A música triunfante da América

O jazz, assim definido por Martin Luther King, deverá ser a trilha sonora do novo governo dos Estados Unidos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 22h26

Aretha Franklin, Etta James (foi ela quem compôs At Last, a melô da primeira dança do casal Obama na Casa Branca), Wynton Marsalis - a cerimônia de posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos foi também uma celebração da música negra americana. Nada mais adequado. Nada mais oportuno. Nada mais justo. Jazz, para valer, só na véspera, por conta de Marsalis, que no mais distinto templo jazzístico do país, não por acaso batizado com o nome de Lincoln, comemorou o aniversário de Martin Luther King com uma Celebration of America. De todo modo, a mais rica e genuína forma musical criada pelos americanos, "a música triufante da América", na definição de Luther King, deverá estar sempre presente nas festas e recepções do governo Obama, prometeu a primeira-dama. O novo presidente não toca saxofone, como Bill Clinton, mas adora John Coltrane, um dos hits do seu iPod, e sabe o quanto o jazz foi importante para a luta contra o racismo e a afirmação dos negros na sociedade americana. Por muitos anos, músicos brancos e negros de qualquer gênero não puderam tocar juntos em público. A "legislação Jim Crow", que institucionalizou um apartheid no país, a partir de 1896, proibia a miscigenação até em estúdios de gravação. Nos estados do sul, onde o preconceito racial não disfarçava seus impulsos homicidas, os músicos negros que por lá excursionavam tinham de hospedar-se nos bairros reservados aos negros e só em seus restaurantes podiam comer.Louis Armstrong foi um dos primeiros a afrontar o apartheid, juntando-se, na calada da noite, ao branco Bix Beiderbecke na Chicago dos anos 1920, mais ou menos na mesma época em que Jelly Roll Morton ousou gravar com uma banda só de brancos, em Richmond (Indiana), e um pouco antes de Coleman Hawkins fazer um disco com os caucasianos Eddie Condon e Red McKenzie. Embora negros e brancos já de algum tempo se misturassem nos shows do Café Society, de Nova York, e no Savoy Café, de Boston, causou escândalo nacional a incorporação do pianista Teddy Wilson e do vibrafonista Lionel Hampton à trupe de Benny Goodman, em 1936. Goodman não se abalou, e continuou miscigenando. Seu contemporâneo Artie Shaw fez o mesmo, contratando para sua banda Billie Holiday e o trompetista Roy Eldridge, que também brilhou como parceiro do baterista branco Gene Krupa. Foi, em parte, para combater o segregacionismo que outro cruzado branco na luta contra o racismo, Norman Granz, criou os concertos itinerantes conhecidos pelo nome de Jazz at the Philharmonic. Sempre concorridos, pois afinal reuniam a fina flor do jazz, os concertos permitiram a Granz enfrentar sem titubeio qualquer tipo de pressão discriminatória. Não admitia separações raciais no auditório e exigia que placas com as palavras "nigger" ou "whites only" fossem recolhidas antes da chegada de seus músicos. Para evitar constrangimentos na venda de ingressos, trazia o seu próprio bilheteiro. Numa apresentação em Houston (Texas), chamou às falas alguns espectadores que se recusavam a sentar ao lado de negros: "Ou ficam no lugar que lhes foi reservado ou peguem o seu dinheiro e voltem para casa".Dependendo do lugar e das circunstâncias, a popularidade nada servia. Nat King Cole, um dos mais festejados cantores de todos os tempos, sofreu pelo menos três agressões racistas no auge de sua carreira. Teve o gramado de sua casa, em Los Angeles, marcado a fogo com a palavra "nigger", apanhou de membros do White Citizens Council, durante um concerto em Birmingham (Alabama), e perdeu uma série de programas de TV porque seus patrocinadores, ameaçados de boicote por uma organização racista, puseram o rabo entre as pernas e romperam o contrato.Em 1939, a contralto Marian Anderson foi probida de cantar no Constitutional Hall, em Washington, pelas donas do pedaço, as mal-amadas Daughters of the American Revolution. O troco viria 24 anos mais tarde, quando Mahalia Jackson embalou com I''ve Been Buked and I?ve Scorned a marcha pelos direitos civis até Washington, liderada por Luther King. Aliás, foi a grande dama do spiritual quem estimulou o pastor a tornar público o seu sonho de uma América sem divisões raciais. "Tell them about your dream, Martin!", teria dito Jackson. São muitas as histórias da longa e brava luta do jazz contra o racismo. Dispersas até recentemente em livros e biografias, ganharam agora um estudo à altura: The Triumph of Music, de Tim Blanning, editado pela Harvard University Press. Sim, a música acabou triunfando. E na trilha sonora de sua vitória cabem pelo menos quatro grandes destaques: a histórica gravação de Billie Holiday de Strange Fruit (sobre o linchamento de dois negros); a Freedom Suite, de Sonny Rollins; o tema (Alabama) que Coltrane compôs inspirado num atentado a bomba a uma igreja do Alabama, em que morreram várias crianças negras; e Freedom Now Suite, de Max Roach, principal atração de um álbum de 1960, já no título (I insist!) engajado na campanha dos direitos civis.Entre 1934 e 1936, Duke Ellington e sua magistral orquestra rodaram o interior dos Estados Unidos, driblando de todas as maneiras a legislação Jim Crow. Viajavam num Pullman, com luz própria, comida e banheiros, acompanhado de um enorme bagageiro, que estacionavam quase sempre nas proximidades de um posto de gasolina. Sentiam-se, assim, mais independentes. Volta e meia, algum passante, fascinado com o tamanho e o conforto do Pullman, perguntava: "O que é isso?" Ellington, com um sorriso meio moleque, respondia: "Bem, é assim que os presidentes viajam".Se dissesse isso hoje, todos talvez acreditassem.

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