Myspace Indrani Pal-Chaudhuri
Myspace Indrani Pal-Chaudhuri

A modelo das garotas esquecidas

Ex-manequim, fotógrafa de sucesso, Indrani fez de seu palácio na Índia uma escola e luta para dar algum futuro a meninas pobres

Abigail Pesta - THE DAILY BEAST, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h08

Ela cresceu num palácio antigo e arruinado na Índia, com arbustos brotando em muitos dos seus 300 cômodos. Depois, tornou-se modelo adolescente, viajando o mundo de Tóquio a Milão. Então obteve um diploma em Princeton. Ao longo do caminho, conheceu um homem mais velho e bonito, apaixonou-se - e se tornou fotógrafa de moda e sócia do amante, fazendo imagens estilizadas de celebridades como Beyoncé, Lady Gaga e Katie Holmes.

Soa como enredo de ficção, mas essa é a vida de Indrani Pal-Chaudhuri. Hoje ela mora em Nova York, onde trabalha com fotografia e cinema. Mas diz que seu coração continua na Índia.

Um dia Indrani decidiu aproveitar melhor seu antigo lar palaciano, enchendo-o de crianças. Em 1994, transformou a mansão da família numa escola para crianças pobres, usando seus ganhos como modelo para financiar o projeto. A escola, chamada Shakti Empowerment Education, recebe atualmente cerca de 300 meninos e meninas de Bengala Ocidental, enfatizando os direitos das meninas. "Existe na Índia um problema difícil e profundo - a desvalorização generalizada das mulheres", diz ela, destacando que as meninas são muitas vezes abandonadas ao nascer, envolvidas em casamentos infantis ou vendidas como escravas sexuais.

Atacar o problema tornou-se um desafio na vida de Indrani. Nesse caminho, ela produziu recentemente um filme chamado The Girl Epidemic, pintando um futuro no qual as meninas são tratadas como doença infecciosa. Rodado nas favelas de Mumbai, o filme foi criado pela agência nova-iorquina de publicidade Strawberry Frog, que o produziu para a organização sem fins lucrativos Projeto Nanhi Kali, voltada para conscientizar o público do sofrimento das meninas indianas. "Criamos uma metáfora", diz Indrani no filme, que mostra homens de máscara branca arrancando meninas de seus lares. "A situação real é muito mais diabólica."

Indrani, que hoje usa apenas o primeiro nome, diz que deixou sua cidade natal, Ranaghat, ao norte de Calcutá, aos 7 anos, quando os pais, ambos contadores, mudaram-se para Londres e depois para Toronto, em meio a violentos levantes maoistas. Ela se lembra dos primeiros anos na Índia "como um paraíso", cheio de amigos de todo tipo. O pai, Ajay Pal-Chaudhuri, veio de uma família rica e histórica de mercadores indianos; a mãe, Greta, é britânica. O lar da família, conhecido como Casa Pal-Chaudhuri, foi construído há mais de 250 anos por um lendário ancestral chamado Krishna Panti, que começou como mendigo e se tornou mercador de sucesso, tornando-se conhecido por construir hospitais e escolas para caridade.

Indrani viu também um lado diferente da Índia quando era menina - a devastadora pobreza que tanto contrastava com sua própria infância. "Muitas pessoas não tinham água em seus lares", diz ela. "Casas eram construídas sobre imensos lixões. As pessoas despendiam esforços imensos apenas para terem água ou coisas básicas que consideramos garantidas." Essas imagens ficaram com ela, incomodando-a, pedindo-lhe que um dia voltasse para ajudar.

Sua nova vida no Ocidente exigiu grandes ajustes. "Tive muita dificuldade para deixar a Índia, deixar minha família", diz ela a respeito da mudança feita na infância. "Minha família completa era imensa, com centenas de pessoas. Meus pais deixaram tudo para trás", acrescenta ela, destacando que passaram dificuldades financeiras em seu novo mundo. A experiência de serem imigrantes foi um forte choque. Indrani se lembra das crianças na escola canadense que agiam como se ela tivesse vindo de Marte, por sua aparência e jeito de falar diferentes. "Pensaram que eu fosse uma alienígena", diz. "Eu era muito nerd."

Nem todos concordaram com essa avaliação. Quando Indrani foi a uma entrevista para obter um estágio num estúdio fotográfico de Toronto, os fotógrafos decidiram que o lugar dela era diante das câmeras, não atrás. Recomendaram que tentasse a carreira de modelo. Indrani assinou contrato com uma agência e, aos 14 anos, viu-se participando de ensaios em todo o mundo para revistas como Glamour e Elle, e de campanhas para empresas como Benetton e Nescafé.

Seria fácil perder a cabeça. Mas, "felizmente, eu era extremamente insegura", ri Indrani. "Não acreditava em nada daquilo", diz, referindo-se às pessoas que a cobriam de elogios e cumprimentos. Ela diz que "perdia tempo com festas" em meio aos "extremos do mundo da moda", mas se sentia fortemente atraída por uma vida diferente - de volta ao lar, na Índia. "Sempre tive essa perspectiva, essa meta", afirma. "Queria voltar. Tinha uma casa imensa, um lar ancestral que estava praticamente vazio. Eu era muito consciente do desperdício, algo muito típico da Índia: os ricos vivem na extravagância enquanto os pobres têm pouquíssimo. Voltar e fazer algo a respeito sempre foi meu sonho, e o sonho do meu pai."

Quando completou 18 anos ela cumpriu a promessa feita a si mesma, voltando à Índia. Viajou pelo país durante seis meses, tirando fotos e parando em centros espirituais, onde passava o tempo em meditação silenciosa. "Procurava um propósito mais profundo para minha existência", diz ela. Foi então que descobriu o que fazer da mansão familiar. Com a renda que obteve com o trabalho de modelo e com a ajuda do pai, ela abriu sua escola para crianças pobres em 1994, trazendo para a sala de aula crianças que trabalhavam nos campos e nas fábricas. O pai ficou na Índia para administrar o funcionamento diário da escola. "Foi isso que manteve meus pés no chão", diz ela, que prosseguiu na carreira de modelo. "Eu tinha centenas de crianças para cuidar."

Num ensaio fotográfico feito em Nova York naquele mesmo ano, ela conheceu Markus Klinko, o homem que levaria sua vida numa nova direção. Harpista clássico suíço, na época com pouco mais de 30 anos, ele tinha decidido se tornar fotógrafo na semana anterior, diz Indrani. "Ele nunca tinha fotografado antes, mas era uma pessoa muito confiante." Os dois começaram um relacionamento amoroso e também uma parceria de trabalho em Nova York, tirando fotos juntos "para algumas revistinhas aqui e ali", diz ela.

Indrani se lembra de os pais terem pensando que tudo não passava de fase. "Eles queriam que eu me tornasse contadora", brinca. "Mas me apoiaram. São pessoas muito criativas, e também gostavam de se aventurar."

Em 1996, ela começou a frequentar a Universidade Princeton, buscando um diploma em antropologia, ao mesmo tempo que expandia seu trabalho fotográfico com Klinko em Nova York. Formou-se em 2001.

Seu primeiro grande sucesso na fotografia ocorreu quando a editora britânica de moda Isabella Blow pediu a ela e ao parceiro que fizessem um ensaio para a revista do Sunday Times. Depois disso, David Bowie pediu a eles que fizessem as fotos para a capa do álbum Heathen. A modelo somali Iman veio em seguida, pedindo a eles que fizessem fotos para a capa de seu livro I Am Iman. Seguiram-se capas para os álbuns de Beyoncé, Mary J. Blige e Mariah Carey. A dupla de fotógrafos fez desde então imagens de muitas celebridades - Kim Kardashian, Kate Winslet, Anne Hathaway - para revistas como Vanity Fair e Vogue, bem como campanhas publicitárias para marcas como Elizabeth Arden e L'Oréal Paris.

Indrani e Klinko não estão mais envolvidos num relacionamento amoroso, embora ainda trabalhem juntos como a dupla de fotógrafos conhecida como Markus + Indrani. Em 2009 suas vidas e seu trabalho foram o foco de um reality show da Bravo chamado Double Exposure.

Indrani admite que foi difícil a transição de amantes para amigos - os dois formaram um casal durante oito anos -, mas diz que agora eles se entendem "como nunca antes". E acrescenta: "Ainda brigamos um pouco, mas isso faz parte do nosso processo criativo. Nunca deixamos de trabalhar juntos por 20 horas diárias. O trabalho é quase como se fosse nosso filho e tomou conta de nossas vidas de todas as maneiras concebíveis. Foi uma transição natural. Nunca é fácil, mas hoje estamos mais próximos que nunca".

Quando Indrani conheceu Lindsay Lohan num ensaio fotográfico em 2009, a fábrica de rumores dos tabloides começou a funcionar, alegando que as duas estariam envolvidas num caso. "Acho que as pessoas se empolgaram demais na imaginação", diz Indrani, descrevendo a fofoca como "bobagem histérica da mídia".

Atualmente ela está concentrada na produção de comerciais e filmes, dirigindo recentemente um curta-metragem intitulado Legend of Lady White Snake, estrelado pela socialite Daphne Guinness. Em outubro, um livro de fotos dela chamado Icons chegará às prateleiras. Indrani visita sua escola na Índia todos os anos e continua a financiar seu funcionamento com a própria renda, recebendo também doações. Ela também trabalhou em campanhas de defesa dos direitos humanos com organizações como as Nações Unidas e a Keep a Child Alive, grupo de caridade administrado pela cantora Alicia Keys e dedicado ao combate à aids na África e na Índia.

"É essa minha inspiração", diz ela sobre seu ativismo. Quando volta para sua casa-escola na Índia, as crianças se aproximam timidamente para cumprimentá-la. "Não estão acostumadas com estrangeiros", explica. "A maioria dos alunos daqui é formada pelas primeiras crianças a serem alfabetizadas em suas famílias, as primeiras a receberem algum tipo de ensino. Nossa meta é ajudá-las a enxergar além dos limites do cotidiano - e trazer mudanças ao seu mundo." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

 

* ABIGAIL PESTA - Ex-Marie Claire, The Wall Street Journal e Glamour; é editora de Women in the World, de The Daily Beast

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