Van Ham Art Auctions
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A obra fundamental sobre terrorismo político de um ex-guerrilheiro russo

'O Cavalo Pálido', de Boris Savinkov, influenciou Albert Camus e André Malraux

Irineu Franco Perpetuo*, Especial para o Estado

30 de novembro de 2019 | 16h00

“Não acredito no paraíso terrestre, não acredito no paraíso celeste. E não quero ser escravo, nem um escravo livre. Toda a minha vida é luta. Não posso deixar de lutar. Mas em nome do que eu luto, não sei”. Ao descrever, em primeira pessoa, o terrorismo político russo do começo do século 20 em O Cavalo Pálido, Boris Savinkov (1879-1925) sabia muito bem do que estava falando. Afinal, estivera comprometido em alguns dos mais bombásticos assassinatos que marcaram a conturbada vida política de seu país no período.

Savinkov integrou e chefiou a Organização de Combate do Partido Socialista-Revolucionário, responsável pela eliminação, dentre outros, do ministro do Interior da Rússia, Viatcheslav von Plehve, e do grão-duque Serguei Aleksandrovitch, antes de ser dissolvida, em 1911. Integrou o governo provisório de Aleksandr Kerenski após a Revolução Russa de fevereiro de 1917, e se opôs – com armas na mão – à tomada bolchevique do poder, em outubro do mesmo ano. Emigrou para o Ocidente, ficou amigo de Sidney Reilly (o espião britânico que foi o modelo de James Bond) e, junto com ele, foi capturado pelos soviéticos na Operação Trust, suicidando-se no cárcere.

Publicado em 1909, e filmado em 2004 por Karen Chakhnazarov, O Cavalo Pálido tem tintas autobiográficas, e causou alvoroço entre os correligionários do autor. Afinal, Savinkov parecia estar cometendo o que hoje chamaríamos de “sincericídio”: sua descrição do terrorismo político passava bem longe de ser lisonjeira. O livro tem a forma do diário de sete meses do encarregado de comandar o assassinato do governador-geral de Moscou. Sua prosa possuiu a concisão que marcaria o mais influente escritor russo de guerra do período, Isaac Bábel (1894-1940), e que chegaria ao ápice nas horripilantes narrativas do “gulag” de Varlam Chalamov (1907-1982).

O título vem do Apocalipse, referindo-se a um de seus cavalos; vale notar que, nas traduções da Bíblia para o português, o equino em questão não é pálido, e sim amarelo, motivo pelo qual, na versão espanhola, a obra de Savinkov é conhecida como El Caballo Amarillo.

Citações bíblicas e reflexões religiosas perpassam todo o texto; afinal, trata-se de uma obra escrita na Era de Prata, e sob plena influência da atmosfera mística do Simbolismo. Vale lembrar que, ao redigir O Cavalo Amarelo, Savinkov encontrava-se em Paris (onde conheceu um gênero musical brasileiro que aparece no livro, o maxixe), sob os auspícios do casal que comandara a primeira geração simbolista russa, Dmitri Merejkovski e Zinaida Guippius (responsável pelo pseudônimo com que ele assinou, V. Rópchin).

Quase toda obra russa tem um duelo (essa também), e trava diálogo com o cânone literário do país. Savinkov, aqui, além das inescapáveis citações de Puchkin, elege Dostoievski como interlocutor preferencial. Porém, não é à crítica implacável do extremismo político cristalizada em Os Demônios que ele se refere. A sombra por detrás de O Cavalo Pálido é Smerdiakov, o bastardo parricida de Os Irmãos Karamazov. “E, se não tenho Deus, eu mesmo sou Deus”, afirma o protagonista, a certa altura. Citando um de seus comparsas, ele prossegue o raciocínio: “Vânia diz: ‘Se tudo é permitido, então é o Smerdiakov’. Mas em que Smerdiakov é pior do que os outros? E por que é preciso temer Smerdiakov?”

No posfácio, o tradutor Rubens Figueiredo assinala as claras ressonâncias em O Estrangeiro (1942), de Albert Camus. Se pensarmos, contudo, na tradição de escrita sobre terrorismo político, o personagem que emerge com maior clareza é Tchen, o homem-bomba criado por André Malraux em A Condição Humana (1933). “Sou um estranho nessa cidade de pedra, talvez no mundo inteiro”, escreve o personagem central, cuja frieza parece contaminar mesmo suas relações amorosas. “É tolice pensar em Elena. É tolice beijar Erna. Ms eu penso na primeira e beijo a segunda. E por acaso faz alguma diferença?”

Para além da pertinência e atualidade das reflexões que suscita, o lançamento do livro de Savinkov parece apontar para um momento muito especial de inserção da literatura russa no Brasil. Trata-se, afinal, de um autor pouco citado mesmo em obras especializadas. Se Dostoievski e Tolstoi ainda são as “torres gêmeas” que dominam o cânone russo por aqui, a oferta tem se tornado cada vez mais diversificada e matizada.

*IRINEU FRANCO PERPETUO É TRADUTOR E CRÍTICO

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