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'A Pele', clássico de Curzio Malaparte, ganha nova edição no Brasil

Autor destila humor e cinismo em uma verdadeira reportagem literária com toques autobiográficos

Martins Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

22 de dezembro de 2018 | 16h00

Em um mundo onde aqueles que têm opiniões polêmicas são chamados o tempo todo de “fascistas”, sem que ninguém saiba o que isto realmente significa, Curzio Malaparte (1898-1957) foi tudo isso de verdade. Filho de pai alemão, comerciante de tecidos, e de mãe milanesa, foi batizado com o nome de Kurt Erich Stuckert quando nasceu na Toscana, mas, já na Grande Guerra, resolveu lutar no lado alemão (e não do italiano) e deu-se uma nova alcunha, desta vez tirando sarro de Napoleão Bonaparte – o que já mostra um peculiar senso de humor que, anos depois, ficaria evidente nas duas obras-primas literárias escritas durante a 2.ª Guerra Mundial: Kaputt (1944) e A Pele (1949), agora republicada no Brasil pela Autêntica, com tradução de Beatriz Magalhães).

Em A Pele, esse humor tem um lado de macabro e, ao mesmo tempo, de trágico na hora de relatar o acontecimento dessas lutas que devastaram toda a Europa. Trata-se de uma reportagem literária, feita muito antes de surgir o “novo jornalismo” de Tom Wolfe e Gay Talese, com toques de autobiografia que deixaria qualquer “autoficção” lançada nos nossos dias a babar de inveja. Malaparte é uma testemunha cínica diante da chegada do Exército americano na cidade de Nápoles, logo depois da capitulação da Itália de Mussolini em 1943 – e sua reiterada canalhice diante dos “novos bárbaros” é fascinante porque o escritor conquista a simpatia deles de tal maneira que todos se esquecem que, alguns meses antes, ele próprio fazia parte dos “antigos bárbaros” que destruíram a Itália.

Foi no fascismo que Malaparte fez sua carreira política e literária. Um dos seus primeiros livros – Técnica de uma Revolução (1931) – ajudou Mussolini a sedimentar seu sistema de governo totalitário. E a sua visão crua da humanidade também permeia tanto Kaputt como A Pele. Segundo seu ponto de vista, o homem é um ser que conquista sua essência mais íntima mediante a força ou a degradação. A prosa de Malaparte acompanha este movimento perturbador de uma alma que registra este tipo de cosmos bem particular com uma precisão cirúrgica – sempre com o auxílio de um toque de humor surrealista, é claro – que, no fim, mostra a lógica de um poder absolutamente despido das suas vestimentas e dos seus rituais.

Esse poder nu é o tema principal de A Pele, que só não foi chamado de A Peste porque Albert Camus (que se encontrou uma vez com Malaparte e o desprezou solenemente) já roubara esse título com seu clássico romance de 1947; contudo, logo nas primeiras páginas, a conexão entre o poder, a moléstia e a onipresença do Mal é feita de modo explícito – e surpreendentemente belo: “Era uma peste profundamente diversa, mas não menos horrível, das epidemias que no medievo devastavam de quando em quando a Europa. O extraordinário caráter de tal novíssima doença era este: que não corrompia o corpo, mas a alma. Os membros permaneciam, na aparência, intactos, mas dentro do invólucro da carne sã a alma se estragava, se desfazia. Era uma espécie de peste moral, contra a qual não parecia haver defesa alguma.”

O fato de que foi um verdadeiro fascista que fez essa descoberta não a deslegitima de forma alguma. Pelo contrário: torna-a ainda mais fascinante. Como o próprio Malaparte dizia a respeito de si mesmo, é justamente porque ele foi uma “prostituta do poder” que nos mostra todos os mecanismos de como esta peste se infiltra em nossos corações – e como ela contamina até o mesmo o nosso Brasil. O seu fascismo se revela ao afirmar que entre a guerra e a peste, sempre preferiria a primeira – pelo simples motivo de que ele teria de fazer o que qualquer ideólogo odeia praticar: olhar para dentro do seu recanto mais íntimo e perceber que sua consciência foi manchada por esta procura alucinada pelo poder que contagiou a modernidade.

Ora, mesmo sendo um crápula, ele faz exatamente isso – e com um talento literário invejável. Como bem descreveu Milan Kundera, no ensaio que restabeleceu a importância estética de Malaparte na literatura europeia (incluso no livro Um Encontro), a grandeza dele está no instigante detalhe de que ele foi obrigado, tanto pelas exigências do tempo histórico como pelas obrigações da própria realidade, a criar uma nova forma de escrever um romance. Para ser mais exato, estamos diante de um “arquirromance” que mostra globalmente como esta peste espiritual é, na verdade, o miasma de um niilismo, o “vento negro” que acoberta os judeus crucificados nas estepes russas (sem dúvida, o episódio mais marcante de A Pele) e que corrompe cada uma das nossas ações.

A ideologia, aqui, pouco importa. Quando o italiano resolveu produzir a sua obra literária, fez o que todo escritor digno desse nome deveria fazer: denunciou a nossa vontade obsessiva de sermos “prostitutas do poder” e, como se isso não fosse suficiente, lançou uma obra-prima que é, na verdade, o testamento de um mundo em agonia. É neste momento que somos obrigados a fazer a seguinte pergunta: Quantas pessoas com coração de ouro podem ter tido essa alegria? Poucas, muito poucas. Pois é assim que “o vento negro” continua a soprar e a rondar a pele que protege os nossos crânios, graças aos relatos doloridos desta testemunha ambígua da história que foi Curzio Malaparte.

*Martim Vasques da Cunha é autor de 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira (Record); Pesquisador pela FGV-Eaesp

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