Le Pacte
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A nova safra do cinema politicamente engajado na França

Inspirado em 'O Ódio', de 1995, filmes recentes como 'Os Miseráveis', que foi indicado ao Oscar, tocam nas feridas francesas

Redação, The Economist

15 de fevereiro de 2020 | 16h00

No ano em que uma França extasiada comemorou o título da Copa do Mundo, Issa, um garoto dos conjuntos habitacionais do norte de Paris era preso por roubo. Até aí, normal.

O inusitado é que Issa roubou galinhas para alimentar um filhote de leão que surrupiou de um circo visitante. Desse improvável e cativante incidente, que reflete tanto o tédio quanto a ingenuidade de Issa, flui uma série de eventos devastadores que põe fim à inocência de sua infância e expõe a dura vida nas periferias francesas.

De quando em quando, um filme cruamente enérgico e emocionalmente autêntico chega às telas francesas e abala o establishment cinematográfico. Os Miseráveis, indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro na premiação deste ano e vencedor no ano passado do Prêmio do Júri em Cannes, é um exemplo.

Com roteiro e direção de Ladj Ly, nascido no Mali e criado numa dessa selvas de concreto francesas, em Montfermeil, onde o filme é ambientado, Os Miseráveis acompanha um embate entre um trio de policiais e um bando de garotos esquálidos.

Quando a perseguição a Issa (interpretado por Issa Perica) toma um rumo terrivelmente inesperado, a cena é inadvertidamente filmada do alto por Buzz (Al-Hassam Ly, filho do diretor), outro dos garotos, que mata o tempo controlando um drone do alto de seu prédio.

A tensão da caçada inicial vira uma busca alucinada do vídeo do drone pelos policiais, que querem sumir com seu conteúdo comprometedor. A câmera de Ly paira sobre os personagens e seu mundo confinado como o drone de Buzz. Conforme o filme avança, os policiais confrontam-se uns com outros e com suas consciências. Autopreservação e o espírito de corpo são assolados pelo fantasma dos erros morais.

Os garotos oscilam entre a alegre exuberância da idade – deslizando ladeira abaixo numa caçamba de entulho travando duelos com pistolas de água – e uma violência aterradora. Numa cena, quando o brinquedo improvisado colide com a viatura, um dos garotos, que parece mais velho e frio que os outros, olha um policial nos olhos e faz o gesto ameaçador de cortar-lhe a garganta.

Inevitavelmente, críticos compararam Os Miseráveis a O Ódio, filme em preto e branco lançado há 25 anos para a surpresa de uma geração de adeptos de filmes de arte franceses, muitos filmados em apartamentos acarpetados, trazendo a sombria ira dominante na periferia da capital. Ly admite que ele, como tantos outros, foram “fortemente inspirados” por O Ódio. Os Miseráveis, apesar de momentos de humor sardônico, consegue ser ainda mais sombrio. Ele trata de uma geração mais raivosa e desolada que a do filme predecessor.

Os Miseráveis, que tira seu nome do romance de Victor Hugo no qual o então vilarejo de Montfermeil aparece, é um filme que usa a periferia como pano de fundo. “Não o consideramos um ‘filme de periferia’”, diz Toufik Ayadi, um dos produtores, referindo-se a um gênero menor que surgiu na França desde O Ódio. Mais que isso, a ideia foi usar as histórias humanas das quais a periferia é tão rica, diz Christophe Barral, coprodutor. “Existe muita imaginação a apenas alguns quilômetros de Paris”, afirma Barral.

O filme no entanto, é também político, ou, como dizem os franceses, engajado. Ly, primeiro diretor negro francês indicado para o Oscar, descreveu-o como “grito de alerta”. Quando aspirante a cineasta, ele filmava a violência policial que testemunhava e isso deu autenticidade ao filme. Dizem que o presidente Emmanuel Macron ficou atônito ao assistir a uma sessão privada no Palácio do Eliseu.

Os Miseráveis se enquadra numa crescente tendência a uma nova e ousada franqueza social do cinema francês. Mesmo na esteira de O Ódio, os diretores franceses tendem a ser “na maior parte extremamente classe média, mirando-se no microcosmo parisiense”, disse Ginette Vincendeau, francesa professora de cinema no King’s College London. “Quando se trata de realismo social, os franceses frequentemente se referem ao cinema britânico e aos filmes de Ken Loach, dizendo que na França não existe isso.” 

Mas isso parece estar mudando. Vários filmes franceses recentes vêm tendo uma visão mais dura, com frequência mais amarga, de temas sociais da atualidade, ecoando a experimentação do cinema francês dos anos 1950 e 1960. No ano passado, tais filmes trataram da desigualdade educacional (A Vida Escolar, A Luta de Classes), do suicídio no campo (Em Nome da Terra), do fechamento de fábricas (Em Guerra) e das atitudes da sociedade em relação ao autismo (Hors Normes).

A comédia Hors Normes, de Olivier Nakache e Éric Toledano, fala de dois assistentes sociais (um deles, Vincent Cassel) empenhados em abrigar e orientar jovens que, sofrendo de autismo severo, não são assistidos pela previdência social.

Filmes politicamente sensíveis nem sempre obtêm financiamento fácil. Os Miseráveis lutou inicialmente pelo apoio dos órgãos de cinema oficiais franceses. Embora não tenha ganho o Oscar, pelo menos na França, ele já deixou sua marca. “É um bom filme francês mostrando algo além do que o cinema burguês mostra”, diz Barral, o coprodutor. “Talvez as pessoas já tenham se enchido disso.”/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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