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Ateliê Editorial
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A melancolia nos versos em prosa de Charles Baudelaire, o poeta dos modernos

'O Spleen de Paris', obra póstuma do autor inaugurou o simbolismo, ganha nova tradução no Brasil

Donny Correia, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2021 | 16h00

Oscilando a esmo pelas largas calçadas de uma Paris ancestral, pivô de toda a cultura do Ocidente, flana o espírito (ou fantasma?) de Charles Baudelaire (1821-1867). Com as feições combalidas pelo ópio, o andar trôpego pelo absinto, os cabelos tingidos de verde para afrontar a carolice, o mais maldito dos poetas passeia com seu jabuti de estimação numa coleira.

Enquanto o quelônio ensaia seus morosos passos pela rua, o poeta apreende tudo o quanto pode de uma metrópole em trânsito, que emana a tradição, mas quer romper as correntes e conhecer esta “tal de Modernidade”. Baudelaire, um pensador, esteta e profundamente atormentado, chora a decadência da beleza imanente e narra a extrema unção de um universo moribundo. Esta imagem lírica e decadentista sintetiza O spleen de Paris, obra póstuma do poeta francês, que chega em nova tradução, por Samuel Titan Jr. professor de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na USP e responsável por verter ao Português autores como Adolfo Bioy Casares, Flaubert e Voltaire, entre outros.

Charles Baudelaire é de conhecimento geral quando se fala da virtuosa obra inauguradora do Simbolismo – ainda que de contorno parnasianos – As flores do mal (1857); torna-se mais segmentado quando citam Paraísos artificiais (1860), ode à ascese opioide; e passa a ser bastante específico quando analisado a partir de seus escritos sobre Estética, textos em que nos apresenta o universo do flanêur, um homem do mundo, que precisa ter brio para se manter à margem da multidão escravizada pela produtividade da indústria e pela despersonalização impingida à sociedade, graças aos famigerados tempos modernos. É aqui que O spleen de Paris encontra seu sentido mais intrínseco, já que se trata de uma coleção de poemas em prosa, sem métrica, nem rimas. São reflexões pessoais, honestas e imediatas a respeito de todas as rupturas (voluntárias ou compulsórias) frutos do Fin de Siècle.

Para Baudelaire, “spleen” é o estado de melancolia e tédio, uma dor existencial. Faz, também, referência à teoria dos humores, conforme Hipócrates e Galeno, segundo a qual, esse estado depressivo seria consequência da alta produção da bílis negra pelo baço (spleen, em inglês). A teoria surgida na Grécia Antiga encontrou ressonância na medicina até mais ou menos o século 17. Em Baudelaire, parece uma tentativa de alinhar fenômenos fisiológicos a distúrbios do humor diante de uma falência cultural mais forte que o indivíduo. Isto, muito antes do surgimento da Psicanálise e dos estudos sobre a Psicossomática.

Ao longo dos cinquenta poemas reunidos e publicados após sua morte, Baudelaire parecia convicto de um projeto mais ambicioso que tudo o que já tinha escrito antes. Sua preocupação é, claramente, documentar muito bem, ora de forma mais volitiva, ora num esforço cronista e objetivo, os descaminhos que se entrecruzavam naquele entroncamento de tendências e informações chamado Paris. A cidade que foi o vetor da moda, da arte, da gastronomia e da etiqueta social era também desigual, hostil e deprimente, embora essas facetas menos nobres não figurassem na prioridade da comunicação de massa à época. A ascensão da burguesia, a velocidade dos novos meios de transporte, a serialização da produção artística e a morte da estética figurativa não estavam na pauta dos mantenedores de um status quo utilitarista. Por isso, o poeta se autoelegeu arauto do fim de um mundo e seus laivos de prazer formal que escapavam por entre os dedos de um vate do apocalipse. “Ai de nós, pobres fêmeas envelhecidas, já não agradamos a ninguém, nem mesmo aos inocentes”, lamenta Baudelaire encarnando o eu-lírico de uma senhora decrépita que, ao tentar agradar um bebê de colo, fazendo-lhe fitas, acaba por assustá-lo, como se ela fosse um monstro.

O peso das responsabilidades, que ceifa o frescor de um dia dedicado ao ócio criativo figura em outro segmento: “Quero propor um passatempo inocente. São tão poucas as distrações livres de culpa!”. Isto remete ao “homem da multidão” do qual Benjamin tanto falaria; o homem sem tempo para si, sem nome, sem direito ao lazer, sem alma. São os mesmos personagens com quem Baudelaire já cruzava em suas andanças enquanto colhia material para seu ambicioso projeto literário: “Sob um vasto céu cinzento, numa vasta planície poeirenta, sem trilhas, sem relva, sem um cardo, sem uma urtiga, encontrei vários homens que caminhavam recurvados”. Nos faz lembrar dos operários combalidos, que marcham em passadas de máquina na Metrópolis de Thea Von Harbou.

Às vezes, Baudelaire alude ao delírio de um tempo como, também, a prosa poética de Lautreamont descreveu, tal qual saído diretamente de um sonho lúbrico e febril, em que a profanação é a chave da escrita e o segredo da leitura: “Noite passada, dois soberbos Satãs e uma Diaba não menos extraordinária subiram a escadaria misteriosa pela qual o Inferno parte em ataque à fraqueza do homem que dorme e se comunica em segredo com ele”. Outras vezes, o poeta retorna às suas reflexões sobre a Arte, mas com a pena melhor pendida para a meta-estética, como se a impotência diante do mundo torturasse a razão do artífice: “Ai! Será preciso eternamente sofrer ou fugir eternamente ao belo? Natureza, maga sem mercê, rival sempre vitoriosa, deixa-me! Deixa de tentar meus desejos e meu orgulho!”. E conclui, vencido diante do inquestionável: “O estudo do belo é um duelo em que o artista grita de pavor antes de cair vencido”.

Em verdade, a prosa irrigada de poesia que nos atira Baudelaire é um monumento erigido às teorias da arte, ao malfadado ofício do artista e ao insignificante papel da beleza diante de um universo otimizado pelo capital. O leitor pode até encontrar relações entre o spleen baudelairiano e o primeiro longa-metragem de Alberto Cavalcanti (1897-1982), filmado em Paris, em 1926, Rien que les heures, em que o carioca radicado na Europa explora uma cidade muito distante dos belos bulevares, do glamour e das aparências ultrapassadas. O filme se dedica à vida dos sem-teto, das prostitutas, dos verdureiros de rostos marcados pelo tempo e pelo trabalho duro, e dos marinheiros e estivadores que veem o porto não como um idílico desejo de partir, mas como uma obrigação miserável de ficar, a pena de sempre ficar.

A tradução que nos propõe Titan Jr. traz a linguagem do original, publicado em 1869, muito bem aclimatada ao estado de coisas presente, sem prescindir do rigor que pede uma nova tradução de um poeta canônico. Com este exercício tradutório, conseguiu reforçar, resguardar e reapresentar a sempre indispensável poética daquele que anteviu a decadência que faria desgosto ao longo dos dois séculos seguintes.

Donny Correia é poeta, tradutor e crítico, membro da ABCA e da Abraccine, e doutor em Estética e História da Arte pela USP. Autor de seis livros, em 2021 lançará Na treva da província – poemas escolhidos de Emiliano Perneta (Kotter, no prelo).

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