de prestígio e respeito. A ironia teve aí uma função demolidora das identidades e das relações de deferência da velha ordem monárquica, vencida pelo republicanismo de caserna que destruiu a monarquia.Lula, logo que eleito, foi visto como o governante dotado dos dons do rei taumaturgo. Seus assessores religiosos ajudaram-no a convencer-se de que era o escolhido de Deus e ele próprio disse isso em público, em várias ocasiões. Até que, com a corrupção e o escândalo do mensalão, os assessores da vertente mística do petismo pularam fora do poder. Lula, então, passou a comparar-se e a identificar-se com Getúlio Vargas, a entrar no imaginário do "pai dos pobres", não obstante o antagonismo do PT com a herança do forte getulismo do ABC. O "pai dos pobres", porém, tinha uma política de desenvolvimento econômico, que assegurava emprego e salário, fundamento dessa paternidade putativa. Lula tem só um programa de crescimento econômico, que é muito diferente de desenvolvimento. No plano social tem apenas um assistencialismo que, ao atenuá-la, confirma a marginalização social porque a mantém. É nesse assistencialismo que o "pai" vira "mãe", opondo a mãe que protege contra a economia perversa ao pai que promovia inserção social estável. Nosso messianismo é sabidamente hermafrodita. Daí que o pai possa ser mãe. O conservadorismo de Lula tateia no milenarismo brasileiro para encontrar a imagem da imortalidade. Mas, na auto-rotulação e na vacilação, revela-se frágil. * José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP

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