Benjamin Norman/The New York Times
Benjamin Norman/The New York Times

A obra de arte que enfurece deve ser retirada?

'Open Casket', obra exposta na Bienal do Whitney Museum, suscita debate sobre racismo na arte

Roberta Smith, The New York Times

01 Abril 2017 | 19h04

NOVA YORK – Todos nós conhecemos obras de arte que não nos agradam, que nos incomodam e nos enfurecem. Isto não merece ser exposto, grita nosso cérebro; não deveria poder existir. Mas tal aversão seria motivo para uma obra de arte ser tirada de vista? Ou pior, destruída?

Esta pergunta está no centro da controvérsia que tem dividido o mundo das artes desde a abertura da Bienal de Whitney há quase duas semanas. O bafafá, que tem sido excruciante para muitas pessoas de diferentes maneiras, está centrado na pintura exposta Open Casket (literalmente, Caixão Aberto) de Dana Schutz. A obra baseia-se, em parte, em fotos do rosto horrivelmente mutilado de Emmett Till jazendo em seu caixão, em 1955, cerca de 10 dias depois de o rapaz afro-americano de 14 anos ter sido brutalmente assassinado por dois homens brancos no Mississipi supostamente por flertar com uma balconista branca. A artista é branca, e o uso que fez das imagens chocou muitos no mundo artístico como uma apropriação indevida que, segundo eles, deveria ser removida.

O primeiro protesto foi individual: no dia em que a exposição foi aberta, um artista afro-americano, Parker Bright, parou diante do quadro vestindo uma camiseta com “Black Death Spectacle” (espetáculo da morte negra, em tradução livre) escrito à mão nas costas, às vezes bloqueando parcialmente a vista, às vezes entabulando conversa com outros visitantes da exposição. Uma foto de Bright no Whitney foi postada no Twitter.

As objeções à pintura se tornaram virais com uma carta aberta de Hannah Black, uma escritora de origem britânica que vive em Berlim, assinada solidariamente por outros, afirmando que a imagem de Till era “assunto para negros”, fora do âmbito para um artista branco. Alguns negros atacaram o quadro de Schutz como uma exploração do sofrimento negro “para lucro e diversão” e pediram que ele não só fosse retirado da exposição, mas ainda por cima destruído.

Para mim, como para outros, o terreno continuou movediço com o surgimento de uma profusão de artigos de opinião, entrevistas, blogs e postagens no Facebook e e-mails entre amigos. A discussão tem sido incômoda, tonificante e, em última análise, benéfica. A censura, e mais ainda a destruição de obras de arte, é abominável? Sim. As pessoas ofendidas ou ultrajadas por uma obra de arte ou uma exposição devem realizar protestos? Claro. E um museu deveria antever a possibilidade de uma obra de arte ser controversa na classificação ou programação? Sim para isso, também.

Dentro do novo National Museum of African American History and Culture, o caixão de Till ocupa um nicho que se tornou um santuário. Lonnie G. Bunch III, o diretor fundador desse museu, disse que sua presença “quase provoca uma catarse nas pessoas com toda a violência que a comunidade sofreu ao longo dos tempos”.

Muitas pessoas se acharam num meio termo, olhando os dois lados, procurando precedentes.

O que me veio à mente são obras de arte anteriores por pessoas que transpuseram divisões étnicas em sua descrição do trauma social. The Passion of Sacco and Vanzetti (1931-32), uma série de Ben Shahn, um artista branco judeu, fez um comentário pungente sobre o julgamento dos imigrantes Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti em Massachusetts durante os anos 1920; um caso politicamente carregado que espelhou questões relativas a etnicidade, classe e corrupção no sistema judicial.

No mesmo âmbito, foi um professor e compositor branco judeu, Abel Metropol, o autor da dolorosamente bela Strange Fruit, uma balada contra o linchamento celebrizada por Billie Holliday que, em 1939, “enfrentou o ódio racial de frente” como escreveu David Margolick em Strange Fruit: Billie Holiday, Café Society, and an Early Cry for Civil Rights (Fruta Estranha: Billie Holiday, Café Society e um Clamor Inicial por Direitos Civis, em tradução livre).

A pintura de Schutz não é a única obra de arte inspirada no linchamento de Till: existe uma balada que Bob Dylan compôs e interpretou em 1962, intitulada The Death of Emmett Till, relançada mais recentemente em 2010.

Alguns cruzamentos de fronteiras étnicas foram recebidos com hostilidade histórica. Um dos mais intensos foi a condenação de As Confissões de Nat Turner, de William Styron, 50 anos atrás, por escritores afro-americanos. Em William Styron’s Nat Turner: Ten Black Writers Respond (Nat Turner de William Styron: Dez Escritores Negros Respondem), os autores da coletânea acusaram Styron de ter promovido numerosos mitos, estereótipos e clichês raciais. Desde então, o romance de Styron, ganhador do prêmio Pulitzer, e o debate que ele desencadeou veio a ser considerado um importante ponto de virada para escritores da historia negra, e o confronto, como se escreveu em The New York Times Book Review em 2008, “ajudou a abalar a ideia de que pode e deve haver uma única ver são de 'como foi a escravidão'”.

Os que hoje pedem a retirada da pintura de Schutz parecem se alinhar com os artistas negros que em 1977 iniciaram uma campanha epistolar contra o que consideravam os estereótipos negativos de negros na obra inicial de Kara Walker, a artista afro-americana conhecida por seus retratos impiedosamente swiftianos da vida nas fazendas sulinas antes da Guerra Civil. Eles também parecem estar lado a lado com os católicos romanos que, em 1999, liderados pelo então prefeito Rudy Giuliani, protestaram contra uma pintura no Museu Britânico do artista britânico Chris Ofili. O quadro mostrava a Madona e a Criança como negras sobre uma superfície embelezada com pequenos recortes de revistas pornográficas e algumas peças de fezes de elefante do tamanho de bolas de tênis pesadamente envernizadas e decoradas com contas.

Ao longo do tempo, artistas periodicamente retrataram ou evocaram linchamentos, mas o corpo negro ferido é um tema ou imagem que artistas plásticos e escritores tentaram cada vez mais proteger do mau uso, em especial por aqueles que não são negros. Este debate esquentou em 2015 quando, numa leitura na Universidade Brown, o poeta e artista performático Kenneth Goldsmith – cuja obra se baseia, em grande parte, em apropriações, às vezes de mortes violentas – leu um poema numa versão ligeiramente modificada do relatório da autopsia de Michael Brown, o jovem de 18 anos baleado e morto por um policial branco em Ferguson, Missouri. Goldsmith foi insultado no Twitter, acusado de explorar este material.

Por um momento, a carta de Black sobre a pintura de Schutz deu a impressão de que a opinião afro-americana sobre essa questão era monolítica. Não é. Antwaun Sargent postou um editorial equilibrado em artsy.com com um link para uma declaração sucinta no Facebook do artista Clifford Owens. Ela dizia, em parte: “Não sei nada sobre Hannah Black, ou os artistas que assinaram coletivamente sua carta empolgada e amarga, mas não concordo com artistas que censuram artistas”.

Na quinta-feira, Walker postou uma mensagem cifrada no Instagram que parecia guiada por suas próprias experiências. Ela defendeu a pintura de Schutz sem fazer grande alarde por ela ou censurar seus críticos.

“A história da pintura está cheia de violência gráfica e de narrativas que não pertencem necessariamente às vidas dos próprios artistas”, escreveu Walker. E concluiu que uma obra de arte pode ser instigadora independentemente de como ela ofende ou parece insuficiente, dando “origem a cobranças mais profundas e a uma arte melhor. Ela só pode fazer isso quando é vista”.

Uma vez entregues à esfera pública, as imagens adquirem seu próprio poder e, numa sociedade livre, serão usadas por qualquer um que as explore da maneira que julgarem eficaz, inconsequente ou egrégia. Mas artistas não pedem permissão.

Schutz disse que pintou Open Casket por simpatia com a dor sofrida pela mãe de Till, Mamie Till Mobley, e a classificação no Whitney foi ajustada para levar isso em conta. Num e-mail postado na segunda-feira, Schutz escreveu: “A foto dele em seu caixão é quase impossível de se olhar. Ao fazer a pintura, eu me baseei mais no relato verbal de Mamie Till sobre a visão de seu filho, que oscila entre memória e observação”.

Mas Schutz sempre focou sua arte no sofrimento físico expresso por corpos e peles traumatizados. Ocasionalmente, o corpo é negro – como na pintura de Michael Jackson numa mesa de autópsia – mas ele é geralmente branco. Seus temas incluem Terri Schiavo na UTI; George Washington como uma espécie de monstro com dentes enormes de madeira; e um retrato do ex-presidente da Ucrânia, Viktor A. Yushchenko, com o rosto desfigurado por veneno. Mais ambicioso é o enorme Presentation, que mostra duas figuras deitadas numa mesa sendo torturadas e fatiadas por uma turba humana.

Numa breve troca de e-mail no domingo, Schutz disse que enquanto estava criando Presentation, em 2005, “estava pensando nos corpos que não eram vistos chegando do Iraque”. Ela estava se referindo à prolongada proibição militar, levantada em 2009, de fotografar caixões cobertos pela bandeira de soldados americanos mortos nas guerras do Iraque e do Afeganistão.

Temas de raça e violência figuram em obras de arte por toda esta Bienal, incluindo uma pintura do artista negro, Henry Taylor, The Times They Aint a Changing Fast Enough! (Os Tempos Não Estão Mudando com Velocidade Suficiente). Ela retrata a morte a tiros de Philando Castile por um policial.

Alguns poderiam dizer que os eventos e suas exposições são coisas muito distintas. Castile não foi brutalmente desfigurado. A tortura de Till, há mais de 60 anos, e sua imagem, se tornaram um nexo de dor e ódio inexprimível para gerações de americanos.

Mas ao refazer essas imagens trágicas como pinturas, os dois artistas lhes deram uma monumentalidade e uma materialidade que as fotografias geralmente não alcançam. Eles as tornaram mais presentes sem deixar de manter algum distanciamento. O Castile de Taylor tem a face nobre de uma estátua grega. Schutz foi censurado por “abstrair” os ferimentos pavorosos de Till, mas suas pinceladas fluentes guiam nosso olhar para longe deles, sugerindo uma espécie de reflexo visual chocado.

Mas o mais importante, talvez, é que as pinturas de Taylor e Schutz compartilham um tema perfeitamente americano, o do racismo branco odioso e corrosivo. A quem isso pertence?

A pintura de Schutz e o debate em torno dela já são uma unidade histórica que parece nova ao mundo artístico e que mudará as coisas. Diferentemente da controvérsia sobre Styron, eles se desdobraram na internet a uma velocidade alucinante com milhares de pessoas falando sobre o assunto quase em tempo real. Diferentemente do poema de Goldsmith, a causa do furor não é efêmera; a pintura tem uma espécie de peso igual no debate. Ambos estão, ao seu modo, extremamente presentes para as pessoas pensarem em ignorá-los. Open Casket não será destruída, e por enquanto também não é passível de destruição. /Tradução de Celso Paciornik

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