A ordem é conter o gigante

EUA concedem status nuclear especial à Índia para contrabalançar o poder emergente da China na Ásia

Bill Emmott*, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2008 | 00h48

Há menos de um mês, autoridades não identificadas representando os Estados Unidos chegaram à primeira página do jornal Financial Times indicando que o pacto nuclear entre EUA e Índia estava ''praticamente morto''. Nesse último final de semana o cadáver subitamente se contorceu de volta à vida, graças às habilidosas manobras políticas do primeiro-ministro da Índia, Mammohan Singh, e de seu Partido do Congresso. Agora, o acordo será assinado quase com toda a certeza pelo governo da Índia - devolvendo aos EUA o ônus de sua implementação.Para que isso aconteça, o Congresso (dos EUA) precisa parar de tentar usar o acordo para influenciar a Índia e obrigá-la a apoiar a política externa americana diante do Irã. E a administração Bush, bem como os senadores Barack Obama e John McCain, deveriam apresentar planos para uma reforma liderada pelos EUA das regras mundiais contra a proliferação de armamento. Tal liderança americana seria muito auxiliada pelo tipo de gesto grandioso de redução do armamento atômico proposto recentemente por Henry Kissinger, Brent Scowcroft e outros.O tratado nuclear entre Índia e EUA é uma coisa rara, uma medida da política externa da administração Bush que poderia parecer estrategicamente inteligente aos historiadores do futuro. Assinado em 2005, o tratado buscava encerrar quatro décadas de hostilidade e suspeita entre EUA e Índia e, especialmente, pôr um fim a quase uma década de semi-isolamento imposto à Índia após o país ter chocado o mundo com seu teste de armas nucleares em 1998.O pacto capitaliza sobre gestos iniciados pelo presidente Clinton, em especial sua visita à Índia em 2000, a primeira visita de um presidente americano em 22 anos e responsável pela abertura de muitos caminhos. Mas o grande avanço do pacto foi a oferta feita à Índia de acesso à tecnologia civil de energia nuclear e, especialmente, ao combustível nuclear, sem obrigar o país a assinar o acordo global aceito por outros importadores de combustível nuclear - o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).Assim sendo, esse trato faz da Índia uma grande exceção, ratificando seu status de Estado possuidor de armamento nuclear e garantindo ao país um regime de inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) nas suas instalações energéticas nucleares mais relaxado do que o normal. Por quê? A resposta é a China.Nem o governo dos EUA nem o governo da Índia querem admiti-lo, mas o motivo elementar para abrir uma exceção à Índia e aproximá-la dos EUA é o desejo de equilibrar o poder emergente da China sobre a Ásia.Tal equilíbrio figura claramente no interesse dos dois países envolvidos no acordo. E ainda assim o tratado, de três anos de idade, foi emperrado pelo complexo sistema político da Índia. O governo do primeiro-ministro Singh não dispõe de maioria parlamentar e dependeu dos votos dos partidos comunistas para governar. Esses partidos são instintivamente antiamericanos e ameaçaram derrubar o governo se este proceguisse com o tratado nuclear.Finalmente, Singh e sua líder no partido, Sonia Gandhi, reuniram coragem suficiente para abandonar os comunistas e obter apoio a partir de um pequeno grupo que representa as castas inferiores e os muçulmanos. O Partido Samajwadi está perdendo terreno em seu Estado, Uttar Pradesh, para outro partido de castas inferiores, e precisa de ajuda. Com as eleições nacionais marcadas para o mês de maio, tanto Singh quanto o Partido Samajwadi concluíram que tinham pouco a perder se trabalhassem juntos - e muito a ganhar.Essa decisão merece ser recompensada com um robusto esforço americano para convencer a Aiea e os membros do ''grupo mundial de fornecedores nucleares'' a apoiar o acordo, e depois por uma rápida ratificação do tratado na última sessão do Congresso este ano.O primeiro desses esforços seria muito auxiliado por declarações bipartidárias por parte dos EUA de que o Tratado de Não-Proliferação precisa de reforma e será feito todo o esforço possível para emendá-lo nos anos seguintes e incluir nele novas potências nucleares, como a Índia. O segundo seria auxiliado pela demonstração de membros influentes do Congresso de uma atitude mais realista em relação aos laços da Índia com o Irã.O apoio a um relacionamento mais próximo entre EUA e Índia é agora bipartidário. Mas esse quadro feliz é manchado pela preocupação de que a Índia mantenha a amizade contraproducente com o Irã, desejando comprar sua gasolina e receber visitas do seu presidente, que nega a existência do Holocausto.Utilizar o acordo nuclear para tentar forçar a Índia a se alinhar à política americana destinada ao Irã seria um grande equívoco. Graças a seu passado colonial, a Índia protege com ferocidade sua autonomia; jamais aceitará uma aliança com os EUA ao estilo japonês. Tentar obrigá-la a acompanhar os EUA contra o Irã, enquadrá-la no ''conosco ou contra nós'', seria deixar o melhor ser inimigo do bom.* Bill Emmott, editor chefe da revista The Economist de 1993a 2006, é autor de Rivals: How the Power Struggle betweenChina, India and Japan Will Shape our Next Decade (Ed. Allen Lane)

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