A metástase da mediocridade

Esse mal-estar civilizacional vem da sistemática política de desidratação de utopias que alimenta os tais 'projetos para o País'

CARLOS GUILHERME MOTA É HISTORIADOR, , PROFESSOR EMÉRITO DA FFLCH-USP, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE MACKENZIE. AUTOR DE , EDUCAÇÃO, CONTRAIDEOLOGIA, CULTURA , (ED. GLOBO), O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h07

CARLOS GUILHERME MOTA

O grande historiador Eric Hobsbawm gosta muito de nós, e do Brasil. Em uma de suas obras, porém, menciona São Paulo e a Cidade do México como das mais inabitáveis do planeta. Um amor ambíguo, vê-se, como quase todos os amores. Em outra obra, a conhecida A Era dos Extremos, o historiador "muy amigo" diz que o Brasil é um "monumento à irresponsabilidade social", única referência ao País.

Como discordar? A irresponsabilidade política e ideológica continua a ser uma das marcas do atual debate político-ideológico brasileiro, tanto no Estado como na cidade de São Paulo, urbe em que já floresceram algumas das mais significativas de nossas lideranças, como Franco Montoro e Mário Covas. Vale recordar também que São Paulo ofereceu à Nação figuras como Jânio Quadros, Paulo Maluf e Celso Pitta…

O problema não ocorre apenas neste Estado e nesta capital, pois quanto ao resto do País, o aterrador artigo "As cidades e o sertão", do professor Luiz Werneck Vianna, sobre a nomeação de Aguinaldo Ribeiro (PP) para o Ministério das Cidades, publicado na página 2 do Estado em 14 de fevereiro, dá-nos a medida do buraco em que estamos todos metidos neste infernal "modelo" político de "governo de coalizão". Um modelo, em verdade, fruto do velho coronelismo, enxada e voto, ou atualizando a tese do saudoso Victor Nunes Leal, do mandonismo, curral e mídia eletrônica…

Hoje cresce a irresponsabilidade dos políticos frente aos problemas da cidade de São Paulo, do Estado e do País, um dos traços mais graves de nossa vida em sociedade. De fato, vem ocorrendo um fenômeno novo, sociologicamente detectável, que é a mediocridade das elites dominantes (PT incluído), doença psicossocial cuja metástase vai se tornando incontrolável. Pois o fato é que o tom geral, o colorido da cena política é de uma indefinição que só a mediocridade dos novos e já velhos postulantes à Prefeitura consegue explicar. E dos atuais governantes, inclusive o prefeito Gilberto Kassab e o governador Geraldo Alckmin, que se comportam como se estivessem operando em aldeias do interior no século 19: com muito esforço, alcançarão os padrões da Primeira República, sem diminuirmos aqui as figuras de um Prudente de Morais ou de um Rodrigues Alves…

Se, com método e rigor, Alckmin mediocrizou a máquina do Estado, por seu lado Kassab, um dos beneficiários eleitorais da tal bolha da classe C, esvaziou o conceito de política ao (in)definir que seu partido não é de direita, nem de centro nem de esquerda, nem novo... (Saudades do PFL, em que bem ou mal localizavam-se figuras como os ilustrados professores Marco Maciel e Claudio Lembo, corações jansenistas). Figuras com algum brilho, como Guilherme Afif Domingos, transformam-se em figurantes de teatros sem palco, pilotos sem avião, professores sem aula. Envelhecem apenas, enquanto em Brasília Michel Temer, representante do Marais, estiola-se à sombra da Presidência, sem lançar uma singela ideia para um novo projeto de Nação.

Desidratação. O ex-presidente Lula, por sua vez, desidratou o debate político-ideológico que polarizaria os partidos de esquerda, a começar pelo PT domesticado, ao fazer crer à Nação e suas elites que as lutas de classes desapareceram da realidade, amortecendo os enfrentamentos para a real democratização de um país sem populismos. Mas teve ele o mérito de levantar um nome sério para disputar a Prefeitura paulistana, Fernando Haddad, retirado do bolso do colete. Que não é mau, pois ciente do tamanho do problema nacional: o da Educação.

Os tucanos, com o pouco apetite para a política que sempre demonstraram, aguaram a hipótese de um partido socializante moderno, oferecendo hoje à cena local e nacional um modesto rol de nomes embaçados, provocando as broncas do ex-presidente Fernando Henrique, desiludido, voz solitária nesse segmento de burgueses desencontrados. O bem formado José Serra, com um eleitorado significativo, continua a ser o carismático de si próprio, dividindo sempre a base tucana.

Quanto aos outros partidos, à exceção do ambíguo e pouco socialista PSB, cuja ambição pelo poder inquieta a todos, prepara-se para ser uma alternativa… Questão de tempo? Os partidos mais à esquerda, como o PSOL, crescem pouco nessa sociedade de consumo e espetáculo.

Enquanto isso, a vida econômico-financeira do País corre paralela a esse mundo dos Polichinelos, centrada em seus negócios, com quadros competentes e meio-sorriso de desprezo à galáxia da mediocridade que, sem outra palavra, ainda insiste em se autodenominar de "política". Política, para quem não lembra, foi conceito de alta significação, dos gregos a Churchill, De Gaulle, Mandela…

Para explicar esse mal-estar civilizacional basta-nos constatar a sistemática política de desidratação de utopias usada para alimentar os tais "projetos para o País". A deseducação cresce até nas boas escolas e universidades, sem professores para impor limites ao uso de celulares em plena aula. E sem educação não há que se falar em sociedade civil, nesta anticidade que é a São Paulo atual.

Súditos-contribuintes. O que está em jogo hoje é o futuro desta cidade. Teses e novas ideias sobre ela fervilham, e urbanistas competentes, como Raquel Rolnik, não nos faltam. Nada obstante, os sucessivos ocupantes do Ministério das Cidades se comportam como se nada tivessem a ver com a problemática urbana, "dimensão crucial da vida contemporânea" como advertiu Luiz Werneck Vianna, que diz respeito a todos nós, súditos-contribuintes e ainda não cidadãos.

Só que os candidatos a prefeito não discutem temas, teses, questões nacionais e internacionais (importantes nesta cidade cosmopolita). Programas não são comparados, nem de longe considerados. Evitam-se questões fundamentais, como transporte, saúde, espaços públicos, saúde. Por que não se inspiram na postura de figuras e políticas dos prefeitos de Nova York, São Francisco, Paris, Roma, Londres, Xangai, Tóquio? Esse silêncio é suspeito. Em muitos sentidos. Qual o por quê desse silêncio? Em larga medida, creio, por falta de nível, conhecimento e coragem dos candidatos, e também para não fecharem posições que comprometam mais conciliações espúrias no futuro próximo, sempre negociável.

A falência do atual modelo político se deve, pois, à progressiva deseducação dessa precária sociedade civil, ainda caudatária do padrão civilizacional marcado pelo passado/presente estamental-escravista. Romper com ele é romper com um sistema ideológico ainda marcado pela casa grande & senzala, inclusive nos projetos de condomínios, guetos de apartamentos de "alta classe" para os yuppies do capitalismo selvagem de periferia.

No Brasil, por causa dos mecanismos da Conciliação, que datam de 1850 e perduram nesses odiosos "governos de coalizão", os partidos perderam importância, esvaziados de seus conteúdos propriamente ideológicos, programáticos, civilizatórios. Suas lideranças abriram mão da crítica, da renovação urbana, da resistência à pseudomodernização selvagem, e por isso perdemos o futuro, afundados nesta sociedade de massas deseducadas, em que o espetáculo fica por conta dos Big Brothers Brasil, Datenas e igrejas de massas. O que falta é liderança efetiva, arejada e firme, para articular um projeto nacional moderno. Democrático, mobilizador, confiável.

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