A omissão verde de Londres

Até a cúpula de Copenhague, só nos resta torcer para que o ?índice Dow Jones? de calamidades naturais não suba muito

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 22h17

Nico é um francês que mora em Londres. Ordeiro coadjuvante nas manifestações paralelas à reunião do G-20, ganhou seus 15 minutos de fama ao desfilar na quinta-feira com um cartaz contra o aquecimento global; ou melhor, contra a ausência da questão ambiental na cúpula hospedada pelo primeiro-ministro Gordon Brown. Não faz sentido discutir "as loucuras da economia" sem levar em consideração seus danos à natureza, ponderou Nico ao repórter da revista The Economist. Não faz mesmo.

Na véspera, Thomas L. Friedman insistira nesse ponto, em sua coluna no New York Times. Sem se referir à cimeira londrina, atrelou as verdades inconvenientes sobre as mudanças climáticas às inconveniências dos agentes econômicos. O ex-baluarte da globalização também está convencido de que a crise econômica não é só um produto do mercado, mas também da Mãe Natureza. Como não dá para se pedir à biosfera que nos dê um tempinho, até as coisas se ajeitarem na economia, é preciso atacar em conjunto e de rijo a crise financeira e as causas e consequências do aquecimento global, recomenda Friedman, aventando a hipótese de uma injeção de liquidez, de um bailout, na economia ambiental. Sem dar mole para o laxismo: incentivos para quem se ajustar às normas de uma nova ordem ecológica internacional, taxas, multas e mais impostos para quem alimentar o efeito estufa.

Sem dar satisfações (nem agenda cheia alegaram), o G-20 guardou todas as questões ambientais para a cúpula da ONU, em Copenhague, daqui a oito meses; e só nos resta torcer para que até lá a consciência ecológica não baixe a guarda e o "índice Dow Jones" de calamidades naturais não suba muito (sim, ele se move na direção contrária dos indicadores econômicos, como a escala Richter).

Mas o que é muito na atual conjuntura? A cada dia, novas ameaças, novos números e novas estimativas do impacto do aquecimento global sobre o planeta brotam de centros de pesquisas, só não deixando de cabelo em pé os chamados "céticos", aqueles poucos cientistas que duvidam da gravidade do efeito estufa. Nas duas últimas semanas, as predições sobre o futuro da Terra apresentaram um viés de baixa digno de uma ação (leia-se stock) da General Motors. Se tudo continuar como está, daqui a 90 anos as temperaturas do planeta atingirão níveis jamais experimentados pelos seres humanos. O prazo era maior alguns meses atrás.

Que as geleiras polares estão virando água, ameaçando elevar o nível dos oceanos e submergindo todas as cidades costeiras, disso a mídia volta e meia dá conta, mas só há duas semanas tomei conhecimento de outro derretimento. As geleiras alpinas que separam a Itália da Suíça derreteram tanto nos últimos anos que, por sugestão do parlamentar italiano Franco Narducci, os dois países vão alterar o traçado de suas fronteiras, originalmente orientado pelos picos gelados. Calcula-se que haverá um deslocamento de, no máximo, 100 metros em várias regiões, todas, felizmente, inabitadas porque situadas a 4 mil metros de altitude. Sorte deles, maré mansa para a diplomacia.

Já em latitudes mais habitáveis o redesenho das fronteiras será complicado, notadamente nas cidades e povoados à beira de rios cujos contornos sofrerão alterações consideráveis. É nesse capítulo que entra o Brasil, cuja abundância hidrográfica passará a dividir com a devastação da floresta amazônica os nossos piores pesadelos ambientais se de fato o aquecimento global fizer todos os estragos previstos por Al Gore, Jim Hansen e demais profetas do apocalipse climático.

Muito antes disso teremos de enfrentar outra amolação. (Imolação seria pior.) Não a única no curto e médio prazo, mas uma das primeiras que a nova ordem ecológica internacional, em fase de implantação supranacional, nos irá impor: o selo de boa qualidade conservacionista ou de respeito ambiental, o sinal carbônico (carbon footprint, em inglês), que daqui a algum tempo será obrigatório em todos os produtos, como o código de barras, o prazo de validade e a lista de ingredientes e valores nutritivos. Foi a maneira mais engenhosa que encontraram para conscientizar os consumidores do impacto de suas escolhas sobre o meio ambiente. É o maior orgulho da economia verde, a low-carbon economy, de baixo consumo de dióxido de carbono, o CO2, o veneno número 1 da atmosfera.

Ainda não encontraram uma medida universalmente aceitável e de fácil compreensão para cada produto, com base em seu ciclo de vida, do plantio ao consumo, passando pela distribuição, armazenamento, etc. Tudo conta: as emissões de CO2 provocadas pelos fertilizantes e nutrientes acrescentados ao solo e a energia consumida no plantio, na colheita, na industrialização e no transporte do produto. Um selo com elevada taxa de CO2 será um estigma, um labéu, uma condenação.

E uma fonte permanente de espanto e educação. Pouca gente sabe que a produção de um copo de laranja consome o equivalente a dois copos de petróleo; um televisor de plasma, se ligado durante três horas por dia, contribui com 250 quilos anuais de carbono na atmosfera; fábricas ao redor do mundo queimam 18 milhões de barris de petróleo por dia no engarrafamento de água mineral para os consumidores mais sofisticados do Hemisfério Norte (sem contar os bilhões de litros de água de refinadas e longínquas nascentes); o custo médio de um Natal, contando a comida, as viagens, energia elétrica e compra de presentes, calculou o Instituto Ambiental de Estocolmo, chega a 650 quilos de CO2 por pessoa.

Talvez o selo, mais a crise econômica, nos estimulem a mudar nossos hábitos alimentares e comportamentais. Precisamos gastar menos, comer menos, desperdiçar menos, andar menos de carro, e exigir menos CO2 naquilo que consumimos.

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