A maior invenção de Bill Gates

Magnata que se aposenta não criou o software: transformou-o em produto e se tornou centibilionário

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2008 | 21h39

O PDP-11, fabricado pela Digital, era uma máquina grande: tinha o tamanho de uma geladeira. Foi num computador desses, em finais de 1975, que um jovem engenheiro chamado Dan Sokol produziu pacientemente 50 cópias, em rolo de papel perfurado, do programa Basic para o recém-lançado microcomputador Altair. Numa era anterior aos disquetes e na qual computadores pequenos eram uma novidade levada pouco a sério, Sokol se tornou o primeiro pirata. Mas ninguém chamava ainda de pirataria fazer cópias de programas sem pagar por eles. Ninguém, exceto uma pessoa: o autor daquele Basic, Bill Gates.Na segunda-feira passada, Gates confirmou para o público da CES, a maior feira anual de produtos eletrônicos de consumo do mundo, que deixará este ano a presidência da Microsoft. Seu plano, diz, é dedicar-se integralmente à Fundação Bill e Melinda Gates, a maior organização filantrópica jamais criada. Os superlativos parecem acompanhar o fundador da Microsoft - ele próprio, segundo a revista Forbes, ainda na primeira colocação na lista dos homens mais ricos do mundo. Tudo, no entanto, poderia ter sido muito diferente não fossem os eventos transcorridos naquele final de 1975 e suas conseqüências, ao longo de 76.Sokol era membro de um pequeno e seleto grupo de amadores apaixonados por tecnologia que se encontravam mensalmente. Era o Homebrew Computer Club - Clube do Computador Caseiro -, que reunia estudantes, engenheiros e interessados em tecnologia nos arredores da Universidade de Stanford, na Califórnia. Daquele clube vieram muitos dos pioneiros do Vale do Silício, incluindo os fundadores da Apple. O Basic, produzido para o Altair pela então chamada Micro-Soft, era vendido por US$ 500. Mas a venda de programas não era hábito. Programadores, oriundos de empresas de tecnologia ou universidades, tinham o costume de trocar as linhas de código que escreviam."A maioria de vocês sabe que quase todos roubam seus programas", escreveu um jovem Bill Gates, ainda aos 20 anos. "Computadores têm de ser comprados, mas software é algo que se divide. Alguém liga a mínima para o fato de que programadores não recebam pelo trabalho?"Em fevereiro de 1976, quando essa carta aberta foi publicada na newsletter do clube Homebrew, não existia uma indústria de software. O mercado para microcomputadores era mínimo e técnico. O Altair não era vendido em lojas, mas por encomenda postal, na forma de um kit que precisava ser montado, seguindo instruções publicadas na revista Popular Electronics. Cinco mil unidades foram vendidas em 1975 - e esse era o mercado potencial do programa de Gates. Alguns dos membros do clube ficaram furiosos - "chamar de ladrão clientes potenciais é um erro de marketing", chegou a escrever um deles. Programar era um hobby. Ou um serviço pelo qual uma empresa pagaria um salário. Não mais que isso.Não foi aquele Basic, o primeiríssimo produto da Microsoft, que fez a fortuna de Bill Gates. Mas o fruto das intensas discussões entre os hobistas - como se autodenominavam os usuários daqueles primeiros microcomputadores - foi a aceitação de duas idéias suas. A primeira, que programas, assim como máquinas, eram produtos. A segunda, que a cópia sem pagamento era o mesmo que roubo.Ainda assim, aquele mercado inicial de computadores pessoais não faria a fortuna de ninguém. Ao Altair, seguiram-se meia centena de computadores em kit até os primeiros modelos caseiros, mais amigáveis ao usuário - como o Apple II - virem à tona. Artigos na imprensa já sugeriam, no final dos anos 70, que uma revolução tecnológica estava em curso. O interesse dos grandes investidores, no entanto, era em empresas nascentes como Apple, Comodore ou Atari, que faziam as máquinas. O negócio dos programas antevisto por Gates não parecia promissor.A aposta nas máquinas pareceu se confirmar quando a gigante IBM se dispôs, em 1981, a entrar no ramo com seu PC. Já com a grafia definitiva do nome, a Microsoft de Bill Gates conseguiu o contrato para produzir o sistema operacional do computador IBM. A condição era que produzisse o software em tempo recorde. Ninguém conseguiria. Mas Gates não teve dúvidas: assinou o acordo, pegou um avião e comprou o sistema que um programador hobista já havia desenvolvido. Rebatizou-o de MS-DOS e o entregou. O programa mais importante da história de sua empresa não foi produzido por ela.Como queria dominar o mercado de micros, a IBM decidiu franquear a qualquer empresa a cópia de suas máquinas. Seriam PCs iguais, só que com marcas múltiplas, uma lógica que se mantém até hoje. O resultado da estratégia é que o mercado de micros se pulverizou entre vários fabricantes. Mas o programa que fazia as máquinas funcionarem tinha um único dono: a Microsoft.Ter o domínio do sistema operacional (software), Gates descobriu, era muito mais valioso do que os executivos da IBM jamais suspeitaram. O sistema é que gerencia todas as atividades da máquina. É a partir dele que os outros programas - processadores de texto, planilhas eletrônicas, etc. - rodam. Com pequenas adaptações nesse sistema, o DOS, a Microsoft podia piorar a performance dos programas que concorriam com seu pacote de softwares, como Word e Excell. Desde o MS-DOS e, mais tarde, do Windows, a Microsoft jamais hesitou em usar essa vantagem para promover os outros programas de sua linha. Garantiu o monopólio pelo qual terminou condenada, em 2000, pela Justiça dos EUA. Um processo similar ainda está em curso na União Européia.Visto como vilão ou ícone da inovação, Bill Gates inventou o negócio do software e, passando a perna numa das maiores multinacionais de então, fez desse negócio o dominante da revolução digital. No rastro, sua Microsoft produziu 12 mil milionários, três bilionários e o homem mais rico do mundo. Por causa da valorização das ações de sua empresa antes do crash da Bolsa de Valores em 2000, sua fortuna chegou a ser avaliada em mais de US$ 100 bilhões. Gates é o único do mundo que chegou a ser um centibilionário.

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