A paisagem de cada um

Entrevista com

Maureen Bisilliat

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2014 | 16h00

Maureen Bisilliat, filha de uma irlandesa com um meio-argentino-meio-calabrês, nasceu na Inglaterra. O jeito com que usa “assim e assado” nas frases não esconde, mesmo com o sotaque ainda forte, quão brasileira se tornou. Diz que todos temos as próprias paisagens, e a dela ela encontrou no sertão. Foi João Guimarães Rosa, a quem procurou no Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty, que desenhou seu primeiro roteiro de viagem pelas Minas Gerais e disse que ela, por ser uma mistura de tudo, compreenderia a maneira poética das pessoas nessas regiões. Euclides da Cunha, Guimarães e Ariano Suassuna viraram seus guias nesse mergulho que retratou em romarias e vaquejadas. Ela, que já fotografou o Brasil para revistas como Realidade e Quatro Rodas, encontrou seu lugar nas paragens mais distantes e nos rostos áridos e severos do interior do País, em uma época em que viajar, por si só, era forçosamente uma aventura. No Brasil há mais de 50 anos, hoje, aos 83, não fotografa mais, mas procura “recriar-se em recreações” - como descreve - com o material que produziu ao longo da vida. Estas imagens foram tiradas nos ermos, aldeias e lugares santos do Nordeste brasileiro - Juazeiro do Norte, Canindé e Bom Jesus da Lapa - entre 1967 e 1972, com sua curiosidade de estrangeira cigana que perseguiu a essência e a alma mais brasileiras. 

Por que esse encantamento com o Brasil?

Depois de quase 60 anos aqui, nem sei mais como responder a essa pergunta. Após todo esse tempo em um país, posso até ter preservado certos traços originais, mas já sou daqui. Se não tivesse achado meu pedaço de chão aqui, não teria ficado. Você nasce em um lugar, tem certas partes profundas que associa nos primeiros tempos; mas se passa tanto tempo em outro lugar já pertence a ele. Vai pertencendo ao presente desse novo lugar e penetra e compenetra os dias presentes nesse lugar. Logo depois de ler Grande Sertão: Veredas, fui atrás de Guimarães Rosa. Eu queria fotografar aquele sertão. Acho que cada um tem a sua paisagem. A minha foi calhar de ser o sertão. 

E Euclides da Cunha em seu trabalho e neste ensaio específico?

Depois de Guimarães Rosa procurei ler e estudar muitos outros escritores e poetas brasileiros, como Jorge Amado, Adélia Prado, João Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha. Mas fiquei impressionada em Os Sertões principalmente com a informação precisa e a escrita tão épica. Ousei então um sequenciamento da realidade ilustrada aliado à palavra de Euclides da Cunha, homem sóbrio e severo. Usei o primeiro e o segundo livro: A Terra e O Homem. Os trechos escolhidos estabelecem as estruturas de um mundo ambivalente, real e mítico, onde homem e natureza se confundem num único ímpeto gerador. Foi uma responsabilidade imensa tentar fazer algo com as imagens à altura do texto dele, ainda mais citando, escolhendo e destacando trechos de sua obra. Euclides é um dos escritores brasileiros mais importantes, e os euclidianos são muito rigorosos e sérios. Ao fim e ao cabo, este ensaio, parte do trabalho chamado Sertões Luz e Trevas, foi aprovado até por eles. 

Você continua fotografando?

Eu mexo com as imagens, com as minhas imagens, mas não fotografo mais. Hoje prefiro filmar ou retrabalhar fotos antigas. Em 2012, por exemplo, fiz uma coisa de que gosto muito que se chamou O Turista Aprendiz Revisitado. Inspirada no livro de Mário de Andrade, fiz uma viagem em 1985 seguindo o roteiro dele. Recentemente peguei frames das imagens filmadas pelo Lúcio Kodato e editei. Mexo muito com a imagem, continuo mexendo, mas não necessariamente com a câmera na frente dos olhos. O material que eu tenho é muito fértil. Gosto quando vejo um trabalho meu anos depois e posso elaborá-lo, levá-lo adiante, brincar com ele. Faço vídeo há anos, silenciosamente, e agora estou editando uma espécie de pesquisa de memória, com um neto e uma neta inclusive, há dois anos e oito meses, de segunda a sexta, de uma ilha de edição montada em minha casa. Gosto dos desdobramentos de um mesmo trabalho que ainda não me cansou, de recriações sobre um mesmo tema. Cinquenta anos depois, é como se voltasse a certos lugares que visitei.

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