A pax verde-negra

A pax verde-negra

Palmeirense e corintiano põem franquias em campo para provar que rivalidade não é briga

Luiz Felipe Barbiéri, ESPECIAL PARA O ALIÁS

25 Outubro 2014 | 16h00


André Luiz Carneiro veste a camisa do Corinthians dentro da Academia Store, loja oficial do Palmeiras. Ao sair, ouve uma campainha, como se levasse um objeto sem pagar. “Só porque eu sou corintiano, né?”. A brincadeira arranca risos de Paulo Medina, palmeirense e dono do estabelecimento, que logo avisa: o apito antifurto do local está com defeito.

André conheceu Paulo há cinco meses. Ele é proprietário de uma das 108 casas da Poderoso Timão, franquia do clube alvinegro que se espalha pela capital e pelo interior paulista, além de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Distrito Federal. A amizade entre os dois ganhou destaque depois de tomarem uma atitude conjunta para incentivar a paz nas arquibancadas, em virtude do clássico no fim de semana. “Adversário não é inimigo. Rivais só em campo”, indicam faixas expostas nas duas lojas, localizadas na Rua Itapura, no Tatuapé, a 600 metros uma da outra. “A Academia Store quase foi vizinha nossa”, conta André. “O corretor que aluga o prédio aqui do lado perguntou se tinha algum problema, eu falei que não. Mas eles acabaram alugando mais pro final da rua.” A rede palmeirense tem 20 sedes, com capilaridade em São Paulo e no Paraná.

A ideia de abraçarem juntos a causa surgiu de um clássico entre Palmeiras e Corinthians no Campeonato Paulista, em fevereiro. Os clubes entraram em campo com mensagem idêntica à que decora os dois estabelecimentos hoje. Paulo e André, no entanto, tomaram cuidado com detalhes preciosos aos olhos dos clientes. “Na Academia Store, as letras das faixas são verdes e o símbolo do Palmeiras aparece à esquerda, como se fosse o time mandante. Na Poderoso Timão, a posição dos escudos se inverte e a cor das letras é preta”, explica o palmeirense.

O corintiano já não frequenta o Pacaembu como antes e nunca fez parte de torcida uniformizada. A última vez que rolou a catraca em direção às arquibancadas foi no ano passado. “Ia bastante. Depois que mudaram os jogos para quinta e sábado, parei de ir, por causa do horário de fechamento da loja.” Para ele, não se leva família em dérbis, só em jogo neutro. André teme o mal que combate: a violência das torcidas. “Acho que as organizadas deveriam ser... organizadas, uma coisa hierarquizada.”

Paulo também nunca fez parte de organizada, mas não dispensa a camisa verde e branca quando vai ao estádio. Começou a acompanhar o Palmeiras por influência de um primo, ainda na infância. Evita, porém, assistir a jogos contra os maiores rivais. “Temos receio. Nunca presenciei uma briga, mas não vamos aos clássicos.” Ele frequenta o campo com o filho, Paulo Felipe Correa, de 23 anos, e, em algumas ocasiões, a mulher o acompanha. “Lá dentro é tudo bonito. A torcida faz sempre um espetáculo. O problema é aqui fora, antes e depois do jogo.”

Os dois encontraram uma massa de apoiadores. Internautas espalharam a ideia e a repercussão surpreendeu. Foram 60 mil curtidas e 70 mil compartilhamentos. “Não esperávamos porque foi uma coisa nossa, não teve envolvimento das diretorias dos clubes. Elas ligaram para as franquias nos parabenizando”, diz André. 

Os clientes, em geral, aprovaram a iniciativa. “Alguns pedem pra tirar o símbolo do Corinthians daqui, sem ofender. O problema maior veio da internet”, avalia Paulo. De fato, na página Palestrina Esportes e Lazer, no Facebook, tem nariz torcido. “São os caras que se escondem no anonimato. Aqui na rua, só passam gritando quando o sinal tá aberto. Se tá fechado, ninguém fala nada”, brinca André. “Pena que o torcedor não pensa assim”, lamentou um internauta.

Não pensa – principalmente quando a obsessão é a Taça Violência. Na semana passada, o palmeirense Leonardo Mata morreu horas antes do clássico contra o Santos, atropelado na Via Anchieta. Membros de uma organizada alviverde ordenaram, por SMS, o massacre dos santistas. Arquitetaram uma emboscada contra o comboio que chegava a São Paulo tentando bloquear a passagem dos ônibus alvinegros e de outros dois carros, também com torcedores, no Km 18. Não conseguiram. Leonardo e outros cinco foram atropelados. Um homem acabou baleado. Ficaram pela estrada pedras, paus e rojões usados no ataque. A ação seria uma revanche pela armadilha perpetrada pela facção rival, meses antes, em duelo na Baixada. O palmeirense é a 13ª vítima de confrontos envolvendo organizadas em 2014. 

“Nossa intenção é conscientizar as pessoas. Não faz sentido marcarem brigas porque usam camisas diferentes. É a mesma coisa que eu bater no cara que vota no candidato x porque eu voto no candidato y”, compara Paulo. A ideia é expandir a parceria para os demais comércios da rua. Fiéis à iniciativa, querem tirar essa mancha do futebol.

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Luiz Felipe Barbiéri é aluno do Curso Estado

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