Thomas Mukoya/Reuters
Thomas Mukoya/Reuters

A Michelle Obama chinesa

Peng Liyuan, esposa do novo presidente, uma soprano fotogênica e politizada, desponta na China

PAUL FRENCH, do Foreign Policy,

30 de março de 2013 | 17h50

Chegou o momento da primeira-dama da China? Parece que sim. Peng Liyuan, a senhora Xi Jinping, esposa do novo presidente, adotou rapidamente esse papel como não víamos acontecer há tempos no país. Na verdade, há muito ela é uma pessoa de destaque, com toda a bagagem para ser a Esposa Número 1: uma soprano famosa que canta hinos patrióticos com um alcance de voz capaz de estilhaçar vidros. Suas apresentações regulares nos tradicionais festivais da primavera, transmitidos pela televisão estatal, significam que ela é conhecida em toda a China - seja envergando seu uniforme do Exército de Libertação Popular enfeitado por tranças douradas, seja em um dos seus elaborados vestidos de gala.

Com a ascensão política de Xi, também o perfil de Peng Liyuan cresceu. Ela tem todas as credenciais - é fotogênica, veste-se extremamente bem e defende uma série de boas causas (por exemplo, foi embaixatriz do controle do tabagismo em 2009 e, em 2012, também embaixatriz da luta contra a tuberculose e o HIV para a Organização Mundial da Saúde, iniciativa que tem a ajuda da Fundação Bill e Melinda Gates). Quando recentemente apareceu no alto da escada do avião ao lado de Xi, depois de uma viagem internacional, os fotógrafos admiraram seu elegante casaco preto de abotoadura dupla, o penteado alto bufante e a bolsa suntuosa de couro, que evidentemente não tinha marca (muito importante nestes dias de combate à corrupção, em que políticos chineses são apanhados com caros relógios suíços e luxuosos acessórios de designers europeus).

Evidentemente, isso não ocorre por acaso. Parte do “Time dos Sonhos” da China de Xi é a promoção de uma primeira-dama, algo (a acreditar na blogosfera chinesa) que muitos chineses esperavam depois do fascínio exercido por primeiras-damas estrangeiras, de Michelle Obama a Carla Bruni e Cherie Blair. Alguns continuam fascinados por Jackie O., enquanto, em 1971, Pat Nixon intrigou as chinesas vestindo um casaco escandalosamente vermelho (seus assessores a haviam prevenido de que os chineses associavam o vermelho às prostitutas) ao lado do marido nas visitas às comunas e escolas. Obviamente, Peng Liyuan sabe chamar a atenção também, como quando chegou à Tanzânia em recente visita à África num tailleur cor de pêssego de corte impecável.

No entanto, apesar de observadores da China afirmarem que Peng Liyuan assinala o início de uma nova tendência de primeiras- damas de destaque no país, o fato é que a tradição de primeiras-damas proeminentes e controvertidas na política chinesa vem desde o nascimento da República Chinesa, em 1911. Sempre houve intensas especulações a respeito de quem é a consorte de um líder supremo, ao menos não oficialmente. O sistema imperial da China tinha um ranking rígido e muito bem definido de imperatrizes, consortes e concubinas. É uma longa história: Os Rituais de Zhou, um dos três antigos textos rituais que estão entre os clássicos do confucionismo, publicados aproximadamente no segundo século, sustentavam que um imperador tinha direito a uma imperatriz, três madames, nove concubinas imperiais, 27 mestres shifus (mulheres) e 81 esposas imperiais.

Desde os anos 80, as primeiras damas chinesas têm sido mais vistas do que ouvidas. A esposa de Deng Xiaoping, Zhuo Lin, viajava com frequência ao lado do líder supremo, mas invariavelmente ficava nos bastidores; a esposa de Jiang Zemin, Wang Yeping, foi vista menos ainda, em grande parte por causa de sua saúde frágil; a de Hu Jintao, Liu Yongqing, raramente foi fotografada e quase nunca falou em público. Evidentemente, a China gosta de fofocas como qualquer outro país. Embora a RPC não deva ter tão cedo seu próprio TMZ (o site americano de entretenimento), os boatos a respeito das relações íntimas de Jiang com uma cantora popular conhecida indicaram que os líderes chineses talvez gostassem de atrizes tanto quanto Kennedy.

Não que os líderes supremos não tivessem mulheres inteligentes. A esposa do número 2 de Mao, Zhou En-lai, Deng Yingchao, foi uma força política autônoma, tão sofisticada quanto o marido. Ela compartilhou das vicissitudes dele - ficou escondida no Astor Hotel de Xangai durante o Terror Branco de 1927 - e, posteriormente, presidiu a Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, um Parlamento que se limitava a ratificar a política do Partido Comunista, de 1983 a 1988. Mas a tendência que se impôs depois dos anos maoistas foi a de relegar as mulheres aos bastidores.

Hua Guofeng, sucessor designado por Mao, foi casado com Han Zhijiun, que era menos proeminente, mas ficou conhecida como a mãe de quatro filhos, apaixonada por jardinagem. A esposa de Zhao Ziyang, o secretário-geral popular e reformista do Partido Comunista afastado em 1989 por apoiar os estudantes na Praça Tienanmen, o acompanhou no exílio interno até o fim. Era uma excelente jogadora de xadrez e em geral derrotava o marido, segundo os diários secretos de Zhao vazados para a imprensa em 2009, após sua morte.

Antes de Mao, é claro, houve Chiang Kai-she, e Soong Mei-Ling, a sra. Chiang, uma das grandes primeiras-damas do século 20, que estudou nos EUA e pertencia a uma família rica e privilegiada. Ela apareceu na capa da Time não menos que três vezes (Jackie Kennedy estrelou a capa 17 vezes, mas nenhuma outra primeira-dama estrangeira conseguiu tal façanha). A Sra. Chiang tinha evidentemente a capacidade de cativar - tanto Roosevelt quanto Churchill caíram por seu charme na Conferência do Cairo em 1943, onde, segundo o historiador e biógrafo de Chiang, Jonathan Fenby, ela os seduziu do outro lado da mesa. Ela foi o rosto verdadeiramente público da China durante a guerra sino-japonesa. Servia de intérprete ao marido nas reuniões com os correspondentes estrangeiros e foi uma das mulheres mais distinta e elegantes do mundo. Mesmo depois do exílio em Taiwan, seguido por uma existência anônima em Nova York até os 106 anos, a Sra. Chiang foi assunto constante da imprensa sensacionalista.

Soong Ching-ling (a irmã mais velha da Sra. Chiang) continuou sendo uma figura visível na China como esposa de Sun Yat-sen, o revolucionário chinês, primeiro presidente e um dos fundadores da República da China. O casamento foi controvertido: ela provocou escândalo ao fugir da casa da família para ficar com Sun, muito mais velho do que a esposa, no Japão, onde ela conspirou em favor da revolução republicana chinesa. Sun morreu em 1925, mas Madame Sun se manteve ativa e é reverenciada até hoje por ter rompido com a fidelidade da família aos nacionalistas e apoiar os comunistas.

Portanto, com uma primeira-dama proeminente e sofisticada, acaso Xi inaugurará a versão de Camelot em Pequim? Provavelmente não.

Princesas e artistas nem sempre acabam bem na China - como foi o caso da primeira-dama mais famosa até este momento, Jiang Qing, a Sra. Mao. Ex-atriz principiante dos estúdios cinematográficos de Xangai, Jiang e seu relacionamento com Mao provocaram certo ceticismo nos dias de Yan’an, quando os adeptos do Partido Comunista se escondiam na oposição. (Eram na maior parte homens e de certo modo mostravam-se puritanos a respeito da relação de Mao com uma mulher pertencente ao mundo deslumbrante do entretenimento de Xangai, denunciando-a como figura decadente e burguesa.) Sua última encarnação na Revolução Cultural e depois na Gangue dos Quatro da esquerda ultrarradical, que foram expurgados e acusados de crimes de traição, serviu para afastar por um bom tempo as esposas dos líderes do trono de Mao.

Camelot ou não, a mídia ocidental continuará a observar de perto Peng Liyuan - e, mais especificamente, suas escolhas em matéria de trajes. Em 1900, o jornal Pittsburgh Press noticiou a chegada aos EUA de Li Hongzhang , o estadista chinês mais famoso internacionalmente nos últimos anos da Dinastia Qing e líder do Movimento de Auto-Fortalecimento da China. O Press disse que a Sra. Li “... é uma das mulheres chinesas mais invejadas... considerada uma das figuras mais representativas da moda... com uma enorme quantidade de brilhantes vestidos negros que ela adora usar...” A Sra. Xi poderá esperar um tratamento semelhante.

Em seu país, Peng e seus acessórios já estão se tornando motivo de obsessão pelos viciados em internet da China - a frase “Peng Liyuan e sua bolsa” foi buscada no portal popular Taobao mais de 8 milhões de vezes desde a noite de segunda-feira, mas os principais resultados foram deletados pela censura. Na realidade, depois disso toda busca no Google de “Peng Liyuan” passou a ser bloqueada. Uma coisa que Peng não deverá esperar: um agradecimento do marido. Raramente, senão nunca, os líderes políticos da China obedecem aos clichês ocidentais de agradecer em público às esposas ou famílias (ou a Deus) pelo sucesso. No léxico de Pequim, o partido é mãe, amante e poder onipotente. O povo chinês às vezes recebe um aceno de cabeça como agradecimento, mas alguma alusão à vida familiar seria impensável para um político chinês. E a Sra. Xi também não deve esperar que permitam que ela fale muito, apesar de sua celebridade. Os dias em que as Madames Sun e Chiang sentavam ao lado dos respectivos maridos e conversavam com os jornalistas estrangeiros não voltarão, principalmente porque, hoje, os líderes chineses não concedem entrevistas à imprensa estrangeira.

Mas talvez a situação seja diferente para a Sra. Xi: ela é confiante e conhece a imprensa, como testemunhou sua proximidade com o marido nas fotos oficiais, é ponderada e muito preparada. Ela ainda não falou publicamente - talvez jamais o faça -, mas sua imagem proeminente indica que Peng se parecerá mais com as Sras. Sun e Chiang do que com suas antecessoras imediatas. Talvez este seja o primeiro governo chinês, desde 1949, que controla e explora com sucesso o potencial de poder suave de uma primeira-dama.

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