Prensa Presidencial | EFE
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A nova velha América Latina

Num mundo em forte processo de realinhamento, onde se encaixam as vitórias do Cambiemos na Argentina e da MUD na Venezuela?

Wagner Iglecias, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2015 | 17h18

As recentes vitórias eleitorais da direita, com o triunfo de Mauricio Macri na Argentina e a conquista da maioria das cadeiras da Assembleia Nacional pela Mesa da Unidade Democrática (MUD, composta por partidos de oposição ao governo de Nicolás Maduro) na Venezuela, acenderam a luz amarela para a esquerda latino-americana e colocaram no centro do debate político sobre a região a seguinte pergunta: a América Latina está caminhando para a direita?

Embora distintas correntes progressistas tenham chegado ao poder a partir de 1999 com Hugo Chávez na Venezuela, o fenômeno esteve restrito a alguns países como a própria Venezuela e depois o Brasil (a partir de 2002), a Argentina (2003), o Uruguai (2005), a Bolívia (2006), o Equador, a Nicarágua (ambos a partir de 2007) e El Salvador (2009). Trata-se de um conjunto de nações muito importantes no continente, mas lembremos que Chile, Colômbia, Peru e México, entre outros, não fizeram parte dessa guinada à esquerda ocorrida nos últimos anos.

Não cabe, portanto, falar numa guinada da América Latina à direita. Mas cabe, sim, chamar a atenção para problemas que os distintos projetos políticos de esquerda que têm governado alguns desses países estão enfrentando. Lembremos que todos eles têm como legado o resgate de parte da dívida social daquele que é o continente mais desigual do mundo. Sob os escombros da década neoliberal (anos 1990), aquela que estabilizou a inflação mas trouxe um custo altíssimo de aumento da pobreza e da exclusão social, os governos progressistas implantaram políticas destinadas a trazer para os direitos e para o consumo milhões de indivíduos. Em alguns casos, como nas chamadas nações bolivarianas (Bolívia, Equador e Venezuela), os mecanismos de participação popular foram bem mais aprofundados que em outros, como no Brasil, onde privilegiou-se mais o acesso ao consumo. Em todos eles, porém, os dados internacionalmente reconhecidos atestam para a queda da pobreza e a melhoria das condições de vida da maioria da população.

É importante ressaltar, contudo, que as esquerdas que chegaram ao poder na região enfrentam hoje seu momento mais crítico. As razões são inúmeras: há uma natural fadiga de setores da sociedade após anos de poder por parte de um mesmo grupo político; há uma excessiva dependência de determinadas lideranças carismáticas para a continuidade destes projetos políticos; há contradições várias nas relações desses governos com suas bases sociais, principalmente os grupos mais à esquerda; há uma duríssima resistência a esses governos por parte das elites tradicionais em todos esses países em questões que vão dos projetos de reforma agrária às propostas de desconcentração da propriedade dos meios de comunicação; há uma excessiva dependência, que esses governos não conseguiram romper, em relação à produção e exportação de commodities agrícolas, minerais e petróleo, reiterando em pleno século 21 a velhíssima vocação econômica da América Latina no mundo, criada quando os primeiros europeus aqui chegaram e fizeram do nosso continente uma região exportadora de bens primários.

Aliás, ressalte-se que boa parte do sucesso político desses governos deveu-se à intensificação da produção e exportação desses bens. Mais do que distribuir renda, esses governos geraram renda adicional às expensas do meio ambiente e dos povos originários, com o que se financiou parte dessas políticas sociais includentes.

Uma guinada efetiva desses países à direita ainda é difícil de prever. O empoderamento de setores populares nos anos recentes fará com que Macri ou um eventual futuro governo de direita na Venezuela, por exemplo, tenham dificuldades em implantar uma agenda de reformas neoliberais mais dura. No entanto, em meio a todas as incertezas, pode-se imaginar que o cenário latino-americano, se é bom para alguém neste momento, é para os EUA. Após sucessivas derrotas eleitorais nos últimos anos na região, a Casa Branca começa a ver aliados como o Cambiemos de Macri ou a MUD venezuelana alcançando importantes vitórias. E provavelmente aguarda os próximos movimentos da política brasileira para talvez comemorar o êxito de seus aliados locais representados pela oposição de direita ao governo Dilma.

Para completar o momento favorável, os interesses de Washington na América Latina não precisam temer qualquer ameaça de que a esquerda chegue ao poder, no curto e médio prazos, em países como Chile, Colômbia, Panamá, Peru e México, seus tradicionais parceiros. Some-se a isso os acenos (ou a capitulação?) em direção aos EUA feitos por Cuba, país que por décadas simbolizou como nenhum outro a tentativa de construção de um caminho alternativo e socialista para a América Latina e se conclui que há muito tempo os interesses de Washington na região não viviam uma conjuntura tão promissora.

A questão, mais que ideológica, é geopolítica. Num mundo em forte processo de realinhamento, onde os interesses das três grandes potências (EUA, China e Rússia) tornam-se mais explícitos, as notícias vindas da Argentina e da Venezuela não deixam de ser muito importantes para o país mais poderoso do planeta e para seu objetivo de reconquistar posições perdidas no tabuleiro internacional.

Wagner Iglecias é professor do curso de graduação em Gestão de Políticas Públicas (EACH-SP) e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP

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