Valterci Santos/Gazeta do Povo
Valterci Santos/Gazeta do Povo

A pandemia da incerteza

Diagnósticos lentos e falta de confiança nas estatísticas fazem os esporos do medo correr mais que o vírus

José de Souza Martins*,

10 de agosto de 2009 | 14h48

Um sinal de que na silenciosa opinião do povo a questão da gripe suína, mais do que levada a sério, apavora, é a carência de anedotas e risos sobre o assunto. Rir é o melhor remédio, diz o povo. E quando o povo não ri é sinal de que, para ele, remédio não há. Costumo prestar atenção em diagnósticos de senso comum feitos em salas de espera de consultórios médicos e de hospitais. Aquela história de que de médico, poeta e louco todo mundo tem um pouco é muito verdadeira. A pessoa ainda não fez a consulta, não conversou com o médico, e o colega de espera já se antecipou com um diagnóstico fechado sobre a doença do outro, até mesmo sugerindo complicados exames de laboratório. Antigamente, essa era a cultura de almanaque, que entremeava anedotas, calendário agrícola, estações do ano, charadas e recomendações medicinais para os males mais corriqueiros.

 

Sem o deliberado propósito de provocar risos, há uma tensão dramática, mas também cômica, em situações cotidianas que antes da gripe tinham outros desempenhos no teatro de botequim. Há poucos dias, ao redor da mesa de um barzinho no campus da Praia Vermelha, da UFRJ, um grupo conversava sobre amenidades. Até que uma das pessoas, muito preocupada, começou a procurar na bolsa seu frasco de álcool gel para esfregar nas mãos, depois de ter abraçado e beijado todos os presentes. Um dos professores deu notícia de que na Inglaterra estão sendo promovidos bailes em recintos fechados, para os quais são convidados dois ou três infectados pela gripe suína para que os demais também sejam infectados, gerando os anticorpos que os protegerão, se não morrerem. Vacina popular e improvisada, do tipo de muita coisa meia-boca que se faz por aí quando a civilização fraqueja.

 

Nestes dias, o ministro da Saúde questionou e ironizou o adiamento do reinício das aulas nas escolas públicas. Ele provavelmente se engana na objeção. A medida não evita definitivamente a disseminação da gripe. Mas atende muito a sério outro requisito de saúde pública: a prevenção ao medo e ao risco de pânico, já instalados, fundados em sólidas tradições populares. A verdade é que a medicina está vacilando quanto à necessária rapidez nos diagnósticos, à segurança nos resultados dos exames de laboratório e à qualidade das estatísticas da mortalidade decorrente. Estatísticas comparativas com a gripe comum ajudariam a dar uma ideia mais precisa da letalidade da gripe suína e das características sociais de sua incidência. Para variar, o brasileiro está sendo tratado como um idiota cultural. Mais bem informada, a população teria condições de contribuir criativamente na prevenção da doença, em vez de ficar adivinhando quanto ao que se passa e quanto ao que fazer. Erraria menos.

 

A falta de álcool gel nas farmácias para desinfecção das mãos, no contato com eventuais doentes, difunde a suspeita de que as vítimas poderão se defrontar também com a falta de medicamentos, de leitos, de socorro, mais caros e menos abundantes. Vi e ouvi o ministro na televisão, explicando, de maneira racional e sensata, quais são os riscos e quais são os recursos disponíveis, tudo muito claro e objetivo, o que deveria nos dar a todos a tranquilidade de que carecemos. No entanto, as estatísticas de morte de gente sadia, vitimada pela gripe, desconstroem qualquer discurso racional. Os esporos do medo e da incerteza estão sendo espalhados muito mais depressa do que o vírus da gripe.

 

É significativo que nas conversas de ônibus, de trem, de metrô, de boteco não se esteja falando nos costumeiros recursos caseiros para enfrentar a gripe. Caso dos chás de limão adoçados com mel ou do leite quente com canela e conhaque. Portanto, o descrédito parece ter chegado à medicina popular, o que priva a população das defesas que conhece e povoam seu imaginário. Alguém dirá que esses recursos caseiros funcionam só nos casos das gripes comuns. Na verdade, funcionam apenas social e psicologicamente, o que já é bom. Não ir à escola e ficar em casa aumenta a eficácia da proximidade e do amor em família, nos cuidados preventivos, como velhíssima terapia do afeto. Mesmo nos casos dos já infectados é o que pode dar o ânimo necessário ao doente para que a medicina científica opere com mais eficácia.

 

Esse familismo terapêutico tem suas antigas razões. Estar juntos significa estar protegidos contra a corrosão do anonimato, as inseguranças da solidão, o pavor de ser ninguém nas horas cruciais e perigosas da doença e da morte eventual. Desde criança ouço histórias sobre pessoas enterradas vivas na pandemia de gripe espanhola de 1918. Era o caso das sepultadas em gavetas. Quando da exumação de cadáveres, décadas depois, os coveiros diziam ter encontrado o corpo revirado dentro do caixão, no desespero da asfixia de quem fora sepultado vivo. Muita lenda, sem dúvida, derivada do fato de que os mortos eram recolhidos por atacado e sepultados às pressas, sem obediência ao rito tradicional do velório de dois dias para que não houvesse dúvida quanto à efetiva morte da pessoa.

 

Multidões de brasileiros ainda têm na mente a realidade de apavoradas reações físicas contra pessoas portadoras de doenças contagiosas. Foi o caso da hanseníase até não faz muito tempo. Em 1976, conversei longamente em Cunha (SP) com um desses doentes, dos quais todos se afastavam com notório pavor. A polícia o colocava no ônibus para que fosse a Guaratinguetá tratar-se. Tão logo o ônibus se distanciava da cidade, era jogado para fora, a pontapés, que ninguém queria pôr a mão nele, e abandonado à beira da estrada. Em 1988, num bairro rural de São Sebastião (SP), uma mulher, mãe de família, quase foi linchada quando os vizinhos descobriram que estava com aids. Isso tudo é muito atual. É compreensível, portanto, que no cenário de incerteza, a medicina fique em desvantagem em relação à medicina caseira e aos diagnósticos, interpretações e medos da mentalidade popular. Das doenças imaginárias, correlatas da gripe suína, como o medo, não se está cuidando.

 

*Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Autor de Fronteira – A Degradação do Outro nos Confins do Humano (Contexto, 2009)

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