RICARDO TRIDA | PAGOS
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A palavra do mês é 'campanha': como um termo de paz ganhou sentido bélico?

A eleitoral traz a ideia de guerra mais à flor da pele do que a beneficente, mas toda campanha tem DNA bélico

Sérgio Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2016 | 16h00

No caso das campanhas eleitorais – e lá vamos nós outra vez – a associação é mais ou menos transparente: há armamento pesado (quase sempre em sentido figurado, ainda bem) e uma sensação difusa de que vale tudo pela vitória, até que no fim, sem apelação, o campo se divide entre vencedores e vencidos. Nem sempre a ideia de guerra se deixa ver de modo tão evidente nos múltiplos usos que a atarefada palavra “campanha” encontra no mundo de hoje, mas é mesmo no campo de batalha, no deslocamento das tropas, nas estratégias de ataque e defesa de antigos exércitos que devemos procurar o núcleo de sentido em torno do qual brotaram a campanha política, a de marketing, a de vacinação, a esportiva, a beneficente, a educativa, a de arrecadação de fundos, a de difamação ou qualquer outra em que prevaleça a ideia de um trabalho contínuo, coletivo e orquestrado rumo a um fim específico. Na mais genérica das muitas definições trazidas pelo dicionário Houaiss, campanha é a “soma de esforços feitos para se atingir um determinado objetivo”.

Se por trás de toda campanha de hoje em dia podemos vislumbrar as colunas de fumaça, a poeira e o alarido de velhas campanhas militares, o mais curioso é que por trás do sentido bélico da palavra, ainda mais antigo do que ele, entrevemos também uma vasta e bucólica extensão de terra cultivada ou coberta de pasto, entre casinhas esparsas. Isso mesmo: uma paisagem rural profundamente associada à ideia de paz. Foi com o sentido plácido de “campo aberto, planície” que a palavra “campanha” desembarcou em nossa língua, em meados do século 16, vinda do latim tardio campania. Os termos “campo” e “campina” pertencem à mesma família. O dicionário Trésor de la Langue Française deixa mais clara a ideia corporificada originalmente na palavra campagne ao dizer que ela se opõe “às florestas, às montanhas e ao mar”. Ou seja: a campagne era o nome da natureza domada, suave e acolhedora. Que parece mais acolhedora ainda quando se sabe que brotou da mesma fonte o vinho espumante que aportuguesamos como “champanhe”: grafia assumida por campagne no francês antigo, a palavra Champagne deu nome a uma região no nordeste do país, hoje compreendida na província de Champagne-Ardenne, e por metonímia à famosa bebida borbulhante lá produzida.

Neste ponto estará desculpado quem, pensando na paz do campo e em uma vida idílica regada a taças de vinho fresco, ceder a uma pergunta retórica: “Ah, por que as palavras precisam ser tão inquietas? Por que não se satisfazem com seus sentidos de origem?”. A resposta óbvia – porque herdam a inquietude dos seres humanos, seus criadores – não chega a explicar nada, mas resta o consolo de que faz sentido histórico o salto mortal que, em algum momento do século 17, o vocábulo “campanha” deu de sua acepção pastoril para dentro do campo de batalha. A relação entre os dois mundos não poderia ser mais direta: era na campanha, no campo aberto, que os exércitos se enfrentavam. Talvez simplificando a questão um pouquinho além da conta, o dicionário etimológico de Douglas Harper expõe a questão assim no verbete campaign, fruto inglês da mesma árvore latina ao lado do italiano campagna e do espanhol campaña: “Os exércitos de antigamente passavam o inverno no quartel e ganhavam os ‘campos abertos’ para guerrear no verão”. Estações do ano à parte, a campanha (militar) começava quando as tropas iam para a campanha (literal, geográfica). E foi assim que uma palavra de paz virou uma palavra de guerra.

Certa vez o escritor Jorge Luis Borges fez pouco da etimologia, do estudo da origem das palavras, afirmando tratar-se de um conhecimento desprovido de sentido prático. De que adianta saber – argumentou o gênio argentino – que o cálculo renal e o cálculo matemático compartilham a ideia de “pedrinha”, sentido literal do latim calculus, e que antes da invenção dos números usavam-se pedrinhas para calcular, se isso “não nos permite dominar os arcanos da álgebra”? Dessa vez, coisa rara, o autor de O Aleph mostrou ter visão curta. O que a etimologia ilumina não é o campo de conhecimento nomeado pela palavra posta sob seu microscópio. O que ela ajuda a elucidar é a própria linguagem, ou seja, o processo de associação de ideias que desenha nossas estruturas mentais e nos constitui como seres pensantes. É evidente que conhecer a história da palavra campanha, para usar o raciocínio de Borges, não habilita ninguém a exercer nenhuma das atividades profissionais associadas a seus campos semânticos – a de fazendeiro, a de soldado ou qualquer outra. Mas parece inegável que se tornará um pouquinho mais sábio quem aprender, por exemplo, que a equiparação da campanha eleitoral a uma guerra surgiu primeiro no inglês americano: data de 1809 nos EUA, segundo o dicionário histórico de William A. Craigie e James R. Hulbert, o primeiro registro conhecido da palavra (no caso, campaign) com o sentido de “atividade política antes de uma eleição, marcada por ações organizadas destinadas a influenciar os votantes”.

SÉRGIO RODRIGUES,  JORNALISTA, CRÍTICO LITERÁRIO E ESCRITOR, É AUTOR DE VIVA A LÍNGUA BRASILEIRA! (COMPANHIA DAS LETRAS)

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