Reprodução
Reprodução

A musa da inconsciência

Ela penetra na pele, embriaga, escorre toda, fêmea dourada, prata, rosa, roxa. Mas escapar da realidade tem seu custo: sobre o corpo, que deteriora, e sobre a alma, que adoece

Maria Lucia Homem, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 16h00

Au au au

Lombadinha é animal

E virava um shot

Au au au

Lombadinha é animal

Virava outro shot

Au au au

Lombadinha é animal

E mais um

E outro

Um outro mais


Aquele som penetrando doce na pele, no fígado, nos neurônios, no coração. A leve inconsciência chegando, discreta. Aura embriagada a afogar a razão, devagar, como se afundasse um bebê recém-nascido e frágil na pia cheia de água. Tudo era turvo, um pouco zonzo. Aquele era o momento. Animal. A melodia se replicava infinitamente. Animal, cara. Você é animal. Você é o cara. 


Os braços erguidos. Alto, forte, o brado retumbante. U-hu. Você é definitivamente foda. Animal. Ouviu? Animal! Todo mundo tá escutando. Tá todo mundo escutando bem? Filma, cara. Filma. Registra. Queria ver depois, queria gozar dessa imagem, com essa imagem, para essa imagem, no altar da qual se sacrifica.


Au au au 

Lombadinha é animal

A melodia da louvação te acompanha. Canto da sereia.



Vem doce melado, vem. A musa da inconsciência embriaga, penetra na pele, escorre toda, vem fêmea dourada e prata e rosa e roxa, vem, invade. Penetra essa sensação de flutuação morna. A menina olha para você. Aquela menina linda olha e é para você que está olhando, se insinuando. Você se apruma, se eleva. Todos os sentidos se misturam. O corpo trôpego vagueia. Paira, segue no seu tapete voador e vira mais um shot. Gênio da lâmpada. Mais um. Gênio. Herói. Super-herói. 


Supertudo. Superalgo.


Animal. É sua marca, sua cara, sua insígnia. A identidade a duras penas construída nesse mundo de meu deus, em que todos lutamos e nos embrenhamos para desenhar um personagem mais marcante que o do outro. Por que não? A grande competição, a maior de todas. O pobre indivíduo que tem que encontrar uma identidade e um currículo vendáveis no universo. Ser o máximo e poder peitar - louca e obedientemente - o mergulho nesse mel. Doce mal. Deixar-se invadir pela deusa de olhos brilhantes que navega em cada gota de álcool.


Houve o chamado. E ele continha a verdade. A profunda verdade do que move e faz fazer, do que impulsiona o corpo à ação. 


“Atenção, repúblicas. Preparem-se para a glória.” 


Estava preparado, seguia o chamado. É a glória. Ela veio, se instalou, colocou sua mão quente sobre a pele e o acariciou. Lascivamente. Lasciva e cruel. Prepare-se para a glória. A glória reina soberana no mundo imaginário dos humanos. Ela é, ela está; te espera. E vai ser tua, toda tua. Nua. Você é macho. Você é macho pra caralho. 


“A maior competição InterReps voltou.” 


O anúncio circula entre todos, entre as centenas de corpos plenos de hormônio e ânsia de construir seu lugar ao sol. Cavar um espaço, um emprego, uma casa. Esse o projeto macro, afinal. Não é para isso que estamos aqui? A conquista de um lugar na vida, uma posição de destaque - não é assim que se diz? Penetrar no cada vez mais enigmático e competitivo mercado. Mercado de trabalho, mercado social, mercado sexual, mercado de tudo.


Todas as mentes sabiam perfeitamente bem disso e falavam baixinho, em segredo: eu vou vencer. 


Pois que a data se aproxima. Quarto ano da faculdade. O mundo real está cada vez mais perto, muito perto. O monstro engolidor de gente, de gentes, de rotinas, de processos. O mercado da vida. É agora, a hora da verdade. Você tem um trabalho? Você é trainee? Mil candidatos por vaga, de todo o Brasil. Você é macho? Você consegue? Ah, que aperto em algum lugar. Minha cabeça explode. Meu corpo oscila. Aperto, afogamento, sufocamento. Juventude transviada e angustiada, pressionada. A festa está acabando. Agora vem a vida dura, real e escrota. A festa se esgota. A infância prolongada, prolongadíssima, se esgota. 


“10h de open bar.” 


Me dá mais um tempo. Mais uma dose. Mais uma balada, por favor, que daqui a pouco, muito pouco, o jogo sério vai começar. Bebe. Bebe. Virar adulto é foda. Bebe. Bebe até cair.


Não precisa ser em sã consciência. Mas precisa entrar no jogo. Não tem saída, não tem escolha, não tem jeito. Não tem um outro jeito a ser inventado.


“Sua rep vai ficar de fora?”


Jamais. Fora é um lugar que não nos foi dado. Sou homem. Sou macho. Sou adulto. Sendo homem ou mulher, sou macho. E vou vencer. Self made and winner man. 


Looser, jamais. Derrotado é nomeação que te tira do jogo.


Vitória. O paradigma da superioridade reina incólume, absoluto, inquestionável. Entre todos os seres, é ela a guia. A vitória, eu te desejo. Embriagava essa ideia, doce melodia ao fundo de tudo: We are the Champions. Música de ninar.


A festa, a comemoração. Quando um pacto é fechado, uma conquista é alcançada, o humano instaura um momento de pausa e se permite afrouxar seus elos com a vigília contínua. A festa é figura arquetípica, cena ancestral a se repetir para sempre. O álcool rega o encontro com o outro, alteridade que a priori é inimiga, hostil. A dialética do senhor e do escravo na eterna luta das consciências. Mas não precisamos de Hegel para saber que um encontro com o outro humano, por mínimo que seja, é embate. Um pacto, um nascimento, um casamento, um negócio fechado - qualquer vitória merece um brinde. Qualquer derrota.


Mas aqui era de vitória que se tratava. Vitória sobre o mundo, o outro, o cru da vida. Melhor morrer de vodca que de tédio. O tédio do mundo, da burrice do mundo. Um homem inteligente às vezes precisa ficar bêbado para passar um tempo com os idiotas. Antes uma garrafa na minha frente que uma lobotomia frontal. Maiakovski. Hemingway. Dorothy Parker e muitos outros a construir a louvação. O álcool e o discurso caminham juntos, se retroalimentam. A magia da linguagem é soberana: o momento em que a frase perfeita fascina a mente e faz o corpo agir. Afinal, o simbólico molda o comportamento humano. 


Não era só entre a poesia da letra e da literatura que vinha a sedução de um fazer. Havia a imagem. Imaginário e simbólico inextricavelmente conjugados ao real, forjando sentidos e direções. O herói, ao mesmo tempo potente e melancólico, está encostado ao piano com seu cigarro e seu copo de bebida. “Play it again, Sam.” O cenário majoritário de um dos filmes mais emblemáticos da história do cinema é um bar. E o ator lança seu charme: durante as gravações, tudo o que comi foi feijão, aspargos e scotch. Dentro e fora do filme quase tudo se resume a uma construção imagética, performática e idealizada. 


Sim, sabemos: a imagem é poderosa, insidiosa, sedutora. Ela fica colada na mente. O herói da resistência, o chefe da cidade, o caubói, o poderoso chefão, o medíocre chefinho. Pouco importa. O lugar imaginário do sujeito é sempre o da superioridade. Como cifrar essa deliciosa verdade? O copo e o cigarro: a imagem gruda. O inconsciente sabe disso. A publicidade sabe disso. O animal não sabia disso. 


Algo do animal humano insiste em não saber. Insiste em se alojar na inconsciência como forma primária de defesa contra a angústia. Porque dói. Simples assim.


É justamente aí, nesse ponto, que a rede se mantém à espreita. A máquina não dorme jamais. Produção 24h. Como escoar? Goela abaixo da molecada, da molecada de 10 a 90 anos. Depois de décadas de jogo sujo, disputado a tapa (e a milhões), a indústria do cigarro ficou cercada. Ainda se vira muito bem, contratando meninas e meninos bonitos para oferecer cigarro e glamourizar a cena decaída do fumo nas baladas de todo o Brasil. Mesmo expediente utilizado pela indústria da bebida. Que, além desses estratagemas e camarotes, ainda faz propaganda legalizada, usando corpos reais e photoshopados de gente bonita, sobretudo mulher gostosa (lugar, aliás, do qual a pobre mulher não se livra). E agora, no 21, a indústria de bebida reina soberana. Não é o business do homem mais rico do país? Não é o business de vários dos homens mais ricos do país?


A indústria patrocina. O patrão paga para o empregado se escravizar. Pega dois ou três moleques para ajudar a organizar. Organização meia-boca. A logística é frágil. A molecada é caótica, é louca mesmo. Nem sabe o que faz. Assim quer pensar o mundo adulto ou assim é formatada a juventude ensinada sobretudo a gozar. Eles só sabem desejar o entretenimento, bem-educados que foram. Pobres garotos, não sabem o que fazem.


Ah, mas a indústria sabe muito bem. Ela sustenta o auge do saber e da racionalidade técnica contemporânea com sua “inteligência de mercado”. Gasta milhões em pesquisa, marketing e logística para saber muito bem como plantar o líquido mágico na sua mente e na sua garganta. Direto e reto. Sem pestanejar. Quando você viu e entendeu, ops, já está lá dentro, pulsando. Corre nos seus pulsos, louco, sedento. Meninos e meninas afim, achando a coisa mais divertida do mundo chapar a mente. A mais necessária. 


Como enfrentar a dura realidade? Realidade? Como assim? Estou perdido. Justo eu, bebê protegido e aplaudido desde quando era um bebê de carne e osso.


Bebe. Bebe. Eu pago. Eu glamourizo. Trabalho a imagem, racionalizo os processos. Patrocino. Sou seu novo pai, seu guia. Novos e velhos deuses, tanto faz. Não nos livramos deles mesmo. Queremos a todo custo seguir o outro que diz o que fazer. Visto a camisa, literalmente. Dessa vez visto a camisa da marca. A Marca. Sacrossanta e soberana. Morro com ela, morro por ela. Deus, te amo e te sigo. O caminho, a verdade, a vida. 


Essa a história. Trágica, sem dúvida. E emblemática de vários vetores estruturais da nossa cultura. O poder de tudo o que nos faz, real ou imaginariamente, transcender a realidade, como as drogas e os deuses (e de como somos formigas servas diante disso). O fascínio com que nos entregamos à imagem idealizada de nós mesmos perante o grupo, e nos abandonamos ao embalo do cântico de louvação do pobre Eu. A força de determinada indústria (na verdade, de qualquer indústria) sobre a mente grupal e a mente do indivíduo. O pacto poderoso e profundo entre a indústria cultural, com suas frases, sons e imagens, e a indústria dos aditivos, legais ou ilegais. O que, em última instância e em termos psíquicos, dá no mesmo. Álcool legalizado, maconha não. Por quê? Jogos de interesse e significação em seus braços de ferro. Como sempre, a eterna dança das circunstâncias históricas, simbólicas e políticas que regem o sim e o não.


Enfim, aqui se conjugam várias das faces do mal-estar da civilização. Diz Freud no canônico texto que carrega esse título: “O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício que tanto indivíduos quanto povos lhe concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio desse ‘amortecedor de preocupações’, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar um refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade. Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos”. 


Escapar da realidade e da consciência tem seu custo. Sobre o corpo - que deteriora -, sobre a alma - que adoece. Quase cem anos depois não sei se avançamos muito no saber disso e, mesmo que milimetricamente, na criação de canais mais interessantes e vivos para o deslocamento da complexa rede da economia libidinal. Para além da economia clássica, financista, política, o que seja, há que se mergulhar na construção cada vez mais rigorosa de formas de análise e pensamento que possam elucidar algo da intrincada economia psíquica. Afinal, a libido move o mundo. E o destrói.


MARIA LUCIA HOMEM É PSICANALISTA, PESQUISADORA NO NÚCLEO DIVERSITAS/USP E PROFESSORA DA FAAP. AUTORA DE NO LIMIAR DO SILÊNCIO E DA LETRA (BOITEMPO)

Mais conteúdo sobre:
Aliás

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.