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'A Náusea', romance filosófico de Jean-Paul Sartre, é reeditado no Brasil

Livro alçou o filósofo francês ao estrelato quando foi publicado, às vésperas da 2.ª Guerra Mundial

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2019 | 16h00

Jean-Paul Sartre publicou A Náusea na véspera da guerra, em 1938. Ele tinha 34 anos. Precisou travar uma batalha para o editor manter seu manuscrito. Ele insiste. Ele negocia. A Gallimard impõe correções, que extrair cinquenta páginas “sexuais” demais. Sartre queria chamar seu romance Melancolia. A Gallimard prefere A Náusea.

Sua vida muda. Até então, Sartre era um desconhecido. Ele tinha sido um estudante irreverente, brilhante e adorado por seus companheiros por seu inconformismo, seu gosto pela farsa. Em seguida ensinou filosofia em uma escola secundária em Le Havre. Seus alunos o amavam porque ele chegava ao curso com a camisa aberta, o que era, nessa época burguesa, um sacrilégio. Suas aulas eram bizarras, subversivas, engraçadas e não convencionais. Notáveis. Os inspetores franziram a testa, mas como punir um mestre brilhante e adorado por seus alunos?

É esse professor desconhecido que publica A Náusea em 1938. O livro muda seu status. Ele encontra leitores. Os críticos estão divididos: alguns enojados e sem entender coisa alguma. Outros estão entusiasmados. Tudo isso faz barulho. Em poucos meses, Sartre sai da sombra para a luz. Ele está no caminho da fama, mas esperará alguns anos porque a guerra estoura em 1939 e dura até 1945.

Sartre não é um formidável soldado: ele faz parte do “serviço meteorológico”. Ele passará sua guerra auscultando os céus e as noites desses céus. Aproveita seus longos períodos de lazer para escrever à sua amiga Simone de Beauvoir, ler centenas de livros, escrever uma peça, As Moscas, que será apresentada em Paris sob a ocupação nazista, e compor uma enorme obra filosófica, O Ser e o Nada

A filosofia exala de tudo o que ele fez: na École Normale Supérieure, ele estava preparando a agregação da filosofia na escola secundária de Le Havre, onde ensinou filosofia, e eis a filosofia novamente em sua peça, As Moscas, e é claro, em seu tratado O Ser e o Nada. Mesmo seu primeiro romance, A Náusea, é um romance filosófico. Ele orquestra a teoria filosófica que defenderá toda a sua vida, o existencialismo.

Para alguns, inclusive para mim, mesmo que esse romance seja talentoso, a dose de filosofia é pesada. Um romancista não deve explicar nada. Ele conta uma história, ele mostra personagens, dramas, mas em caso algum ele deve explicar a filosofia de seu trabalho. Um verdadeiro romancista, a propósito, não sabe ele mesmo o significado do que está dizendo. Em todo caso, não há um único sentido filosófico. Em um romance, mas também em cada um dos personagens que participam do bordado, uma série de sentidos se entrelaçam, contradizem-se, perdem-se, iluminam-se, permanecem enigmas com pedaços da noite.

Alguns marcos, no entanto: o livro se passa em uma cidade que Sartre chama de Bouville e que, na realidade, é Le Havre. Lá há um homem. Seu nome é Roquentin. É ele quem fala. Ele narra o que lhe acontece, dia após dia e, ao mesmo tempo, expõe a filosofia que emerge de todos esses eventos díspares e condenados ao nada, como qualquer acontecimento. Roquentin caminha aleatoriamente, em Bouvillle, o tempo passa sem deixar vestígios. Olha um seixo, a raiz de uma árvore, pergunta-se sobre o significado das coisas e não encontra nenhum, o que o lança em uma “angústia nauseante”, uma “náusea”. Em termos dessa filosofia, cara a Sartre: “As coisas são uma “pura existência”, e não “a essência do que elas são”, diz ele, numa forma mais sucinta depois: “A existência precede a essência”.

Felizmente, o romance não dedica todas as suas páginas às divagações filosóficas de Roquentin. Ou melhor, esta filosofia é expressa por ocasião de espetáculos, pequenos acontecimentos daqueles dias.

“Então”, disse Roquentin, “eu estava neste instante no jardim público. A raiz do castanheiro afundou no chão, logo acima do meu banco. Eu não lembrava mais que era uma raiz. As palavras tinham desaparecido e com elas o significado das coisas, o modo de usá-las, as marcas sinalizadoras que os homens traçaram em sua superfície. Eu estava um pouco curvado, de cabeça baixa, sozinho na frente desta massa negra e lamacenta, completamente bruta, e isso me assustou, me cortou o fôlego. Nunca, antes desses últimos dias, eu senti o que significava a palavra ‘existir’”.

Tal é o tom, muito abstrato, abstrato demais deste primeiro romance de Jean-Paul Sartre. Segue uma longa vida cheia de rumor e celebridades, tolices, aventuras, compromissos políticos sempre generosos, mas muitas vezes absurdos, inacreditáveis, rocambolescos, irresponsáveis ou nefastos (Fidel Castro ou o Maoismo...). Sartre envelheceu. Era possível ver sua figura minúscula, furtiva e esgotada à noite nos becos de Saint-Germain-des-Prés. Novos pensadores fascinaram a França, Claude Lévi-Strauss, Jacques Lacan, Roland Barthes. Sartre parte. Ele está enterrado em Montparnasse, dezenas de milhares de pessoas lotam o cemitério. Um imenso silêncio. Soluços também. Isso se passa em 19 de abril de 1980. Não se vira nada assim desde a morte de Victor Hugo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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