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'A Nuvem Negra' traz metáfora para a atual conjuntura da Terra

Publicada pela primeira vez em 1957, distopia de Fred Hoyle leva discussão sobre o clima para a literatura

André Cáceres, Especial para o Estadão

17 de junho de 2022 | 10h00

Quando uma misteriosa nuvem de gás se aproxima da Terra e ameaça obscurecer a luz solar, um grupo de cientistas excêntricos se reúne para estudá-la e oferecer soluções para a crise que se avizinha. No entanto, os governos de seus países, descrentes em relação à gravidade da situação, relutam para dar apoio à iniciativa. A premissa é do livro A Nuvem Negra, de Fred Hoyle, recém-publicado pela editora Todavia, mas pode ser tomado como uma metáfora para a atual conjuntura da Terra.

Na vida real, a temperatura média do planeta Terra subiu 1 ºC nos últimos dois séculos, um aumento repentino e indubitavelmente provocado pela industrialização humana que tem tornado mais frequentes catástrofes climáticas como secas, tempestades e ondas de calor, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Embora a questão ambiental seja um tema central para os rumos da política, da economia e da sociedade no século 21, a literatura e o cinema ainda apresentam dificuldade para lidar com o assunto.

Segundo o estudo Good Energy: A Playbook for Screenwriting in the Age of Climate Change (Energia do Bem: Um Guia de Roteiros na Era das Mudanças Climáticas, em tradução livre), apenas 2,8% da ficção que chegou às telas entre 2016 e 2020 menciona o tópico. Parece muito pouco para um tema tão definidor de nossa época, mas talvez essa relutância em lidar com esse problema esteja no fato de que é difícil abordar uma questão tão intangível e de escopo tão grande em um nível individual. É por isso que, embora tenha sido publicado em 1957, A Nuvem Negra pode indicar caminhos interessantes para a ficção contemporânea.

Fred Hoyle (1915-2001) foi um relevante astrônomo e divulgador científico, além de um saboroso personagem da história da física. Polemista e encrenqueiro – como Christopher Kingsley, protagonista de A Nuvem Negra –, ele cunhou a expressão Big Bang ao ironizar a teoria que considerava estapafúrdia, mas que se provou correta, de um universo em expansão a partir de um ponto inicial. Entretanto, acertou em cheio ao explicar como os elementos químicos são criados dentro de estrelas, como ressalta o biólogo Richard Dawkins em um posfácio incluso na edição da Todavia.

Em 1957, quando da primeira publicação do romance, as mudanças climáticas ainda estavam longe de ser compreendidas como uma ameaça existencial à humanidade, então é pouco provável que Hoyle tenha elaborado a metáfora central da obra intencionalmente. É interessante, portanto, que A Nuvem Negra tenha apenas ganhado relevância desde então, antecipando, entre outros aspectos, a relação antagônica entre cientistas e governantes: “Os políticos vão fazer o quê, promulgar decretos para a Nuvem não vir? Vão impedir que ela tape a luz do Sol?”, diz Kingsley em uma de suas tiradas.

O embate entre a ciência que alerta para catástrofes e a política que a rotula de alarmista, tendo a imprensa como meio de campo (minado), perpassa todo o enredo de A Nuvem Negra, e é também o tema da sátira Não Olhe Para Cima (2021), de Adam McKay, mas o romance de Hoyle trata dessa questão sem apelar para o humor escrachado, nem se apoiar apenas na força da analogia para sustentar sua trama, como faz a comédia. Para além da metáfora e do cataclismo, a obra do astrônomo explora questões filosóficas em um ponto de virada dramático, quando a nuvem se revela mais do que um mero aglomerado de gás solto ao acaso no universo – o acaso, aliás, é desafiado e levado às últimas consequências pelas reflexões feitas pelos cientistas capitaneados pelo irreverente Kingsley, quase um alter ego do autor.

A despeito da instigante urdidura do romance, o livro apresenta problemas comuns entre obras de ficção científica de sua época. Com exceção de Kingsley, que desafia os políticos mundiais e os obriga a fazer concessões em nome da ciência, os demais personagens não passam de veículos para um debate de ideias por parte do autor, servindo de escada para as conclusões do protagonista. Além disso, via de regra, as mulheres são criaturas subalternas nas raras vezes em que aparecem. E Hoyle passa longe de ser um esteta literário, adotando um estilo de prosa que se satisfaz em meramente comunicar fatos, sem se preocupar com uma maior sofisticação artística ou uma sintaxe mais criativa. Em vez disso, especialmente na primeira metade da obra, o astrônomo detalha desnecessariamente os aspectos científicos do cenário fictício, chegando inclusive a inserir diagramas e cálculos que pouco acrescentam para a fruição literária.

Esses pontos, porém, não obscurecem o inegável gênio criativo de Hoyle, que propõe reflexões instigantes acerca da inteligência humana, da origem da vida, da natureza das leis físicas, entre outras questões fundamentais, à moda de Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Robert Heinlein, inclusive aproximando-se deles em termos de estilo, escopo e foco narrativo. Entre erros e acertos, A Nuvem Negra abre veredas que podem – e cada vez mais devem – ser exploradas pela literatura, oferecendo soluções para que os grandes problemas contemporâneos possam ser contemplados por nossas narrativas.

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