A mestra da boa utopia

O particular ?senso antropológico? de Ruth Cardoso, analisado em seminário na Universidade de Colúmbia

Lilia Moritz Schwarcz*, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 20h35

"Faça cara de boba." Era esse o conselho que a mestra Ruth Cardoso dava às alunas antropólogas quando elas se preparavam para ir a campo. A sugestão, à primeira vista ingênua, continha muito da sabedoria que essa professora, antropóloga, ativista social, feminista, pesquisadora, e "primeira dama por acidente" costumava disseminar. Como dizia Machado de Assis, nada pior que ideia fixa: "Deus te livre, leitor, de uma delas; antes um argueiro, uma trave no olho". E a antropóloga, ao contrário, ensinava a observar, a respeitar a alteridade e as diferenças.

Foi em torno dessa personagem avessa a enquadramentos óbvios, que - como diz a consagrada expressão de Tom Jobim, "não é para principiantes" -, que se reuniram nos dias 9 e 10 de abril, na Universidade de Colúmbia Nova York, uma série de estudiosos. O objetivo era acadêmico: visava a analisar a continuidade entre as pesquisas de Ruth Cardoso e sua prática social, expressa na Comunidade Solidária, mas também nos projetos de combate à pobreza e à exclusão, ou em outros que procuram fortalecer novos atores políticos e parcerias. "Sociedade é lugar de contradições", costumava dizer, ciente da necessidade de se procurar outros mecanismos de representação, além dos tradicionais. "Não que fosse contra o Estado", afirmou o marido, Fernando Henrique Cardoso, também presente ao evento, sentado comportadamente na plateia.

Contrária ao holofote, a antropóloga praticou, nos termos de Leona Forman (da Brazil Foundation), uma verdadeira política de "desruthinização", ao buscar apagar os traços próprios que deixou. Mas o resultado do seminário acabou por provar que, nesse quesito, d. Ruth não foi vitoriosa. O conjunto das mesas apresentou um painel vigoroso, que deixou claro "seu legado", como ostentava o título do encontro. Como ser intelectual, percorrer diferentes campos, sem perder a oportunidade de instituir espaços de diálogo? Como fazer não só antropologia política, mas uma política antropológica que lida com diferenças, mas também dificuldades? Como transformar política em prática? Eis algumas questões presentes no conjunto dos trabalhos.

As diferentes mesas revelaram a importância que Ruth Cardoso deu à noção de "agregar": colegas, posições políticas, pesquisas. Conforme mostrou Teresa Caldeira, em texto que retraçou a obra de Ruth, modernidade é uma atitude e ela foi uma intelectual pública, uma pesquisadora dos problemas sociais e fez das metamorfoses do presente um espaço para reflexão. A primeira sessão foi dedicada ao trabalho da investigadora na periferia de São Paulo, quando, de forma inovadora, a antropóloga vincularia conceitos à primeira vista distantes: política e cultura. Nos anos 70, Ruth, seus discípulos e demais colegas, ampliavam a noção de cultura, introduzindo o conceito de dinâmica social e mudança. Em lugar de uma cultura holística e imune ao tempo, o conceito surgia revigorado, ainda mais quando associado às representações das camadas populares.

Uma sessão inteira foi dedicada a tema que Ruth de alguma maneira introduziu no País e Guita Debert bem sintetizou: "Ela revelou o poder presente nas relações de gênero". Maria Filomena Gregori, quando lembrou do trabalho de orientação, pouco ortodoxo, de Ruth, destacou que "ideias não eram para ela definitivas".

Na mesa sobre trabalho, ficou evidente a coerência entre a intelectual sofisticada e a ativista social pronta para encontrar novas formas de atuação. Simone Coelho e Helena Sampaio mostraram como Ruth trabalhava com diferentes noções de pobreza e de que maneira o conceito de "aprendizado" esteve aliado a suas práticas. A meta, sublinharam elas, era chegar a participações comunitárias e soluções autossustentáveis. O projeto era tão flexível, concluiu Leona Forman, como a compreensão "de que a pobreza não se caracteriza apenas pela privação de necessidades".

Oposta à concepção de um "Estado doador", Ruth Cardoso, mais do que só estudar diferença, "fez diferença". Foi a colega Eunice Durham quem definiu o que seriam as "virtudes de caráter" da amiga de 40 anos de trabalho: "Para nós que andávamos desiludidos com a vida pública, Ruth significou, até mesmo na hora de sua morte, uma esperança".

O fato é que a autonomia pessoal, acadêmica e política praticada pela antropóloga ajudaram a animar esse seminário, que acomodou professores norte-americanos - T. Trebat, A. Fishlow, A. Stepan, Claudio Lomnitz, James Green -; um público interessado, composto sobretudo por alunos da universidade de Colúmbia, e vários colaboradores brasileiros. Ali estavam reunidos, como só Ruth sabia fazer, ex-alunos, como Guita Debert, Esther Hamburger, Maria Filomena Gregori, Teresa Caldeira, Helena Sampaio, Simone Coelho, Célia Sakurai, Ana Cristina Martes; colegas, como Manuela Carneiro da Cunha, Lourdes Sola e Lúcio Kowarick; políticos, como José Serra, e representantes da sociedade civil, como Pedro Moreira Salles e Fiona Forman.

Como disse FHC em depoimento comovente logo na abertura do encontro: "Sou bom para fazer discursos, mas sou mau professor. Já Ruth era grande professora. Democrática, ela tinha um senso antropológico, sempre pensando de baixo para cima". Contam os amigos que Ruth Cardoso não era fácil, sem ser inflexível. Era firme, mas suave, quando discordava, e parecia acatar, quando na verdade batalhava pelas convicções que advogava. Boa de briga, conforme relatou Pedro Moreira Salles, seu colega durante oito anos no trabalho com a Comunidade Solidária, lutava pelo que acreditava, mas "sem perder a ternura jamais". Quem propõe novidades muitas vezes colhe tempestade, e Ruth não escaparia às polêmicas, sobretudo com a mídia. Para quem sempre se definiu como uma cidadã da escola pública de Araraquara, as luzes do lugar que então ocupava podiam ofuscar.

Há quem diga que Ruth sempre soube que "o poder é passageiro"; no entanto, boas ideias e ações ficam, prosperam, e não têm prazo de validade. É certo que engatinhamos nesse terreno, mas nada como uma boa utopia para mirar. "Movimento social", dizia ela, "contagia o Estado." Olhar o pequeno, mas almejar o grande é tarefa para todo dia; longe do lustro e do brilho fáceis.

*Professora titular do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e As Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (Companhia das Letras, 2008)

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